Pergunta
------Mensagem
original-----
De: José Antonio Francisco [mailto:tonioito@uol.com.br]
Enviada em: domingo, 4 de agosto de 2002 23:28
Para: melao@sigmasociety.com
Assunto: Oráculo
Prezado Hindemburg,
Sempre me interessou muito a questão da antimatéria.
Não tenho muito conhecimento a respeito do assunto, mas,
certa vez, me ocorreu uma idéia, a partir da atração
e repulsão entre partículas e antipartículas.
A questão é: seria possível admitir que corpos
formados por antimatéria poderiam exercer força
gravitacional de repulsão a corpos formados por matéria.
Já que, em nível "microscópico",
cargas iguais se repelem e diferentes se repelem, não poderia
acontecer algo parecido em nível "macroscópico"
(matéria atrai matéria, antimatéria atrai
antimatéria, matéria repele antimatéria)?
Um abraço.
Zé Antonio
Resposta
Prezado Zé Antonio,
Tudo bem?
Eu sempre gosto de contar historinha antes de responder, mas a
que eu gostaria de ilustrar esse caso é repetida. Aliás,
acho que já repeti mais de uma vez, porque é uma
analogia boa, em minha opinião. Espero que quem já
leu outros textos meus não se aborreça com a reprise,
e espero mudar um pouco o enredo para tornar a história
menos maçante. Ou melhor, antes de contar a história,
vamos falar sobre salsichas. Eu não sei exatamente como
são feitas, mas eu suponho que a pessoa amarra uma extremidade,
depois vai enfiando carne até encher. Por fim, amarra a
outra extremidade. Se ficar meio flácida ou disforme, então
pode-se abrir e colocar mais carne, repetindo o processo quantas
vezes forem necessárias, até que o resultado final
atenda ao perfeccionismo do salsicheiro. Agora vamos ver um exemplo
semelhante: Os antigos gregos viam o Sol nascer no Leste, atravessar
o céu e se pôr no Oeste. As estrelas também
pareciam girar de Leste para Oeste, porém com período
um pouco diferente. Enquanto o Sol completava, em média,
uma volta a cada 24 horas, as estrelas levavam 23h56m04s. A lua
e os planetas também tinham seus próprios ciclos,
todos com aproximadamente 24h. A maneira mais simples de explicar
isso era imaginando que a Terra é o centro em torno do
qual giravam esferas cristalinas, e as estrelas estavam numa dessas
esferas, o Sol em outra, a Lua em outra e cada planeta em uma
esfera. O modelo era bom e interessante, e como foi formulado
a partir de dados experimentais, naturalmente permitia fazer algumas
previsões com pequena margem de erro. Com o desenvolvimento
da Astronomia, os observadores perceberam que a salsicha estava
flácida e precisa de um ajuste, porque as trajetórias
dos planetas em relação ao fundo de estrelas não
eram regulares como as do Sol ou da Lua. Em vez disso, os planetas
davam laçadas (movimento retrógrado). Foram criados,
então, os epiciclos, que eram pequenas esferas na superfície
das grandes esferas. Imagine que as esferas se interpenetravam
(os modelos matemáticos sempre exigem que acreditemos em
alguns absurdos). Os planetas estavam nas superfícies dessas
pequenas esferas, não das grandes, portando eles tinham
um movimento composto, que resultava nas laçadas observadas.
Conforme a precisão das medidas foi melhorando, a salsicha
foi aberta outras vezes, a fim de inserir mais carne e acabar
com a flacidez. Com o passar dos anos, foram criados mais epiciclos
e deferentes. O modelo ficou excelente, capaz de satisfazer aos
salsicheiros mais exigentes, pois permitia fazer previsões
com grande exatidão, desde que não fossem previsões
para períodos muito longos (séculos, por exemplo).
