Pergunta
-----Mensagem
original-----
De: JOSEB.NOVOA [mailto:JOSEB.NOVOA@terra.es]
Enviada em: domingo, 18 de agosto de 2002 06:39
Para: sigma@ sigmasociety.com
Assunto: capacidad y ajedrez
Hola,
Me gustaría hacerle dos preguntas:
¿cuál cree usted que sería el máximo
ELO FIDE que podría alcanzar una persona con un cociente
intelectual de 125-130, con un buen entrenamiento y práctica
a lo largo de varios años?
¿existe
un mínimo de capacidad mental para jugar ajedrez a la ciega
(1,2 o más simultáneamente) y qué habilidad
es más importante para jugar a ciegas: memoria, velocidad
mental, pesamiento lógico, habilidad mental espacial, etc...(aparte
del conocimiento ajedrecístico, claro está)? Gracias
por su atención, Atentamente, José
Resposta
Hola,
José!
Saludos!
Nosso amigo Eduardo Corrêa da Costa, há algum tempo
me enviou uma lista com os nomes de várias personalidades
e seus respectivos QIs. Entre os nomes de enxadristas, constava
o de Kasparov, com QI 123 no RAPM e 135 no Eysenck. Ambos são
testes bem reputados. Também sabemos que Kasparov superou
a marca dos 2850 de rating e que esse rating corresponde a cerca
de 190 de QI. Como interpretar esses dados?
O RAPM é principalmente um teste de velocidade, e o desempenho
em testes de velocidade pode variar amplamente em comparação
ao desempenho em testes de pensamento profundo e imaginação,
mas essa não é uma explicação adequada
para o caso de Kasparov, porque além de ser muito veloz,
ele também é muito profundo e original. A diferença
gritante pode ser atribuída a um ou mais entre uma vasta
gama de fatores: pressa, ansiedade, insegurança sobre as
respostas ou, ao contrário, excesso de confiança.
Mas a explicação que atualmente considero a mais
plausível é excesso de profundidade na análise!
Embora isso possa parecer contraditório, na verdade é
uma explicação pertinente, porque uma pessoa excepcionalmente
criativa e veloz, como Kasparov, tende a enxergar mais associações
e analogias do que outras pessoas, assim, ao ser obrigado a escolher
apenas uma resposta, os riscos dele escolher uma que não
seja a mesma do gabarito são maiores. Desse modo, ele pode
ter sido prejudicado por sua criatividade, que talvez o tenha
levado a pensar em soluções que não são
levadas em conta pelos criadores dos testes nem pelos examinadores.
O RSPM apresenta 7 questões dúbias, entre um total
de 60, e várias deficiências graves nas propriedades
psicométricas. Como o RAPM é mais difícil
que RSPM, é provável que tenha mais falhas. Portanto
é muito provável que Kasparov tenha sido prejudicado
por falhas no teste, e o mesmo é possível que se
aplique no caso do Eysenck. Existe também a possibilidade
de ser outra pessoa chamada Kasparov, em vez de Garry. Eu não
sei qual foi a fonte de onde foram extraídas as informações
sobre esses escores, e não encontrei nenhuma referência
que confirme esses números em nenhum livro sobre Kasparov,
por isso não podemos descartar a possibilidade de um homônimo.
Particularmente, eu prefiro acreditar que o QI de Kasparov situa-se
em algum lugar entre 180 e 210.
Quanto ao ELO que pode ser alcançado por uma pessoa que
tenha obtido um determinado escore em teste de QI, isso vai depender
da semelhança entre o que o teste está medindo e
o que o ELO está medindo. A rigor, ambos medem as mesmas
habilidades, porém em diferentes proporções,
sendo que algumas habilidades são medidas em níveis
tão reduzidos que, para fins de simplificar, podemos dizer
que não medem tais habilidades. Nesse contexto, podemos
afirmar que o ELO mede (principalmente) pensamento profundo e
criador, pensamento veloz para questões complexas, cálculo
mental veloz e complexo, memória, pensamento abstrato,
pensamento espacial, imaginação, aplicação
engenhosa de conhecimentos específicos, capacidade para
descoberta de sutilezas, reconhecimento de padrões complexos
etc. Os testes de QI aplicados em clínica geralmente medem
(principalmente) pensamento veloz para questões básicas,
cálculo com auxílio de lápis e papel em ritmo
lento e em questões elementares, repetição
simples de conhecimento, reconhecimento de padrões elementares.
