Oráculo
De: Leandro (cedeno@uol.com.br)
Enviada em: segunda-feira, 20 de janeiro de 2003 15:47
Olá Hindemburg
Sou o Leandro C. Hernandes, tenho 16 anos
Eu te mandei um e-mail, um tempo atrás, sobre as Olimpíadas
de Física, e pensando bem no assunto, considero que há
uma margem de segurança, não basta somente as estatísticas.Recentemente
recebi o resultado final em que fiquei em 42º lugar em nível
nacional, fiquei muito feliz com o resultado e muito motivado
para o estudo da Física que resolvi tirar uma dúvida
que tenho já a um certo tempo.
A dúvida é a seguinte: ''Quando um corpo cai livremente
de uma determinada altura, consideramos que ele adquire um movimento
de aceleração constante, no caso do planeta Terra,
perto dos 10m/s^2.Essa aceleração resulta de uma
força, que é a gravitacional.Até ai tudo
bem, mas pensando em gravidade consideramos que quanto mais próximo
está um objeto do outro, maior será a força
gravitacional entre eles, no caso essa força seria inversamente
proporcional ao quadrado da distância, mas se a força
então for maior, como a massa é a mesma, irá
resultar em uma aceleração maior, disso concluímos
que a aceleração da gravidade é variável,
uma espécie de ''aceleração da aceleração'',
a medida que o objeto vai caindo, mais força atua sobre
ele, ao contrário do que os livros didáticos de
Física dizem, que o objeto sofrerá uma aceleração
apenas, devido a força constante que age sobre ele.A variação
é pouca de força, mas existe.Esse pensamento é
certo?É realmente o que ocorre?E mais uma coisa, se elaborássemos
um gráfico de impulso, força em função
do tempo, para o que está nos livros didáticos resultaria
numa reta, com força constante, mas se esse gráfico
fosse baseado nesse meu pensamento, com força variável,
resultaria numa parábola, já que há a lei
do inverso do quadrado?''
Parabéns pelo site, que continua melhorando a cada dia
e um grande abraço!!!
Até mais!!!
Resposta
Olá,
Leandro!
Tudo bem?
Fico feliz por saber que está aumentando seu interesse
pela Física e tendo bons resultados em Olimpíadas.
Desejo-lhe sucesso.
Em alguns casos, os livros apresentam informações
erradas porque o autor não conhece o assunto. Em outros
casos, ninguém conhece o assunto, inclusive o autor, e
isso geralmente acontece quando o livro está tratando de
teorias de ponta. Outras vezes o autor conhece o assunto, mas,
para simplificar, ele aborda a questão de uma maneira “inexata”
e isso é muito comum em livros didáticos. No volume
1 do “Curso de física Básica” de Herch
Moysés Nussenzveig, o autor comete mais de 200 "erros",
sendo que praticamente todos consistem em simplificações
e não devem ser considerados propriamente “erros”,
pois certamente o autor sabe que a informação não
é exatamente aquela que ele apresenta, mas ele a simplifica
com a finalidade de torná-la mais acessível. Entre
outras coisas, ele fala em “distância média
da Terra ao Sol”, quando deveria dizer “semi-eixo
maior da órbita da Terra”. Quando ele diz “distância
média”, o leitor pode concluir que se trata do raio
que teria uma circunferência cuja área fosse igual
à da elipse representada, ou (o que seria a mesma coisa)
que se fossem aferidos vários (N) raios uniformemente distribuídos
ao longo da órbita, depois todos esses raios fossem somados
e o resultado fosse dividido por “N” (com N tendendo
ao infinito), o quociente da divisão representaria “a
distância média da Terra ao Sol”. Mas o que
o autor desejava expressar não era isso. O que ele queria
dizer era “a metade da distância que separa as duas
extremidades mais afastadas da órbita”. Numericamente
a diferença é notória: o semi-eixo maior
da órbita terrestre em 1996 foi medido em cerca de 149.597.870.691m
(com incerteza estimada em 3m), enquanto a distância média
da Terra ao Sol é de aproximadamente 149.576.985.930m.
Praticamente todas as vezes que se faz alusão à
distância média, o que se pretende dizer é
“semi-eixo maior“, porque é o semi-eixo maior
que se usa para calcular o período orbital, entre outras
coisas.
