Pergunta
-------Mensagem original-----
De: José António Ferreira Vieira <anemolifvieira@netc.pt>
Para: sigma.2000@sti.com.br <sigma.2000@sti.com.br>
Data: Sexta-feira, 9 de Junho de 2000 20:37
Assunto: Dúvidas
Caro Hindemburg Melão Jr:
Tenho algumas dúvidas acerca de testes de inteligência:
-Um individuo sendo inteligente pode não conseguir obter
boas classificações em testes intelectuais?
-Em alguns testes que por brincadeira realizo online tenho alguns
resultados muito pouco concordantes, mesmo quando a escala utilizada
é a mesma. Por exemplo no site de Carlos Simões
existem 3 testes de matrizes, em que um deles achei-o mais ou
menos dificil, outro um pouco mais e o teste de matrizes de Nicolas-Elena,
apesar de o não ter realizado todo achei-o muito dificil.
-Será que tudo isto faz de mim alguém não
muito inteligente?
Muito
obrigado pelo seu tempo:
Jorge Vieira
Resposta
Olá,
Jorge!
Existe
uma grande variedade de testes de inteligência, e cada teste
tem suas prioridades. Alguns valorizam muito a cultura, outros
valorizam o pensamento lógico, outros levam em conta a
criatividade ou a memória.
Os tradicionais testes de Binet, que deram origem aos primeiros
testes de inteligência, estão intimamente ligados
à linguagem, à velocidade de raciocínio e
à cultura geral. Nesses testes as questões que envolvem
raciocínio são extremamente fáceis e só
exigem velocidade.
Os testes de QI continuam sendo aplicados no mundo todo, mas com
maior reserva do que no início do século, porque
agora sabemos que seus resultados podem apresentar grandes discrepâncias.
Os testes de nossos amigos Carlos Simões, Xavier Jouve
e Nik Lygeros, bem como os testes de Ronald Hoeflin, Paul Coojimans
e nossos Desafios, são muito mais difíceis que os
testes de QI convencionais, e em vez de estabelecer um limite
de tempo reduzido, eles oferecem liberdade total com relação
ao prazo. Eu acredito que tais testes sejam muito superiores aos
testes de QI convencionais, embora tenham as evidentes desvantagens
decorrentes da impossibilidade de serem supervisionados.
O que acontece é que nem sempre a pessoa mais inteligente
é também a mais veloz, ou a mais culta, ou tem a
melhor memória. Portanto, é fundamental que um bom
teste de inteligência leve em conta, se possível,
apenas as características fundamentais que uma pessoa inteligente
deve ter. Ainda assim, os resultados podem apresentar erros consideráveis.
É importante ter em mente que um teste de inteligência
avalia "o desempenho de sua inteligência numa atividade
específica"; ele não mede sua inteligência
propriamente dita. E com base nesse desempenho, o teste nos permite
estimar a magnitude intrínseca de sua capacidade intelectual.
Não é como medir a altura de uma pessoa, em que
se pode aferir diretamente a grandeza que se deseja determinar.
Em vez disso, é como avaliar a força de um halterofilista.
Nesse caso, não há como medir diretamente sua capacidade,
mas podemos medir o desempenho de sua força quando aplicada
a uma tarefa específica, que consideramos adequada para
medir a grandeza que chamamos de "força". Por
exemplo: colocando-o para levantar pesos.
Note que ao medir a altura de uma pessoa, o resultado é
um valor seguro, que representa efetivamente a altura da pessoa
no momento da medida. Mas quando desejamos medir a força
de uma pessoa, o máximo que conseguimos é saber
até que ponto a força dessa pessoa foi capaz de
auxiliá-la na execução de uma tarefa que
(consideramos que) exige força.
Se a tarefa usada como referência for adequada, teremos
um resultado representativo da força da pessoa. Se a tarefa
for inadequada, o resultado terá pouca ou nenhuma validade.
Vamos supor que a força da pessoa fosse avaliada por meio
de um combate. O resultado dependeria de agilidade, força,
velocidade, coordenação, conhecimento de técnicas
específicas a até mesmo a "sorte". A força,
portanto, seria apenas uma das componentes, de modo que o resultado
não indicaria a pessoa mais forte. Indicaria (talvez) a
pessoa mais habilidosa para combate.
No caso dos testes de inteligência, é preciso que
avaliem os elementos que constituem a inteligência. E é
importante que avaliem todos esses elementos e exclusivamente
esses elementos.
Um teste como o que acabo de descrever simplesmente não
existe. O que tentamos fazer é criar um teste que se aproxime
do ideal. Cada uma das pessoas que elabora testes de inteligência
tem suas próprias convicções sobre quais
devem ser as características mais importantes a serem medidas.
Os testes do nosso amigo Carlos, por exemplo, usam séries
de números, outros usam figuras, outros usam palavras ou
frases. E é muito interessante que mesmo com toda essa
variedade, os resultados sejam mais ou menos próximos.
