-----Mensagem
original-----
De: Pedro Bessa [mailto:pedbessa@uol.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 28 de novembro de 2002 16:03
Para: Hindemburg
Assunto: ao Oráculo
Como
se constrói uma bomba atômica?
Como se constrói uma bomba de nêutrons?
-----Mensagem original-----
De: Pedro Bessa [mailto:pedbessa@uol.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 28 de novembro de 2002 16:06
Para: Hindemburg
Assunto: ao Oráculo
Eu
tentei enviar essa mensagem, deu erro
dizendo que a mensagem não havia sido
enviada e depois a mensagem apareceu
nos Itens enviados. (?)
Como
se constrói uma bomba atômica?
Como se constrói uma bomba de nêutrons?
-----Mensagem original-----
De: Pedro Bessa [mailto:pedbessa@uol.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 28 de novembro de 2002 16:09
Para: Hindemburg
Assunto: bomba de anti-matéria
Eu
não perguntei como se constrói uma bomba de anti-matéria
porque eu acho que a humanidade não tem responsabilidade p/
lidar com uma.
Resposta
Olá,
Pedro!
Tudo bem?
Eu estava feliz por ver que suas últimas perguntas
não estavam mais relacionadas a matar sua mãe, mas agora começo
a ficar preocupado novamente. Espero que sua intenção não seja
destruir o mundo. :o)
As questões sobre bomba atômica e bomba nuclear
são triviais, você pode encontrar vasto material na Net. Mas a
questão sobre bombas de anti-matéria é mais interessante. De qualquer
modo, como a maioria do material sobre energia atômica disponível
na Net é muito mal explicado e acrítico, vou dar uma pincelada
nesses assuntos também e depois tratar de bombas de anti-matéria.
Basicamente
uma explosão atômica resulta da fissão de núcleos de átomos grandes
e instáveis (Urânio, Plutônio etc.) em átomos menores. Isso se
consegue fazendo incidir nêutrons de alta energia sobre os núcleos
desses átomos. Se o átomo grande tiver meia-vida longa (for pouco
radioativo), como o U-238, então o processo será muito difícil
(talvez impossível). Por isso é que em vez de U-238, utilizam-se
seus isótopos mais instáveis: U-235, U-234, U-233. O U-235 é cerca
de 140 vezes mais escasso que o U-238, e o próprio U-238 não e
um elemento abundante, portanto a construção deve começar pela
extração de matéria prima, ou seja, de Urânio. O Urânio encontrado
na natureza não é separado em quadrinhos, como nas tabelas periódicas;
ele se encontra misturado, tanto U-238, como 237, 236 são encontrados
em forma de rochas e estão incrustadas umas nas outras, porém
em proporções diferentes, sendo o U-238 o mais abundante e o U-233
o mais raro. Por isso, para obter U-235 (e menor quantidade de
234 e 233) você precisa reunir muito U-238 e depois “peneirar”
repetidas vezes, até conseguir quantidade suficiente de U-235
(e mais leves). Esse processo é caro, exige alta tecnologia e
abundância de matéria-prima. Depois que você tiver uns 3,5kg de
U-235, precisará de elementos radioativos que lhe permitam gerar
nêutrons de alta energia. Esses elementos serão a “espoleta”
que vai desencadear o processo. Tendo esses materiais em mãos,
basta obter a estrutura onde serão colocados o explosivo e o detonador.
Precisa ser um receptáculo com dois compartimentos separados e
de modo que a separação posse ser removida (para que ocorra a
explosão). Providencie uma caixa, com dois compartimentos. Num
dos compartimentos ficará o U-235 e no outro ficará o detonador.
Deve ser colocado um isolante adequado entre ambos (chumbo espesso,
por exemplo). Quando o isolante for removido (quando a bomba cair
e se deformar), os nêutrons emitidos pelo detonador atingirão
o combustível/explosivo e cada núcleo de U-235 atingido vai se
dividir em núcleos menores + outros nêutrons + energia, de modo
a produzir uma reação em cadeia, em que os nêutrons gerados pela
fissão atingirão outros núcleos, produzirão outras fissões, e
assim por diante. Para que a fissão seja auto-sustentável, é necessário
que haja uma determinada quantidade de matéria físsil (massa crítica),
caso contrário o processo inicia, libera um pouco de energia e
termina sem haver explosão. Dependendo da quantidade de matéria
físsil e das condições para regular o ritmo do processo, pode-se
ter uma reação controlada e produzir energia gradativamente, durante
longo tempo, para suprir as necessidades da população (reator
nuclear), ou ter uma reação descontrolada e produzir muita energia
num curto intervalo de tempo (bomba).