Primeiro se ensina que a Terra é redonda, tal como Aristóteles
percebeu no século IVa.C.; depois se aprende que ela não
é redonda, mas elíptica, tal como previu Newton,
no século XVII; depois se aprende que não é
elíptica, porque um dos pólos é mais achatado
que o outro, como ficou constatado no século XX, com medições
por satélite; depois se aprende que além de um dos
pólos ser mais achatado que o outro, existem diversas protuberâncias
no equador e em outras latitudes, como ficou constatado depois
de muitas medidas de alta precisão, usando vários
satélites. Por fim, aprende-se que a Terra é um
geóide-elipsóide tri-axial com diversas pequenas
irregularidades. Não precisaríamos de alta tecnologia
para perceber isso; bastaria olhar em nosso redor, para chegar
à essa conclusão (sobre as irregularidades), mas
essa conclusão diz muito pouco sobre a forma do nosso planeta
e é muito mais importante saber que a Terra é redonda
do que saber que ela tem irregularidades, porque as irregularidades
são evidentes, mas para perceber que ela é redonda
Aristóteles precisou associar o fato de os cascos dos navios
desaparecerem antes dos mastros, quando os navios se afastam,
e isso acontece em qualquer direção (se fosse apenas
num par de direções, a Terra poderia ser um cilindro,
como pensara Anaximandro, dois séculos antes). Também
é importante perceber que ela é uma elipse, como
resultado forças concorrentes, e que um pólo é
mais achatado que o outro, devido à distribuição
heterogênea das massas continentais (há mais continentes
no Hemisfério Norte que no Hemisfério Sul, portanto
a altura média é maior), é importante perceber
que existem protuberâncias e irregularidades, como resultado
de efeitos geológicos, acidentes (colisões com meteoros),
librações etc. Se fizermos um desenho da Terra numa
folha de papel, ela não poderia ser distinguida de um círculo,
porque num desenho com raio de 30mm (~bola de bilhar) o achatamento
polar seria 0,1mm (espessura de uma folha de papel) e se todas
as irregularidades (Monte Everest, K2, Fossa das Marianas etc.)
fossem representadas numa maquete do tamanho de uma bola de bilhar,
essa maquete ainda seria mais lisa e teria um aspecto mais perfeito
(em relação a uma esfera) que uma bola de bilhar
típica. Portanto é muito satisfatório ensinar
a uma criança que a Terra é esférica. Para
o adolescente que já aprendeu o que é uma elipse,
pode ser conveniente fornecer dados mais acurados, e para quem
vai pesquisar o assunto é necessário conhecer todos
os dados disponíveis. Analogamente, se você lançar
uma pedra para cima e usar g=10m/s^2, seu cálculo sofrerá
muito mais prejuízo devido à viscosidade do ar do
que devido às variações em função
da altitude. Se em vez de jogar algo para cima você usar
um sistema estático (gravímetro), vai anular o efeito
do ar e obter resultados diferentes em altitudes diferentes. Se
você lançar um foguete a alguns milhares de quilômetros
de altitude, também vai poder constatar que a fórmula
que presume g constante não funciona bem. No entanto o
livro didático está presumindo que você tem
à mão uma pedra, mas não um gravímetro
ou um foguete. Para a esmagadora maioria das pessoas que vai ler
esse livro didático, a fórmula simplificada já
constitui uma dificuldade excessiva e poucas vezes essas pessoas
conseguem perceber, pelo enunciado, qual fórmula deve ser
aplicada. Só uma quantidade bem pequena de alunos vai entender
com facilidade a fórmula e se questionar sobre sua validade.
E quem escreve livros didáticos geralmente está
preocupado em atender às necessidades da maioria.
Sempre que você ler alguma coisa, procure interpretar pesando
no que lhe parece mais provável que aconteça numa
situação real, e geralmente você vai chegar
a conclusões mais corretas do que se confiar no conteúdo
do livro. A aceleração gravitacional varia em função
da latitude, da altitude e da densidade. Os outros corpos também
influem, mas relativamente pouco. A temperatura também
influi pouco (mudando a densidade do ar e, portanto, alterando
a intensidade do empuxo).
