Saturno V 3.02 e vícios cognitivos
Desde o final 2006 e início de 2007, não tenho escrito artigos
didáticos nos quais dê algumas recomendações realmente
úteis e inéditas. Farei isso neste artigo. Creio, porém,
que só uma parcela muito pequena dos leitores poderá tirar algum
proveito, porque é necessário ter experiência com otimizações
de sistemas automáticos para se beneficiar com o que é dito
aqui, bem como é necessário ter lido meus artigos anteriores
sobre este tema.
Entendo por “vício cognitivo” a persistência em manter
um padrão de pensamento em determinado tipo de situação,
sem considerar determinadas particularidades que podem tornar a tal situação
muito peculiar e não susceptível a um tratamento convencional.
Quando uma pessoa recita a tabuada, por exemplo, está incorrendo num
vício cognitivo. Se a pessoa tivesse que fazer tabuadas usando um sistema
duodecimal, sentiria uma dificuldade considerável. Se um jogador de
Xadrez habilidoso for colocado para enfrentar um oponente menos habilidoso,
porém mudando apenas um detalhe nas regras: as peças trocam
seus movimentos, ou seja, os Bispos passam a se mover como Torres, as Damas
passam a se mover como Bispos, os Cavalos passam a se mover como Damas, etc.,
em tais circunstâncias um jogador menos experiente pode inclusive levar
algum tipo de vantagem (menor risco de cometer descuido) sobre os mais experientes,
por estar menos “viciado” em olhar para uma peça e associar
ao movimento dela, o que torna mais fácil para o menos experiente se
adequar às novas regras, pois nele aquele conhecimento está
menos cristalizado. Não é preciso ser necessariamente menos
experiente. Pode-se ser também mais flexível, mais receptivo
a novidades, menos conservador ao seguir tradições etc. Uma
pessoa habituada a usar teclado de computador, em que as letras ficam em determinadas
posições, cairia radicalmente de performance, na velocidade
de digitação, se todas as letras fossem trocadas de lugar, mas
uma pessoa sem muita experiência em digitação quase não
sentiria diferença. Isso não significa que ter menos experiência
é mais vantajoso. Significa apenas que a experiência, se não
for tratada com reservas, pode criar vícios que acabam dificultando
a resolução de problemas novos, ou mesmo de problemas antigos
que estejam sendo tratados da mesma maneira há muito tempo e por muita
gente. Quando se está lidando com uma situação que envolve
vícios cognitivos, soluções aparentemente simples e fáceis
podem se tornar muito mais difíceis pelo fato de envolverem a ruptura
de paradigmas. Uma solução melhor e relativamente evidente pode
ser difícil de se encontrar devido ao hábito de se resolver
determinado problema de determinada maneira, a tal ponto que nem se pensa
mais na solução, apenas pratica-se-á, perdendo, com isso,
oportunidades de inventar soluções melhores.
No ano passado, postei uma mensagem no maior e melhor fórum sobre Forex,
em que dei algumas dicas de como se deve proceder ao fazer back tests, e um
dos forenses, especialista em sistemas automáticos, que durante nossas
conversas se mostrou muito perspicaz e amável, disse-me que meus comentários
já lhe valeram o dia. O curioso é que não havia nada
demais nos meus comentários, exceto por um detalhe: estavam livres
de vícios cognitivos, vícios aos quais estavam presos praticamente
todos os especialistas em EAs, que depois de meses ou anos aplicando determinados
métodos, passaram a repetir estes métodos quase religiosamente,
sem se questionarem sobre a eficiência dos tais métodos. É
quase como as pessoas que transportam tijolos em caminhões, que fazem
basicamente o seguinte: um rapaz fica em cima da carroceria do caminhão
e outro fica no chão. O segundo joga os tijolos para o primeiro, que
os vai ajeitando sobre a carroceria. Depois levam os tijolos ao local de desembarque
e começam a descarregar da mesma maneira, porém inversamente,
com o de cima jogando os tijolos ao que fica no chão. Conforme comentou
nosso amigo Guilherme Marques dos Santos, isso é amplamente praticado
em construções do Brasil inteiro e, provavelmente, do mundo
inteiro. Porém é óbvio que se perde muito tempo com isso,
e seria muito mais vantajoso colocar todos os tijolos dentro de grandes caixas
com rodas, ou mesmo sem rodas, e arrastar estas caixas para cima da carroceria
por uma rampa. O tempo para colocar os tijolos dentro das caixas seria um
pouco maior do que ajeitar tudo sobre a carroceria, porém na hora de
descarregar, o tempo seria muito mais curto se os tijolos estivessem numa
caixa e, no processo inteiro, haveria quase 50% de economia de tempo.