Hoje em dia, a MQ permite calcular algumas constantes
com 10 ou 15 algarismos significativos, e os resultados correspondem
quase exatamente às medidas diretas, mas alguns cálculos
apresentam erro logo na terceira decimal, e outros, como a massa
dos quarks, têm erro tão grande quanto a própria
grandeza medida, tudo muito semelhante ao modelo geocêntrico.
Mas voltemos aos gregos. Os eclipses do Sol e da Lua podiam ser
previstos até milênios à frente, mesmo antes
da Astronomia grega, por outro lado, as posições
dos planetas eram incertas. Isso não constituía
grande problema, porque, afinal, o nome planeta significa errante,
e era natural que não tivessem comportamento previsível.
Assim, um modelo matemático representava muito bem o universo
e permitia fazer cálculos precisos. Obviamente, um modelo
com tantas virtudes só podia ser o modelo certo, por isso
foi transformado em dogma. :-) Eu já não me recordo
dos modelos alternativos, mas alguém (Filolau?) chegou
a propor um modelo em que havia um fogo central em torno do qual
girava o Sol, a Terra e tudo o mais, outrem propôs um modelo
com Sol girando em torno da Terra e os planetas girando em torno
do Sol, e outros propuseram modelos mais exóticos. Aristarco,
por volta do século IIIa.C., sugeriu o primeiro modelo
heliocêntrico de que se tem registro. Pela observação
da curvatura da sombra da Terra projetada na Lua durante alguns
eclipses parciais (já se sabia que a Lua refletia luz do
Sol), ele calculou o tamanho relativo entre a Terra e a Lua, e
com base no ângulo formado entre a Lua e o Sol durante os
quartos crescente e minguante (se o Sol estivesse a uma distância
infinita, o ângulo sempre seria reto nessas fases), calculou
também o tamanho relativo do Sol (o tamanho aparente é
conhecido, portanto, ao calcular a distância ele determinou
o tamanho real). Os valores que encontrou foram (tomando a Terra
por unidade): 0,3 para a Lua e 7 para o Sol. E concluiu: se o
Sol era 7 vezes maior que a Terra, seria mais natural que a Terra
girasse em torno dele, não o contrário. Um argumento
muito ruim, em comparação às idéias
de Aristóteles em favor da Terra estática. Por isso
ninguém o levou a sério. Antes de prosseguir, convém
esclarecer que os cálculos de Aristarco para o tamanho
da Lua foram razoáveis, porque o método permitia
uma boa precisão, mas no caso da distância (e conseqüentemente
o tamanho) do Sol, o ângulo a ser medido era muito pequeno,
e ele também não tinha conhecimento sobre as distorções
causadas pela refração atmosférica. Os tamanhos
relativos corretos seriam 0,27 para a Lua e 109 para o Sol.
O modelo geocêntrico vigorou durante toda a Idade Média
e início do Renascimento. No século XVI, Copérnico
tomou conhecimento sobre as idéias de Aristarco e constatou
que a posição dos astros podia ser determinada com
maior precisão e por períodos mais longos se o Sol
estivesse no centro do sistema, e escreveu um tratado sobre o
assunto. Ele ainda usava epiciclos, mesmo assim, a reabilitação
das idéias de Aristarco foi um avanço muito importante.
Ele apresentou o modelo como uma fórmula matemática
para calcular as posições dos planetas, sem a pretensão
de que a aquele modelo fosse representativo da realidade. A repressão
sempre é ruim, mas se houvesse Inquisição
hoje em dia, provavelmente os físicos tomariam mais cuidado
antes de propor um modelo descaradamente inconsistente, e sugerir
que tal modelo seja representativo de todo o universo ou da natureza
íntima da matéria.