Basta você pensar que um corpo vai subindo, subindo, subindo,
até chegar à órbita da Lua, para concluir
que em grandes altitudes a aceleração gravitacional
é diferente do que é na superfície e a fórmula
que supõe g constante falha. No universo real, também
é preciso levar em conta as posições do Sol,
da Lua e, dependendo da precisão que você deseja,
é preciso considerar também outros corpos celestes
e eventuais objetos próximos que tenham grande massa (montanhas).
E por falar em influência gravitacional que o Sol exerce
sobre o peso de objetos situados na Terra, vou aproveitar a oportunidade
para citar um problema interessante, para o qual Sagan apresenta
uma solução equivocada:
Para eliminar elementos que compliquem excessivamente o problema,
vamos considerar um sistema constituído exclusivamente
por uma bola de gude de um grama, uma balança de mola com
precisão de 10^-9 grama, a Terra (sem atmosfera) e o Sol,
sendo que a balança está no equador, o eixo de inclinação
da Terra deve ser considerado zero e a órbita da Terra
deve ser considerada uma circunferência perfeita. O sistema
fica isolado de tudo o resto, de modo que nenhuma pessoa ou objeto
pode causar qualquer perturbação sensível
na medição. Com exceção dessas especificações,
tudo o mais acontece como em situações reais. Nessas
condições, o peso da bola, determinado pela balança,
naturalmente vai mudar ao longo do dia, de acordo com a variação
da posição relativa do Sol. O problema consiste
em determinar qual o peso máximo atingido pela bola (com
9 decimais) e em que horário se verifica o peso mínimo.
Sagan trata desse problema num artigo em que desmistifica a astrologia
calculando as influências que os astros podem exercer sobre
as pessoas, e embora ele não use as especificações
de ausência de atmosfera, órbita circular, eixo não-inclinado
e isolando o sistema do resto do universo, isso pode ser presumido.
Eu não tenho certeza, mas acho que exatamente o mesmo erro
foi cometido por Asimov, ao tratar de um problema análogo.
O problema fica aqui como desafio. Se alguém acertar, o
nome será divulgado.
Outro erro dos livros didáticos é dizer que a força
gravitacional é igual G*m1*m2/r^2, quando na verdade deveria
ser G*(m1+m2)*m2/r^2, porque obviamente uma pedra com massa 10kg
é atraída pela Terra com uma força maior
do que uma pedra com massa 1kg (se ambas forem colocadas à
mesma distância do baricentro da Terra). Claro que a proporção
entre as intensidades não é 10 para 1. A proporção
é (MT+10)/(MT+1), onde MT = Massa da Terra (5,9747*10^24kg),
portanto a diferença só será notada na 25ª.
decimal. Mas quando se tratam de corpos grandes, as diferenças
são fáceis de notar. A Lua, por exemplo, é
atraída para a Terra com intensidade 1,23% maior que um
satélite artificial situado exatamente à mesma distância.
Para chegar a essa conclusão, basta você ir imaginando
pedras sucessivamente maiores, até que a pedra atinja o
mesmo tamanho (e massa) da Terra. Então ficará claro
que duas Terras não vão se atrair com a mesma força
que a Terra atrai uma bola de tênis. Muitos professores
insistem que o correto é G*m1*m2/r^2, em vez de G*(m1+m2)*m2/r^2,
e depois que você sugere que eles confirmem pelos dados
empíricos, alguns tentam remendar a situação
dizendo que “r” se refere à distância
entre o baricentro do sistema e baricentro do corpo de menor massa.