Observa-se que entre testes de QI diferentes ocorrem discrepâncias
de até 80 ou 100 pontos! Ou seja: a mesma pessoa pode obter
120 num determinado teste de QI e 200 em outro! Mas a margem de
variação entre os testes sem limite de tempo é
bem menor. Dificilmente você encontrará alguém
que tenha obtido 150 num teste de Hoeflin e 190 num teste de Lygeros
(ou o contrário). Creio que a eliminação
do fator "tempo" seja um dos motivos dessa diferença
diminuir. Ao eliminar um fator, é imprescindível
que se tenha certeza de que tal fator (no caso o "tempo")
é irrelevante.
Portanto, os instrumentos de que dispomos atualmente não
são totalmente seguros, mas são melhores, em minha
opinião, do que os testes de QI tradicionais.
Os testes que você citou, os do Carlos e os de Nicolas-Elena,
são de fato difíceis. Eu não resolvi o problema
que dá acesso para o site do Carlos (recentemente ele me
enviou a resposta). É possível que eu conseguisse
se tivesse me empenhado mais, mas isso não importa. O importante
é que achei muito difícil. Por outro lado, outras
pessoas podem achá-lo fácil pelo fato de suas mentes
serem (ou estarem) melhor adaptada para lidar com problemas desse
tipo. Um exemplo muito mais interessante é o de ligar água,
luz e gás a três casas. Eu conheço esse problema
há 15 anos, mas nunca havia chegado à solução.
Recentemente o nosso amigo Wesley me disse que o tinha resolvido
e eu teimei com ele que tal problema não tinha solução.
;-) Ele me disse que esse problema "não tem uma solução
algébrica". Ainda não sei exatamente o que
ele quis dizer com isso, mas tenho uma idéia vaga, e isso
já ajudou muito! Essa informação me permitiu
encontrar a solução em alguns minutos. Então
apresentei o mesmo problema a nossa amiga Juçana, mas nada
disse a ela sobre "não ter solução algébrica".
E ela encontrou a solução em menos de uma hora!
Ao todo eu levei mais de 15 anos, e ela o resolveu em alguns minutos.
Isso mostra que cada problema requer um tipo específico
de "potencial". Se você fizer um teste que requer
potencialidades diferentes das que você tem mais desenvolvidas,
certamente sentirá dificuldades e o resultado não
lhe será muito agradável. Por outro lado, se se
submeter a um teste que exige justamente aquelas habilidades que
você possui altamente desenvolvidas, então achará
tudo fácil, terá melhor desempenho e terá
melhores chances de ficar satisfeito com o resultado.
No caso de um teste diversificado e com grande número de
questões, os resultados tendem a ser mais confiáveis.
Além disso, é importante que os testes exijam o
mínimo possível de conhecimento, de "exclusões
por tentativa e erro" e de "trabalho mecânico"
(ou trabalho repetitivo). Um bom teste deve exigir principalmente
originalidade e engenhosidade.
Quanto à sua pergunta sobre uma pessoa inteligente poder
se sair mal num teste de inteligência, isso é não
só possível como também é provável,
tendo em conta que existem muitos testes diferentes e nem todos
eles avaliam realmente a inteligência. Mas se sua pergunta
fosse: "uma pessoa que se sai bem num teste de inteligência
pode não ser muito inteligente?" Então a resposta
seria outra: eu acho quase impossível que uma pessoa que
não tenha muita inteligência possa obter bons resultados
num teste. Eu acho que um teste indica "o QI mínimo"
de uma pessoa, portanto, se num teste você obtém
140, em outro 126, em outro 112 e em outro 171, então o
mais próximo de sua capacidade real deve ser 171. Claro
que estou pressupondo que sejam testes normados e com mesma escala.
Conheço muitas pessoas extremamente talentosas e inseguras,
que se acham pouco inteligentes embora sejam brilhantes. Esse
sentimento pode ter diferentes origens. É natural que uma
pessoa que procura se comparar com Newton, Dostoiévsky,
Nietzsche e Voltaire terá maior probabilidade de se achar
pouco inteligente do que uma pessoa que se compara às outras
pessoas com quem convive diariamente. Uma experiência interessante
é você encher três bacias com água.
Uma das bacias deve ter água bem fria, a outra deve ter
água bem quente (mas não o suficiente para queimar
a pele) e a outra deve ter água à temperatura ambiente.
Deixe a bacia com água à temperatura ambiente no
meio das outras duas, e mergulhe uma mão na água
quente e a outra na água fria. Permaneça assim por
alguns minutos. Depois retire simultaneamente as duas mãos
e mergulhe ambas na bacia com água à temperatura
ambiente. Você terá sensações diferentes
nas duas mãos, porque cada uma delas se habituou a um meio
diferente. O mesmo acontece em quase todas as comparações
subjetivas.
Um abraço!
Piu