Problema com Índice de Sharpe
Por Hindemburg
Melão Jr.
Hoje fiz uma pesquisa sobre o tal GWI, que quebrou com 89% de prejuízo, mas não consegui achar a informação que procurava. Queria uma tabela que vi uma vez, de todos os fundos comparados ao CDI e ao IBOV. Procurei na ANDIB, CVM e Bovespa, mas não achei. Pesquisei no Google etc., mas não achei a tal tabela. Porém achei isso:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fundo_de_investimento
E vi o Índice de Sharpe. A Wikipedia é um dos
projetos mais interessantes dos últimos anos, quase no nível do
Google Earth e Skype; a versão anglófona da Wikipedia é
uma das melhores fontes de referência para a maioria dos assuntos. Por
sua vez, a versão lusófona tem alguns artigos de boa qualidade
e outros que deixam muito a desejar, geralmente por falhas administrativas.
Na versão inglesa, o artigo sobre Forex, por exemplo, é rico em
informações detalhadas, atuais e imparciais, ao passo que na versão
portuguesa o artigo está completamente devastado pelo fato administradores
sem conhecimento sobre determinados assuntos não conseguirem se abster
de colocar a mão no que desconhecem, e, invariavelmente mexem para remover
informações enriquecedoras e esclarecedoras, para, em lugar delas,
colocar referências que induzem a uma interpretação tendenciosa,
superficial e muito incompleta. O mesmo problema se observa em vários
outros artigos sobre Educação, Psicologia, Economia, entre outros.
Enfim, deixando os “donos” da Wikipedia de lado, o fato é
que o índice de Sharpe não se presta satisfatoriamente ao fim
para o qual foi criado. Em princípio, este índice deveria possibilitar
comparar as performances de diferentes fundos de investimento, levando em conta
um benchmark e a volatilidade. A fórmula do índice de Sharpe é:
IS = ( RF – RLR ) / DP
RF = Retorno do Fundo
RLR = Retorno Livre de Risco
DP = Desvio Padrão do Retorno do Fundo
O primeiro problema com esta fórmula é que não leva em
conta o fato de não existir “retorno livre de risco”. Tanto
CDI e IBOV quanto Dow Jones, todos estão sujeitos a flutuações,
cada um tem sua própria volatilidade, e esta deveria ser considerada.
Outro problema é que ganhar 20% não é o mesmo que perder
20%. Se um fundo perder 20%, depois ele precisa ganhar 25% para voltar ao nível
anterior ($100 – 20% = $80. Para voltar a $100, os $80 precisam subir
25%). Se perder 50%, terá que ganhar 100% para voltar ao nível
inicial. E se perder 95%, terá que ganhar 1900% para voltar ao valor
original. Assim, uma fórmula mais apropriada é (para que a fórmula
não fique sem nome, chamaremos carinhosamente de IM = Índice Melão):
IM = PFM / {[(1+DPp) / (1–DPp)]^0,5 – 1} –
BREF / {[(1+DPr) / (1–DPr)]^0,5 – 1}
ERP = Escore Real da Performance
PFM = Performance Medida
BREF = Benchmark de Referência (Ibov ou CDI, por exemplo)
DPr = Volatilidade da REF (pode ser desvio-padão ou alguma outra medida
de dispersão)
DPp = Volatilidade da PFM
Esta fórmula apresenta duas diferenças importantes: a referência
(mesmo que seja Renda Fixa) tem uma oscilação, então usamos
DPr e DPp, para deixar as oscilações niveladas. E em lugar de
DPp usamos {[(1+DPp) / (1-DPp)]^0,5 – 1}, com um análogo para DPr,
que faz uma enorme diferença quando a volatilidade é muito alta.
Vejamos um exemplo: suponha dois fundos: A e B. O fundo A rendeu 24% nos últimos
12 meses, enquanto o fundo B rendeu 11% no mesmo período. Qual deles
é o melhor? Estas informações são insuficientes
para avaliar. Se considerar também que a volatilidade do fundo A foi
22,03% neste período, e no fundo B foi 10,15%, então podemos verificar
que o fundo A teve escore 1,09, enquanto o fundo B teve escore 1,08, assim,
com base no índice de Sharpe, se poderia supor que o fundo A é
o melhor. Mas usando a fórmula mais apropriada, se pode constatar o contrário,
pois o fundo A teria performance 0,96 enquanto o B teria 1,03. O fato de o fundo
A ter obtido maior retorno se justifica por ter exposto o capital a maior risco,
e a relação risco/retorno foi mais favorável no fundo B,
embora o índice de Sharpe indique o contrário. Outra comparação:
Um fundo cresce 120% em 1 ano, enquanto o Ibov sobe 93%, sendo que a volatilidade
do fundo é 69% e do Ibov é 55%. O índice de Sharpe indicaria
que este fundo cresceu mais que o Ibov, pois daria 1,74 para o fundo e 1,71
para o fundo. Porém, aplicando a fórmula mais apropriada, teríamos
0,899 para o fundo e 1,098 para o Ibov, portanto a relação risco/recompensa
é pior no fundo do que se comprasse o índice.
Na verdade, o critério deveria ser mais elaborado e considerar máximo
drawdown relativo (para cobrir outliers), número total de operações
(para verificar se a performance é parte de uma amostra representativa
de operações ou se foi fruto apenas poucos trades de sorte/azar),
porcentagem de operações com lucro etc. O fato de a distribuição
não ser gaussiana também compromote o uso de desvio-padrão
como indicador de dispersão, enfim, seria mais preciso dar outro tipo
de tratamento, mas esta fórmula já possibilita ter uma idéia
mais correta e de maneira simples.
Há que se levar em conta também que se o cálculo do desvio-padrão
for substituído pelo cálculo do logaritmo dos desvios, como se
recomenda que seja feito ao calcular volatilidade, isso altera a fórmula,
pois já embute a informação de que os ganhos percentuais
precisam ser maiores para recuperar perdas, ou seja, se perder 20%, será
preciso ganhar 25% para recuperar a perda.
Um bom fundo depende de uma estratégia vitoriosa e uma gestão
de capital eficiente. A esmagadora maioria não tem estratégia
nenhuma. Limitam-se a praticar Buy & Hold. Entre os poucos que adotam alguma
estratégia, normalmente são de baixa qualidade e ficam abaixo
do benchmark. Nos raríssimos fundos que ficam acima do benchmark, poucos
adotam uma gestão de capital apropriada, e é questão de
tempo até que saiam do mercado. Os fundos de Buffett, Soros (e Duckenmiller),
Simons, Kovner, Peter Lynch, Tudor Jones etc., são exceções,
por isso se conservam no Mercado há décadas.