Meus comentários e dicas no fórum não eram muito mais
complexos do que isso. Na verdade, eram bem simples. Não obstante,
se eram tão simples, por que ninguém havia pensado nisso? A
resposta é: trata-se de um vício. A pessoa faz algo e verifica
que funciona, então ela tende a repetir aquilo, em vez de tentar fazer
melhor. Provavelmente mais de 99,9% das pessoas agem desta maneira e, com
isso, podem não apenas deixar de encontrar soluções melhores
como também podem ficar encurraladas ao depararem com determinados
problemas não-triviais. Isso afeta a performance de mais de 99,9% dos
profissionais de todas as áreas: médicos, engenheiros, administradores...
Quando deparam com situações inusitadas, nas quais não
conseguem encaixar os modelos prontos de solução, que estão
habituados, ficam sem saber o que fazer, e normalmente acabam “empurrando
quadrados dentro de buracos circulares”, porque tentam forçar
o uso das soluções triviais que conhecem, em vez de formular
outras que possam ser mais apropriadas.
Esse fato me leva a pensar que um dos maiores erros que um trader pode cometer
é começar a estudar o Mercado acreditando que deve usar médias
móveis e seguir tendências. O fato é que realmente se
deve usar médias móveis e seguir tendências, porém
o correto seria duvidar disso tanto quanto possível, e só começar
acreditar que se deve agir assim depois que muitas tentativas de fazer algo
diferente se mostrassem infrutíferas, porque aqueles que simplesmente
acreditam que devem seguir tendências não diferem muito daqueles
que acreditam que devem usar Fibonacci, e a única vantagem de quem
acredita em tendências é que tem sorte por ter fé em algo
que funciona, porém ambos não compreenderão o que estão
fazendo nem porquê estão fazendo daquele modo, e não saberão
lidar com casos imprevistos nem poderão solucionar a grande maioria
dos problemas inéditos que surgirem. O erro não está
em usar as médias e seguir as tendências, mas sim em criar o
péssimo hábito de agir sem questionar as causas, sem procurar
compreender os processos subjacentes que justificam o comportamento observado.
Outro erro básico é pensar que quanto mais melhor. Uma das primeiras
possibilidades que considerei, e rapidamente descartei, ao começar
a mexer com sistemas automáticos, em outubro de 2006, foi justamente
usar o máximo de indicadores combinados. Depois cheguei a retomar esta
idéia em várias ocasiões, mas todas as vezes fui barrado
pelo mesmo problema: excede o poder de processamento das máquinas.
A idéia é fundamentalmente correta, porém inexeqüível
por limitações tecnológicas. Em 2007, um professor da
Unicamp me sugeriu a mesma coisa, e expliquei a ele que não seria possível,
mas ele não se convenceu. Recentemente, recebi propagandas de uma pessoa
tentando me vender um EA. O teor da propaganda era semelhante às de
xampu, do tipo: “está cientificamente comprovado que o 10
em 1 creme de gororoba deixa seus cabelos 354% mais liso”. Obviamente
não quis perder a oportunidade de conversar com o sujeito e saber o
que ele tinha a dizer em defesa do que ele pretendia me vender. Salvei toda
a conversa no MSN, e vários trechos foram hilários. O sujeito
começou me chamando de “meu rei”. Uma ex-namorada me chamava
de “princesinho”, mas um homem me chamar de “meu rei”
me pareceu um pouco, digamos, anti-profissional. Logo no início, ele
disse que o EA era baseado em mais de 20 indicadores combinados. Este comentário,
por si, já demonstrava que o EA tinha baixíssimas probabilidades
de funcionar, devido às imensas dificuldades para se otimizar um EA
que use tantos parâmetros. Ao longo da conversa, ele se saiu surpreendentemente
bem, muito melhor do que eu achava que ele se sairia, e é provável
que ele consiga convencer grande parte das pessoas de que o produto dele funciona.