A
bomba de hidrogênio funciona devido ao processo inverso: em vez
de dividir um átomo em outros átomos menores, o processo consiste
em unir átomos leves para formar outros mais pesados. É o que
acontece nas estrelas. No Sol a temperatura superficial é 5770K
e no núcleo chega a 16.000.000K. As regiões mais “frias”
são as manchas solares, que atingem cerca de 4300K. Em estrelas
azuis, a temperatura superficial pode chegar até 50.000K na superfície
e mais de 200.000.000K no interior. Nas anãs vermelhas a temperatura
na superfície pode ser de apenas 2300K, e quando a temperatura
é muito menor que isso, não chega a ocorrer fusão nuclear, o astro
não emite luz no espectro visível e não é classificado como “estrela”.
No caso de Júpiter, por exemplo, ele emite mais energia do que
recebe do Sol, porém a energia que ele emite não é no espectro
visível, portanto ele é considerado um planeta joviano, não uma
estrela.
Com temperaturas centrais da ordem de 10.000.000K,
toda a matéria se encontra em estado de plasma, isto é, os elétrons
ficam “livres” dos núcleos dos átomos. Nessas condições,
os núcleos não ficam protegidos por eletrosferas que se repeliriam
e evitariam que os núcleos entrassem em contato, por isso as partículas
colidem umas com as outras, e em alguns casos ocorre fusão nuclear.
Há vários processos desse gênero, dos quais o mais simples é o
p-p I. Vejamos o p-p II: o próton é constituído por dois quarks
up (cada um com carga +2/3) e um quark down (-1/3). O nêutron
é constituído por dois quarks down e um quark up. Quando dois
núcleos de hidrogênio (isto é, dois prótons) colidem, um dos quarks
up que constitui um dos prótons emite uma partícula virtual W+,
e assim o quark up se transforma num quark down (+2/3 menos +1
= -1/3), ou seja, um dos prótons se transforma num nêutron e o
outro próton continua sendo próton, portanto os hádrons resultantes
formam um núcleo de deutério. O bóson W+, emitido nesse processo,
rapidamente se transforma num pósitron e num neutrino (o neutrino
é para manter o número leptônico balanceado). Esse bóson W+ é
uma partícula virtual e precisa ter um tempo de vida muito curto,
para não violar o Princípio da Incerteza. Em seguia, outro núcleo
de hidrogênio (leia-se “outro próton”) colide com
o de deutério, formando um núcleo de Hélio 3 e liberando um par
de fótons. Depois, um núcleo de Hélio 4 (2 prótons e 2 nêutrons)
colide com o de Hélio 3, formando um núcleo de Berílio 7 e liberando
um par de fótons. Então incide um elétron sobre esse núcleo, e
esse elétron transforma um dos quarks up de um dos prótons, em
um quark down, transformando o próton em nêutron, assim o átomo
de Berílio se transforma em Lítio 7 e libera um neutrino. Por
fim, incide um próton sobre o núcleo de Lítio 7, que se transforma
num par de núcleos de Hélio 4. O resultado líquido do processo
é a conversão de 4 núcleos de Hidrogênio em 1 de Hélio, e cerca
de 0,7% da massa envolvida é convertida em energia pela famosa
equação E=mc^2. Isso é muito maior que a energia liberada no processo
de fissão.
Essa
explicação é contraditória, mas é a explicação convencional e
todo mundo a engole. Um dos problemas é que a massa de repouso
do próton é menor que a massa de repouso do nêutron, no entanto,
na primeira etapa do processo um próton desprende um pedaço e
em vez de sua massa diminuir, sua massa aumenta e ele se transforma
num nêutron. O pior é que a massa do bóson W+ é cerca de 90 vezes
maior que a massa do próton, ou seja, o próton libera uma parte
de si que é 90 vezes maior que ele inteiro. Mas para que a história
tenha um final feliz, o bóson só existe durante um intervalo muito
pequeno e depois se transforma num pósitron+neutrino. Para justificar
essas hipóteses, foi proposta a idéia de que uma partícula pode
“tomar emprestada” do nada (do vácuo quântico) uma
certa energia, desde que a devolva num intervalo curto. Típico
“remendão”. Em vez de se empenhar para formular uma
teoria decente, os teóricos se satisfazem com qualquer explicação
esdrúxula e depois procuram justificar a teoria com alguns retoques.