Mas não é isso que diz a teoria. A teoria fala em
“distância do baricentro do corpo de menor massa ao
baricentro do corpo de maior massa” ou “distância
entre os centros dos corpos”. Esse é de fato um erro
conceitual que muitos cometem. Também é comum encontrar
cálculos sobre a aceleração gravitacional
a diferentes profundidades (escavando em direção
ao centro) sem levar em conta o fato da densidade não ser
uniforme, mas isso é feito para simplificar, não
é propriamente um erro. Muitas vezes o autor sabe o que
de fato acontece, porém ele apresenta o problema de maneira
simplificada, cuja única intenção é
verificar se o aluno tem coordenação motora para
copiar a fórmula. Em alguns casos o consenso geral é
errado: há vários séculos se sabe que o Sol
tem um movimento de rotação axial em relação
às estrelas de fundo, sabe-se que o período é
cerca de 24,6 dias no equador e 36 dias nas proximidades dos pólos,
sabe-se que todo corpo que gira tem achatamento polar resultante
da força centrífuga, no entanto, pensava-se que
o Sol fosse esférico!! Foram necessárias medidas
empíricas para constatar um achatamento de 24km, exatamente
o que seria esperado para um corpo com as características
do Sol (raio 696.000km, massa 1,989*10^30kg, rotação
25 dias). Até mesmo a Lua, que é formada por rocha
sólida (em vez de plasma, como é o caso do Sol)
tem um achatamento muito semelhante ao que seria esperado, devido
ao seu passado líquido, em que ela esteve mais susceptível
às deformações causadas pela força
centrífuga. Outro exemplo é o desvio da luz na presença
de um campo gravitacional, que também poderia ter sido
previsto usando mecânica newtoniana e considerando o fóton
uma partícula com massa zero. O resultado seria exatamente
o mesmo previsto pela Relatividade, mas sem usar absolutamente
nada de Relatividade. Os desvios no periélio de Mercúrio
e várias outras pretensas “confirmações”
da Teoria da Relatividade também podem ser explicadas usando
mecânica newtoniana. Eu não conheço o suficiente
sobre teoria de supercordas para me certificar de que é
certo o que vou dizer, posso estar dizendo uma grande bobagem,
mas eu acho que usando o modelo de supercordas é possível
descrever todos os fenômenos quânticos, recorrendo
apenas à mecânica newtoniana, sem precisar de nada
de relatividade e nada de mecânica quântica.
Outro “erro” que aparece com freqüência
em livros de Astronomia é a fórmula para calcular
a que distância “d” se pode enxergar o horizonte
quando o observador está “h” metros acima do
solo. Geralmente as fórmulas são “d=k*raiz(h)”,
onde k costuma variar entre 3800 e 3900 quando é levada
em conta a refração atmosférica, e 3570 quando
não se leva em conta a atmosfera. Obviamente isso só
funciona quando h é muito pequeno em comparação
ao raio do planeta. A fórmula correta, como você
já deve ter deduzido, usaria um triângulo retângulo
etc. e seria complementada pela refração atmosférica
para diferentes latitudes, altitudes, temperaturas e comprimentos
de onda.
Muito
do que você encontra em livros sobre pêndulos também
é incorreto. Como conseqüência da variação
da gravidade em função da altitude e da massa do corpo
pequeno, pode-se presumir que a massa e a altitude do pêndulo
influem em seu período, mas numa proporção
imperceptível, causando erro lá pela 20ª. decimal.
No entanto, três outros fatores causam erros mensuráveis
na terceira ou até na segunda decimal: a massa do fio em
relação à massa pendurada (porque desloca o
baricentro), a amplitude de oscilação e a viscosidade
do ar.
Enfim, é recomendável que você leia com reservas
e bons critérios, sempre se questionando sobre a possibilidade
da informação ser incorreta e tentando refutá-la.
Se não encontrar uma refutação e se a idéia
lhe parecer pertinente, é possível que seja correta.
Suponhamos, por exemplo, que você nunca tivesse lido nada
sobre Astronomia, e assistisse na TV a uma entrevista com Ronaldo
Mourão em que ele comentasse que a Lua fica a 380km da Terra.
Você simplesmente poderia considerar que a distância
entre São Paulo e Rio de Janeiro é de 430km, portanto
algo deve estar errado... Ou se você fosse ao observatório
do capricórnio e o palestrante lhe dissesse que o periélio
é o ponto em que um corpo fica mais distante do Sol e afélio
é o ponto em que fica mais próximo, bastaria você
ter noções sobre prefixos para perceber o erro. Nesses
dois casos, são descuidos de pouca importância. Nos
casos de informações simplificadas o assunto é
discutível. E os verdadeiros erros conceituais, estes são
graves, mas são comparativamente muito mais raros.
Um abraço!
Piu
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