Meu foco era simples: eu pedi a ele que me convencesse por meio de um back
test de 8 anos ou com uma performance em tempo real acima de 1000%, em quanto
tempo ele quisesse, 10 anos, 1 ano, 2 meses, quanto ele quisesse, desde que
fosse acima de 1000%, já que performances de 100% ou menos podem ser
obtidas por mera sorte, pois um sistema que opere aleatoriamente tem quase
50% de probabilidade de chegar a +100% de lucro antes de quebrar. Mas tem
bem poucas chances de chegar a 1000% ou mais. Ele disse que levaria anos para
chegar a 1000%, e não interessava a ele disponibilizar um teste tão
demorado, e disse que não podia fazer back test porque senão
eu ficaria com cópia do EA, além de ele operar vários
pares de uma vez, mas nos back tests só se consegue rodar em 1 par
de cada vez. Para a primeira objeção, eu disse que poderia levar
minha plataforma e minha base de dados para testes num DVD, e ele rodaria
na máquina dele, depois destruiríamos o DVD, de modo que eu
não ficaria com cópia de nada. Quanto à segunda objeção
dele, era legítima, embora ele não tivesse apresentado argumentos
suficientes. Se um EA opera vários pares e aproveita correlações
entre estes pares para conter o risco e contrabalançar posições
opostas, e em vez de fechar uma posição de 1 lote de EURUSD,
pode-se abrir uma posição de USDCHF de mesmo tamanho e deixar
ambas abertas, e quando uma delas der sinal de inversão, fechar a positiva
e deixar a outra; isso pode ser, em alguns casos, melhor do que usar stop.
Em lugar de comprar USDCHF, poderia ser também uma venda de EURUSD
para contrabalançar a outra, com algumas pequenas diferenças
pelo fato de haver correlação -1 no segundo caso e um pouco
menor (módulo menor) no primeiro. No entanto, ele não justificou
dessa maneira, sem contar que ele não demonstrava ter conhecimento
sobre como reduzir a redundância entre os tais indicadores, além
de outros problemas. Enfim, ele não foi nada convincente para meus
padrões, mas tenho quase certeza de que deve ter seduzido muitas pessoas.
Não é minha intenção julgar o rapaz, aliás,
não acho que ele seja muito pior do que a grande maioria dos gestores
e fundos e prospectores para estes fundos, que existem por aí, ou os
vendedores de cursos de análise gráfica, que ensinam a fazer
desenhos bonitos, porém inapropriados para se fazer qualquer prognóstico
com base nos tais desenhos. A diferença é que ele talvez deixe
as pessoas perderem sem limites, enquanto os fundos, pelo menos em teoria,
interrompem as perdas em determinado ponto, e os cursos de análise
técnica não causam perda diretamente, apenas colocam nas mãos
da pessoa a corda para se enforcarem. Claro que durante os períodos
de alta, como qualquer estratégia sem sentido acaba produzindo lucro,
muitos acabam se iludindo com as técnicas que usam, mas basta uma reversão
para os trazer de volta à realidade.
Com um limite em torno de 9,23 quintilhões de possibilidades, o algoritmo
genético do Meta Trader não consegue otimizar sistemas com grande
quantidade de parâmetros. Esta era uma das dificuldades a serem superadas
em nossos back tests. Usar muitos indicadores inevitavelmente incorre neste
problema. Vejamos um exemplo:
IFR entre 0 e 100 variando de 1 em 1
Stop Loss entre 5 e 500 variando de 5 em 5
Take Profit entre 5 e 1000 variando de 5 em 5
Trailing Stop entre 5 e 500 variando de 5 em 5
Período da média curta entre 1 e 100 variando de 1 em 1
Período da média longa entre 2 e 200 variando de 1 em 1
Estas 6 variáveis, com apenas 3 indicadores, já totalizam mais
de 4.000.000.000.000 de possibilidades. Com mais 2 ou 3 variáveis e
ultrapassaria o limite do Meta Trader. Estreitar o intervalo, algo como IFR
mínimo entre 10 e 40 e máximo entre 60 e 90, é um procedimento
elementar que ajuda a atenuar o problema, bem como usar passos mais largos,
como Take Profit entre 10 e 1000 variando de 10 em 10 (em vez de variar de
5 em 5). Tais medidas são adotadas por todo mundo, porém há
outras medidas simples que praticamente ninguém adota e que podem tornar
a otimização muito mais rápida e eficiente. Um dos truques
consiste em definir o Trailing Stop como uma fração do Take
Profit, já que não faz sentido ter valores de TS maiores que
o TP, conforme comentei no fórum de Forex Pivot Brasil. O mesmo vale
nos casos das médias móveis, já que quando uma é
necessariamente mais longa, pode-se colocar uma como fração
da outra. Isso elimina milhões de casos de M1 > M2, que não
fariam sentido, e enxuga a otimização. Estes pequenos detalhes,
relativamente simples, incrivelmente não são usados em nenhum
EA do mundo, até onde sei, e foi considerado importante e inovador
quando postei isso no maior fórum sobre Forex em língua portuguesa.