Alguns testes medem pensamento espacial e pensamento abstrato,
outros medem memória. Enfim, o que é medido pelo
Xadrez está mais intimamente relacionado ao que habitualmente
chamamos inteligência do que aquilo que se mede
em testes de clínica. Já o desempenho em testes
sem limite de tempo pode ser mais semelhante ao ELO. O ST e o
ST-VI pretendem medir algo semelhante ao que mede o ELO, mas o
ELO é seguramente mais acurado, porque no ST a pessoa resolve
todas as questões ao longo de umas 10 ou 20 horas, no máximo
umas 100 horas, porém o ELO vai se formando ao longo de
milhares de horas. Além disso, o ST está mais carregado
de subjetividade do que o ELO. Por outro lado, o ST é mais
diversificado e muito mais isento de conhecimento específico,
enquanto o ELO é fortemente influenciado pelo grau de especialização
em teoria de aberturas, teoria de finais e volume de conhecimento
sobre estratégia. Existem pontos positivos e negativos
tanto no ST como no ELO, e em linhas gerais eles são bastante
semelhantes quanto aos traços cognitivos que medem.
Eu diria que uma pessoa que pontua bem no ST, próximo ao
teto, pode alcançar mais de 2600 ou 2700 em Xadrez Postal.
A correlação (hipotética) com Xadrez ao vivo
não é tão boa, mas o nível que pode
ser alcançado é semelhante.
Quanto aos testes aplicados em clínica, qualquer que seja
o teto, quem estourar o teto pode ter mais de 2000 de ELO. Note
que eu disse mais de 2000, inclusive mais de 2500
ou mais de 3000. O problema é que os testes de clínica
não têm dificuldade adequada para medir nada acima
de 140 (que corresponde a cerca de 2000 ELO), e mesmo que o teto
seja 150 ou 170, o que na verdade se está medindo é
a diferença de velocidade entre desempenhos no nível
140. Em outras palavras, uma pessoa que pontua 130 ou 140 num
teste de clínica tanto pode ter QI 130 como pode ter QI
200. João e Pedro são examinados por um teste de
clínica com teto teórico 180. João pontua
130 e Pedro pontua 175. O máximo que podemos concluir disso
é que João e Pedro demonstraram capacidade para
resolver todas as questões até o teto do nível
de dificuldade que o teste oferece, porém Pedro é
mais veloz e por isso conseguiu resolver mais questões
dentro do prazo disponível. Se o teste tivesse prazo suficiente,
provavelmente ambos marcariam 180, e se o teste tivesse questões
mais difíceis, talvez João pontuasse acima de Pedro
(180 e 135, por exemplo), ou talvez ambos pontuassem igual (130
e 130, ou talvez 150 e 150 ou mesmo 180 e 180), ou talvez Pedro
realmente pontuasse mais alto (não necessariamente 180
contra 130).
No caso do ST, em média, uma pessoa que pontua 140 deve
chegar a cerca de 2000 ELO, outra que pontua 170 deve chegar a
mais de 2500, desde que ambas estudem o bastante. Repare, eu disse
em média. Nada impede que alguém pontue
120 ou 130 no ST chegue a ter mais de 2600 FIDE ou ICCF, enquanto
outra pessoa pode pontuar 190 e estudar muito Xadrez, mas nunca
ir além de 2000.
Na década de 1960, os primeiros computadores para jogar
Xadrez tinham nível semelhante ao de jogadores com rating
1200, e o mesmo hardware usado para resolver testes de QI (baseado
em figuras), podia chegar a mais de 110. Eu não tenho conhecimento
sobre experimentos modernos desse gênero, mas suponho que
máquinas velozes, usando bons algoritmos, possam pontuar
acima de 150 em testes com figuras e talvez mais de 180 em séries
numéricas. Quanto ao rating, existem muitas informações
disponíveis na rede. Eu acho que o melhor software atual
para PC é o Hiarcs 8.0, com uns 2700 de rating rodando
em Athlon 2GHz ou Pentium IV 2GHz. Mas é claro que os computadores
não conseguem resolver questões em que seja necessário
interpretar enunciados nem desenvolver planos estratégicos
no Xadrez. O que isso mostra é que algumas deficiências
no Xadrez ou em testes podem ser compensadas com algumas habilidades
excepcionalmente desenvolvidas. No caso dos computadores, a capacidade
seletiva é muito ruim, mas eles compensam isso com uma
velocidade absurdamente grande. Uma pessoa associa figuras com
facilidade, por meio de poucas comparações, e elege
o melhor lance a um ritmo bem lento (cerca de um lance por segundo,
contra milhões de lances por segundo analisandos pelos
computadores), mas a pessoa usa seus conhecimentos de maneira
ótima, enquanto os computadores são incapazes disso
no momento. Por isso nenhum computador poderia obter QI 120 no
ST, por exemplo, mas poderia estourar o teto do RAPM e de muitos
outros testes. Também não existem computadores capazes
de encontrar o melhor lance em determinadas posições,
não importa quanto tempo eles fiquem analisando. Enquanto
um jogador humano pode, por intuição, perceber o
melhor lance em poucos segundos.