Mas para construir uma bomba você não precisa saber porque ela
funciona. Basta que saiba como fazer para ela explodir. :o) O
fato das câmaras de bolhas exibirem rastros que sugerem a existência
de partículas e processos como estes, não significa que esta seja
uma boa explicação (como de fato não é). Os mesmos rastros podem
ser explicados de outras maneiras, sem abusar nas contradições.
Provavelmente, no futuro esses processos serão melhor compreendidos
e terão uma explicação razoável, sem invocar fantasmas.
No
caso de uma bomba de anti-matéria, a dificuldade para obter matéria
prima seria muito maior do que para obter U-235, em compensação
ela teria um poder de destruição 150 vezes maior. U-235 você pode
minerar e extrair da terra, mas você não encontra anti-matéria
em lugar nenhum do nosso planeta. Se em algum momento existiu
um átomo de anti-matéria em nosso planeta, em pouco tempo (menos
de 1 segundo) ele colidiu com alguma partícula da vastidão de
matéria ao redor, e foi convertido em energia. Se em alguma parte
do universo houver anti-matéria em quantidade significativa, talvez
seja possível detectar traços disso, mas não haveria como coletar
essa anti-matéria, porque ao entrar em contato com qualquer matéria
(por exemplo, um saquinho plástico no qual nós tivéssemos
a intenção de guardá-la), ela se transformaria em energia (e também
converteria em energia uma massa equivalente da matéria em que
tocou). A pouca anti-matéria que já pudemos detectar foi produzida
em laboratório, ou seja: foi usada energia para produzir matéria
+ anti-matéria, mas a finalidade de uma bomba é justamente o contrário:
usar matéria + anti-matéria para produzir energia. Uma fantasia
seria obter anti-matéria dos mésons, porque os mésons são formados
por um quark e um anti-quark. Mas em minha opinião isso é mais
uma contradição grosseira da teoria, porque matéria e anti-matéria
não poderiam co-existir sem que se transformassem em energia.
O
fato é que não se sabe o que é a matéria, e muito menos o que
é a anti-matéria. Sabe-se que aquilo a que se chama “matéria”,
quando entra em contato com aquilo a que se chama “anti-matéria”,
as massas se convertem em energia. O modelo teórico sugere que
seja muito difícil (impossível) construir uma bomba de anti-matéria,
mas como o modelo provavelmente está errado, talvez seja só uma
questão de tempo.
Uma bomba de anti-matéria ou bomba de quarks
pode ser muito útil para desviar asteróides em rota de colisão
com a Terra ou, em casos de asteróides pequenos, podem até mesmo
ser despedaçados em fragmentos pequenos o bastante para que sejam
pulverizados ao entrar na atmosfera. Quanto aos perigos que representariam
essas bombas, eu suponho que seriam pequenos, porque elas provavelmente
seriam armazenadas na face oposta da Lua (é o lugar seguro mais
próximo em que posso pensar). Conforme sabemos (basta olhar pra
Lua mais de duas vezes), ela mantém sempre a mesma face voltada
para a Terra, porque seus movimentos de rotação e translação são
iguais (cerca de 27,321661 dias), e qualquer coisa situada na
face oposta não teria como atingir a Terra a menos que atravessasse
a Lua inteira, e isso seria improvável até mesmo para uma bomba
de anti-matéria.
As armas nucleares são suficientes para exterminar
milhares de vezes toda a vida no planeta, portanto as bombas de
anti-matéria não somariam perigo algum à situação atual. Claro
que se as bombas de anti-matéria fossem mais susceptíveis à detonação
involuntária e se fossem armazenadas na Terra, o perigo seria
maior.
Eu acredito que nenhuma fonte de energia conhecida
atualmente será suficiente para abastecer a humanidade nos próximos
anos a menos que haja uma política rigorosa de controle de natalidade
e racionamento. Qualquer descoberta nesse campo abriria um vasto
leque de possibilidades, tanto no sentido de possibilitar transportes
a longas distâncias (outros sistemas planetários) como no abastecimento
de energia e na prevenção contra desastres naturais, especialmente
asteróides. Por isso seria interessante algo como “energia
gerada por anti-matéria”, desde que a existência da vida
não seja ameaçada pelo perigo de acidentes em larga escala.
Um abraço!
Piu