Um típico caso de vício cognitivo que coloca viseiras nas pessoas,
limitando muito a visão para possibilidades diferentes das tradicionais.
Mas estes pequenos aprimoramentos não resolviam o problema do Saturno
3.0 para rodar em GBPUSD e USDJPY, e ainda ultrapassava sextilhões
de possibilidades. A solução foi um pouco mais requintada, mas
ainda assim bastante simples (prefiro não revelar os detalhes), e agora
o Saturno 3.02 está conseguindo operar também GBPUSD, mas ainda
estão sendo feitos alguns testes de confirmação. Um detalhe
surpreendente foi que, embora a volatilidade na GBPUSD seja maior que no EURUSD,
alguns parâmetros associados à volatilidade, que deveriam ficar
maiores na GBPUSD, acabaram ficando menores, enquanto outros, que deveriam
ficar menores, acabaram maiores.
O fato é que o EA do rapaz, com 20 indicadores, sem contar stop, take
profit etc., mesmo ele se valendo de vários recursos, inclusive fazendo
algumas mágicas, seria extremamente difícil não ultrapassar
os limites do algoritmo genético do Meta Trader. Além disso,
mesmo que fosse possível otimizar todas as variáveis, o risco
de uma superespecialização seria muito alto. Quanto mais indicadores
se usa, mais especializado deve ficar o EA no período de teste e menores
são as probabilidades de que ele continue a funcionar nos anos subseqüentes.
Um EA com 3 ou 4 indicadores deve estar no limite prático do que pode
ser otimizado, podendo chegar a 5 ou 7 em situações especiais.
A dificuldade de otimização (se feita corretamente) cresce exponencialmente
com o aumento no número de indicadores.
Outro erro grave e freqüente é pensar que quanto menos, melhor.
O erro anterior é menos grave, pois só representa um erro enquanto
não existem equipamentos suficientemente velozes, portanto não
representa um erro em si, mas sim inadequação aos recursos disponíveis,
ao passo que o erro da simploriedade é intrínseco e real. Idéias
excessivamente simples têm poucas chances de funcionar e isso é
bem fácil de mostrar: basta tentar otimizar estratégias simples
para constatar que nenhuma configuração possível as torna
promissoras. Apesar dessa facilidade para verificar que não funcionam,
mais de 99% das pessoas não se preocupam em testar suas estratégias
antes de usá-las. Entre os 1% que testam, a maioria o faz sem o uso
de sistemas automáticos e os testes acabam sendo horríveis.
Menos de 0,1% faz testes usando sistemas automáticos, e praticamente
todos estes 0,1% incorrem em dezenas ou centenas de falhas metodológicas
ao fazer os testes. Um amigo que contratou minha consultoria em 2008, por
exemplo, extremamente capacitado, pensou que poderia usar bases final de dia,
em vez de bases tick-by-tick, desde que configurasse para usar as barras passadas
para gerar o sinal e só entrasse no fechamento ou na abertura do candle
seguinte, assim não importariam os ticks internos do candle. Outro
amigo, membro da Sigma e que em 2006 me ajudou a editar uma base de ticks,
está usando bases de 1 minuto e 5 minutos, com base na mesma hipótese.
Expliquei a ambos que há vários problemas, e expliquei alguns,
mas não consegui convencer o Lutz de que testes em bases de 1 ou 5
minutos são inapropriados. Ele inscreveu seu “Lucky” no
Automated Trading Championship 2008. Naturalmente estou torcendo por ele,
mas os resultados dos testes mostram que provavelmente não terá
muito sucesso. Convém dizer também que Lutz deduziu o critério
Kelly (sem conhecer) e teve escore muito alto no Sigma Test, é uma
pessoa excepcionalmente talentosa, muito criativo e com pensamento lógico
exato e profundo. Apesar disso, mesmo há quase 2 anos no Forex, ainda
faz testes que pecam em muitos, muitos aspectos. Fazer testes apropriados
é imprescindível, caso contrário não é
possível identificar estratégias vitoriosas ao deparar com elas,
nem é possível otimizar corretamente os parâmetros. É
possível que ninguém no Brasil e, talvez, pouquíssimos
no mundo façam back tests usando metodologia apropriada. A quantidade
de detalhes que devem ser considerados é muito maior do que a maioria
imagina. O uso de bases de ticks é a ponta do iceberg, e mesmo 2 anos
depois de eu ter escrito meu primeiro artigo chamando a atenção
para esta necessidade, ainda há muitos traders altamente capacitados
usando bases de 1 minuto.