Em geral, uma pessoa com QI 130 deve atingir um rating abaixo
de 1900. Mas você me enviou um e-mail há alguns meses
informando que um GM (francês?) tinha QI 130. Na verdade
ele não tem QI 130. Ele apenas obteve escore 130 num determinado
teste. Isso é uma evidência preliminar de que seu
QI seja 130. Mas esse teste deve ter durado cerca de 1 hora e
mediu umas poucas habilidades pouco importantes. Por outro lado,
a capacidade dele foi testada ao longo de vários anos em
torneios de Xadrez, e nessa modalidade ele revelou um desempenho
equivalente a mais de 170. Então sua real capacidade é
seguramente mais próxima àquela indicada pelo seu
ELO do que aquela indicada pelo escore que ele obteve num teste.
Usar um teste de QI, com duração de uma hora, para
prognosticar o ELO a que se pode chegar no Xadrez é como
fazer uma previsão sobre o comportamento de uma amostragem
grande partindo dos resultados coletados de uma amostragem pequena,
com a agravante que QI e ELO medem habilidades diferentes. Tendo
em conta tudo isso, e ciente de que a incerteza nas previsões
pode ser grande, basta usar a fórmula de Bill McGaugh:
ELO = 1282 + 17,3*(QI-100). Assim, um QI de 128 deve corresponder
a cerca de 1770. Mas é preciso levar em conta que a correlação
entre ELO e QI é calculada com base numa amostragem de
pessoas que apresentam a provável tendência de ser
tanto mais estudiosa se tanto maior for sua aptidão natural,
ou seja, uma pessoa com QI 160 tende a se dedicar mais que outra
com QI 110, portanto a pessoa com 160 vai estudar mais horas por
dia e conseqüentemente chegar mais perto de seu ELO limite
do que a pessoa com QI 110. Levando isso em conta, você
pode presumir que uma pessoa com QI 128 geralmente não
se dedica ao máximo, mas talvez apenas duas horas por semana,
e assim chega geralmente aos 1770. Porém se essa mesma
pessoa com 128 de QI se dedicasse 8 horas por dia, talvez chegasse
a 2000 ou mais.
Com relação à sua pergunta sobre jogar às
cegas, um bom conhecimento do tabuleiro é muito útil,
especialmente para quem não é jogador visual, ou
seja, quem não visualiza o tabuleiro, mas apenas sabe onde
estão as peças e como elas interagem, num processo
semelhante ao que permite aos computadores transformar sinais
0 e 1 em imagens (estou fazendo uma analogia grosseira). Nesses
casos, é preciso ter um bom conhecimento sobre casas que
se situam na mesma diagonal ou nas extremidades do mesmo L.
Isso agiliza o cálculo e poupa energia. Esse conhecimento
se adquire e se aprimora por meio de treinamento. Quase todos
os simultanistas às cegas de grandes proporções
são não-visuais, portanto a capacidade
de visualizar mentalmente imagens não é imprescindível,
embora possa ajudar em alguns casos. O pensamento lógico
e todas as demais habilidades necessárias para jogar Xadrez
ao vivo continuam sendo necessárias para jogar às
cegas, e a estas habilidades devem ser somadas a capacidade para
memorizar cada uma das posições, evitar confusões
entre as posições de diferentes tabuleiros e evitar
confusões entre variantes calculadas e variantes efetivamente
jogadas. A faculdade mental que permite memorizar e gerenciar
tais informações é predominantemente inata,
mas talvez possa ser melhorada com treinamento.
Não apenas para jogar às cegas, mas para qualquer
atividade existe um limite mínimo de capacidade que é
exigida. Para jogar às cegas é preciso conhecer
bem algum sistema de notação e memorizar a partida
inteira. Para jogar mais de uma partida às cegas, é
preciso memorizar todas as partidas e não confundir uma
com a outra. Eu calculo que a maioria das pessoas com QI na faixa
de 130 pode jogar pelo menos uma partida às cegas. Claro
que muitas pessoas com QI abaixo de 130 também podem jogar,
enquanto outras com mais de 150 podem não conseguir. O
campeão mundial Max Euwe, por exemplo, dizia-se incapaz
de jogar uma única partida às cegas, mas isso pode
ser uma brincadeira dele, do mesmo modo que Isaac Newton dizia
que era incapaz de fazer cálculos mentais.
Un abrazo!
Piu