Pergunta
--------Mensagem
original-----
De: jack.brother <jack.brother@bol.com.br>
Para: hmjr@sti.com.br <hmjr@sti.com.br>
Data: Segunda-feira, 5 de Junho de 2000 21:38
Assunto: dúvida...
Prezado Hindemburg, primeiramente quero parabenizá-lo pelo
ótimo site. Estou escrevendo na tentativa de obter uma
opinião sua a respeito de uma dúvida. Para você,
a inteligência pode ser digamos, melhorada, pode-se "aumentar"
o QI ?. Há tudo quanto é tipo de informação
no assunto, desde reportagens, pesquisas e outros elementos do
gênero. Pergunto isto, pelo seguinte: sou uma pessoa extrovertida
e muito, e por ter um comportamento deste tipo, muitas pessoas,
errôneamente, acabam por fazer um estereótipo, achando
que pessoas assim nunca querem nada com nada. Alguns me definem
como uma pessoa muito complexada, e de fato, quando reflito sobre
isto, torna-se um fantasma devido à tal complexo.
De fato, no meu segundo grau, não tinha muito interesse
pelos estudos, mas tirava boas notas. Acontece que sempre fui
um apaixonado por física ( embora cursando direito ), mas
nunca fui um aluno do tipo gênio em tal matéria,
muito pelo contrário, algumas vezes era satirizado por
professores e por colegas. Provavelmente e, tenho quase certeza,
que meu tamanho complexo teve origem por aí. Gostaria de
uma opinião sua a respeito, e sobre o que lhe perguntei:
há como melhorar o QI? e mais: há alguma explicação,
p. ex., sobre histórias de gênios famosos ( inclusive
Einstein, não sei se é verdade ) que eram tidos
como péssimos alunos e que de repente acabam surpreendendo?
Gostaria que você não " desprezasse " minha
indagação, dado seu elevado QI.
Obrigado
Resposta
Olá,
Jack!
Tudo bem?
Agradeço pela visita e pelos elogios ao site.
Pela minha sensação, a inteligência é
constituída por diferentes elementos que desempenham diferentes
funções. Alguns desses elementos podem evoluir muito,
outros podem variar muito pouco e outros simplesmente não
podem variar. A cultura é o elemento mais fácil
de ampliar e ao mesmo tempo é o menos "nobre"
_ por assim dizer _ entre os que constituem a inteligência.
A criatividade é possivelmente o mais nobre e um dos mais
difíceis de aprimorar.
Eu acredito que seja possível melhorar o desempenho em
atividades intelectuais em proporções sensíveis,
mediante treinamentos adequados. Isso não é o mesmo
que "aumentar a inteligência", mas, para todos
os fins práticos, é quase a mesma coisa.
Tais "treinamentos" devem se basear na "educação
do pensamento", a fim de torná-lo mais organizado,
mais lúcido, mais profundo etc. Você pode encontrar
mais alguns comentários sobre a possibilidade de incrementar
a inteligência em nosso artigo "Um novo modelo de estrutura
mental".
Se você é da área jurídica, certamente
já fez algum curso de memorização e/ou leitura
dinâmica. Eu nunca fiz nenhum curso desses, mas tenho uma
idéia de como funcionam (ou deveriam funcionar). Por meio
desses cursos, a pessoa consegue acelerar a velocidade de leitura,
mas não acelera a velocidade do pensamento, de modo que
o ganho em velocidade é contrabalançado por perdas
em outros setores, como a compreensão menos profunda das
leituras, por exemplo, ficando mais ou menos na mesma, ou seja,
o resultado pode produzir algum ganho útil na leitura de
textos simples ou de listas de palavras, mas não funciona
para textos que exigem entendimento. Quanto à usar técnicas
mnemônicas para organizar as informações em
estruturas que facilitem o resgate futuro, isso eu considero eficaz
e não vejo efeitos colaterais significativos.
Com relação aos outros assuntos que você coloca,
eu também nunca fui um bom aluno e só tirava notas
suficientes para ser aprovado.
Com relação a ter sido vítima de brincadeiras
desagradáveis de professores e alunos, isso é realmente
um problema triste. Creio que deveria existir algum mecanismo
de proteção ao aluno, que impedisse que professores
ou outros alunos fizessem comentários depreciativos, principalmente
nos casos de crianças muito jovens, porque isso pode deixar
seqüelas.
Eu desconfio que nossa amiga Juçana lhe recomendaria fazer
psicanálise, em vez de procurar aumentar o QI, porque a
questão principal é de insatisfação
pessoal, não de incompetência. Digo isso porque em
sua mensagem está claro que você é uma pessoa
inteligente, que se expressa com clareza e objetividade, e não
existe nenhum motivo para se sentir insatisfeito (ao menos não
a um ponto em que isso represente um complexo).
A situação é mais ou menos como a de um homem
de 1,80m que tenha complexo de altura, porque desejava ser jogador
de basquete e queria ter 2,30m. O problema não está
com a altura dele, que na verdade é até acima da
média. O problema está na insatisfação
com uma característica que não pode ser mudada com
facilidade.
Veja bem: não estou dizendo que você não deve
se empenhar para crescer intelectualmente. Muito pelo contrário:
eu acho que todos devem se esforçar para crescer espiritualmente,
mentalmente e fisicamente. Porém, é necessário
identificar onde realmente está o problema que causa infelicidade
ou desconforto. E no seu caso não se trata de falta de
inteligência, por isso de nada lhe ajudaria (no âmbito
emocional) aumentar seu QI. Se passasse de 120 a 125, logo você
desejaria chegar a 128, depois a 130 e nunca estaria feliz nem
satisfeito. Por outro lado, se você se empenhar para ter
um melhor entendimento da origem do problema, isso sim o ajudará
a se sentir melhor.
A insatisfação é importante para o crescimento,
mas ela não pode gerar complexos. A insatisfação
deve atuar como um estimulante, sem o qual não haveria
evolução.
Minha opinião é que você deve procurar um
especialista, porque eu conheço muito pouco sobre psicanálise
e infelizmente não tenho como ajudar nisso.
Quanto à explicação para o fato de autênticos
gênios terem se passado por incompetentes, isso pode ter
muitas causas diferentes. Geralmente se os professores estiverem
bem preparados _ coisa que raramente acontece _, os gênios
serão reconhecidos independente de comportamentos extravagantes
ou baixo rendimento escolar. Mas como a maior parte dos professores
não está preparada para lidar com pessoas talentosas,
e o sistema educacional não dispõe de uma estrutura
adequada para atender a essas pessoas, o resultado é um
ambiente de conflito, que conduz à falta de motivação,
ao desinteresse e muitas vezes à evasão escolar.
Nos casos de crianças prodígio, quando provenientes
de famílias cujo poder aquisitivo lhes proporciona um padrão
vida melhor e culturalmente mais promissor, podem ser educadas
num ritmo mais acelerado e com isso escapam da morosidade tradicional
do sistema de ensino, mas nesses casos podem surgir outros problemas,
como o desajuste social devido a falta de contato com outras pessoas
de mesma faixa etária.
Trata-se de uma questão delicada e até o presente
momento eu não conheço nenhum sistema pedagógico
adequado para crianças e jovens severamente talentosos.
Abração!
Piu