Outro erro que se comete é pensar que quanto mais sofisticado, melhor.
Eu já incorri neste erro algumas vezes e ainda não estou imune
a ele. O uso de estimadores robustos é objetivamente melhor do que
o uso de estatísticas clássicas, porém o tempo de processamento
necessário para otimizar indicadores robustos torna discutível
o seu uso. Há meios de contornar este problema, mas sempre é
necessário levar em conta se uma otimização com 10.000
gerações usando um indicador clássico não seria
mais útil do que com 100 gerações usando um indicador
robusto, ou ainda se dedicar 10 dias a uma otimização com indicador
clássico não seria melhor do que dedicar 1000 dias à
otimização de um indicador robusto, pois no primeiro caso os
990 dias restantes poderiam ser aproveitados no aprimoramento da estratégia.
Uma das soluções mais simples consiste em fazer otimizações
preliminares com indicadores clássicos, para poupar tempo e ter uma
idéia aproximada do intervalo no qual cada variável deve ser
otimizada, para numa segunda etapa substituir os indicadores clássicos
por outros robustos e então fazer um refinamento, mas isso pode não
funcionar em algumas situações. A sofisticação
pode ser boa na maioria dos casos, assim como a simplificação
(na acepção de Occam), porém o bom-senso deve estar sempre
presente para estimar até que ponto a sofisticação e
a simplificação são desejáveis, toleráveis,
úteis.
De modo geral, é importante evitar vícios cognitivos, evitar
repetir mecanicamente os mesmos procedimentos, sem se questionar sobre a eficiência
e a legitimidade do que se está fazendo. Evitar acreditar no que dizem
os livros, os sites, os gurus. No livro “Magos do mercado”, por
exemplo, os entrevistados dizem tantos absurdos e cometem tantos erros que
chega a causar espanto que tenham conseguido tanto sucesso. Provavelmente
chegaram ao topo mais por terem um feeling excepcional do que por terem desenvolvido
algum método funcional e o seguirem sistematicamente. Bruce Kovner,
que me pareceu um dos mais lógicos entre os entrevistados, algumas
vezes deu respostas que nem sequer eram pertinentes à pergunta que
lhe havia sido feita. Na ocasião em que opinou sobre um trader precisar
de algum talento especial ou se bastava treinamento, a meu ver, expôs
uma opinião contraditória. Em algumas situações,
seria compreensível que uma resposta evasiva fosse intencional, para
evitar fornecer informações sigilosas, mas naquela situação
parece que ele simplesmente não tinha uma idéia clara de quais
deveriam ser os elementos necessários para ser um bom trader, que,
aliás, não é uma questão fácil, sobretudo
para uma pessoa que não seja especialista em cognição
e epistemologia. Ele afirmou que não achava necessário ter algum
tipo de talento especial, porém ele selecionou, entre mais de 1000
pessoas, apenas 20 para serem treinados, e, entre os quesitos, a pessoa deveria
jogar Xadrez, além disso, escolheu justamente os mais inteligentes
do grupo, e ainda alegou que só escolheu os mais inteligentes porque
estavam disponíveis, não porque a inteligência fosse um
quesito primordial. Bem, os outros 980 menos inteligentes também haviam
se colocado à disposição, então acho que não
procede ele ter dito que selecionou os mais inteligentes apenas porque estavam
disponíveis. Como se isso não bastasse, uma das perguntas que
ele fez no processo seletivo foi: “se você achasse que um
determinado ativo deveria ser comprado, e, então, você telefonasse
para o Pregão e soubesse que eu (Bruce Kovner) estava vendendo aquele
ativo, o que você faria?” e a resposta que ele considerava
apropriada era que a pessoa mantivesse a decisão dela própria,
ou seja, que a pessoa fosse fiel ao seu estilo pessoal e ao seu feeling mais
do que ao método que Kovner lhe havia ensinado e praticado, demonstrando
que ele queria pessoas que confiavam no próprio talento mais do que
nas técnicas estudadas. Outra contradição meio grave
é cometida por Michael Marcus, que diz que não acredita que
atualmente (1988) seja possível ganhar usando sistemas seguidores de
tendência, como se fazia na década passada (aludindo a Ed. Seykota).
Mais adiante, ele aponta como uma das recomendações mais importantes:
manter as posições ganhadoras e fechar as perdedoras. Mas essa
recomendação só faz sentido se o trader estiver seguindo
tendência! Apesar dos erros e contra-sensos, o livro é muito
interessante e tem vários trechos úteis. Além disso,
há muito menos erros do que em “Axiomas de Zurique”, e,
embora não seja tão bom quanto “Reminiscências de
um especulador financeiro”, tem a vantagem de ser mais atual. Diria
que é um dos melhores livros sobre o assunto, porém li tão
poucos que não estou capacitado para emitir um parecer sobre quais
os melhores. Outro comentário que me chamou a atenção
foi a declaração de Paul Thudor Jones, de que usa Ondas de Elliot.
Talvez, pela experiência e sensibilidade que ele adquiriu, o uso do
conceito das ondas para ajudar no reconhecimento de padrões pode ter
sido muito útil, porém não conheço e não
creio que seja possível descrever objetivamente como as ondas deveriam
ser usadas, de modo que um sistema automático fosse capaz de testar
concretamente a eficiência do método e produzir resultados positivos.
As ondas são facilmente reconhecidas quando se olha para o passado,
mas usá-las como meio de previsão é esotérico.
Para finalizar, além das dicas postadas no Forex Pivot Brasil, aqui
e em alguns artigos, há muitas outras que não divulgo, ou algumas
que são divulgadas exclusivamente em consultorias. Duas delas são
sobre o fator de lucro e percentual da carteira. O fator de lucro, tal como
é calculado pelo Meta Trader, não faz sentido quando o crescimento
é exponencial, porque se a performance for ruim no início do
período de teste e melhor no final, o fator de lucro fica artificialmente
grande. Para que se possa comparar o fator de lucro entre dois conjuntos de
parâmetros é preciso levar isso em consideração,
pois em alguns casos um fator de lucro 2,3 pode ser efetivamente menor do
que 1,9, mesmo mantendo iguais o balanço, drawdown, número de
trades etc. O simples fato de os movimentos mais longos ocorrerem no final
do período já torna o fator de lucro inflacionado. Isso significa
que pode ser melhor usar lotes fixos nos testes, em vez de usar um percentual
da carteira, pois assim tanto no início quanto no final, os movimentos
terão mesmo efeito sobre o fator de lucro. Por outro lado, durante
a otimização podem ocorrer longos períodos de estabilidade,
com a carteira não crescendo nem decrescendo durante anos, e quase
todo o ganho ser produzido em apenas 10% do período, com alguns sobressaltos,
o que é ruim, pois não há constância na evolução
da carteira. Seria muito mais aconselhável eleger um conjunto de parâmetros
em que o crescimento seja uniformemente distribuído ao longo de todo
o período de teste. Para contornar este problema, é vantajoso
usar porcentagens da carteira em cada operação, em vez de lotes
fixos, e usar a maior porcentagem possível, perto de levar margin call,
porque assim, um conjunto de parâmetros que deixe o sistema estável
durante alguns anos usando 50% da carteira em cada operação,
deixaria o mesmo sistema subindo se aplicasse 10% em cada operação,
porque se perder 50% numa operação, precisará ganhar
100% para voltar ao valor original, mas se perder 10%, basta subir 11,1% para
voltar ao valor original. Esta é uma maneira indireta de dizer ao programa
que você quer resultados nos quais o crescimento seja constante, ou
quase monotônico. Nenhum livro fala sobre isso, nenhum site, nenhum
fórum trata disso, e estes detalhes fazem uma diferença enorme.
Estes são alguns dos muitos diferenciais mais simples adotados na metodologia
de otimização do Saturno. Isso faz dele não apenas o
melhor, mas além disso é o melhor mesmo submetido aos testes
mais rigorosos e bem fundamentados. Isso significa que é melhor usar
lotes fixos ou porcentagem da carteira, ao fazer uma otimização?
Bom, depende. :-)
Para finalizar, uma sugestão de link para download de milhares EAs
e indicadores gratuitos e alguns comerciais (EuroX2 e Phoenix 5, por exemplo):
http://www.forexmt4.com/mt_yahoo.
Nenhum deles funciona (não tem esperança matemática positiva),
mas possuem algumas strings prontas que podem ser úteis, além
disso, é como disse certa vez Thomas Edison, depois de 8.000 tentativas
frustradas: “agora pelo menos sabemos 8.000 maneiras diferentes de como
isso não deve ser feito”.