Bruno
(num âmbito mais filosófico que científico),
Kepler e Galileu se impressionaram muito com o trabalho de Copérnico
e julgaram que não se tratava apenas de um modelo. Julgaram
ser mais provável que o sistema de Copérnico fosse
uma representação da realidade do que o modelo imposto
pela Igreja. Naquela época se acreditava que absolutamente
tudo girava em torno da Terra, e quando Galileu observou, em sua
luneta, 4 pequenos objetos girando em torno de Júpiter,
foi a primeira prova de que pelo menos uma parte do antigo modelo
estava incorreta. Kepler, por sua vez, usou os dados cuidadosamente
coletados ao longo de várias décadas por Tycho Brahe,
e constatou que o modelo de Copérnico era melhor que o
antigo, mas também não servia muito bem. Ele rasgou
a salsicha. Substituiu o modelo com mais de 50 circunferências
encaixadas num complexo padrão de engrenagens, por apenas
7 órbitas elípticas. Tycho teria ficado furioso
se visse isso, porque durante décadas ele trabalhou com
a intenção de salvar o antigo modelo geocêntrico,
e seu aluno usou suas preciosas informações justamente
para demolir o antigo modelo e dar um grande passo na direção
da Verdade. Por fim, chegou nosso amigo Newton e mostrou quem
é que manda. :-) Mas Newton morreu, e daí para a
frente o pessoal voltou a fazer salsichas. O que se pensa saber
hoje sobre matéria e anti-matéria é o típico
modelo salsicha. Inventaram uma explicação simplista,
depois foram remendando para salvar as aparências e garantir
um método eficiente do ponto de vista operacional. Feita
essa importante ressalva, vamos à questão da anti-matéria:
O que diferencia a matéria da anti-matéria são
as cargas e algumas propriedades definidas por quarks (cores e
sabores) e por léptons. Os quarks determinam os números
quânticos bariônico, os sabores (estranheza, charme,
beleza etc.) e as três cores primárias, que nada
têm a ver com as cores tal como as conhecemos (o termo cor
poderia ser substituído por _ vou inventar umas palavras
_ gênero quárkico ou quarkonidade,
e o mesmo se aplica aos sabores). Outras propriedades
são iguais em matéria e anti-matéria. A massa
e a meia-vida, por exemplo, são iguais em partículas
e anti-partículas. O pósitron (anti-elétron)
tem massa igual à do elétron, mas sua carga é
positiva e seu número leptônico é oposto ao
do elétron. O nêutron não tem carga, mas é
constituído por dois quarks down (carga -1/3) e um quark
up (carga +2/3) enquanto um anti-nêutron também tem
carga zero, porém é constituído por dois
anti-quarks down (carga +1/3) e um anti-quark up (carga -2/3).
Cada anti-partícula tem mesma massa que a partícula
correspondente, tem sinal de carga contrário, número
leptônico contrário, número bariônico
contrário, estranheza contrária etc.
Quando matéria e anti-matéria se tocam, as massas
são convertidas em energia, por isso onde há predominância
de matéria, como no Sistema Solar, dificilmente serão
encontrados blocos grandes de anti-matéria, porque a qualquer
contato ela vai se anular com uma quantidade equivalente de matéria
e ambas vão se transformar em energia. Isso é um
problema para a teoria dos quarks, bem semelhante ao antigo problema
do núcleo do átomo. Depois do modelo de gelatina
de Thomson, Rutherford propôs o modelo com cargas positivas
no centro e negativas orbitando ao redor, mas como as cargas positivas
se repelem, inventaram os nêutrons e a força nuclear
forte, para compensar a repulsão colombiana e manter os
prótons unidos no núcleo. :-) No caso de matéria
e anti-matéria, o problema é que há basicamente
três tipos de partículas: os léptons, que
são fundamentais, ou seja, não são constituídos
por nada menor. Os bárions (que incluem prótons,
nêutrons, híperons), que são formados por
3 quarks. E os mésons, que são formados por um quark
e um anti-quark. Mas como um quark e um anti-quark podem coexistir
numa proximidade de 10^-30m? Logo alguém vai inventar algo
equivalente ao nêutron para remendar o problema. Por falar
em mésons, o méson mu ou méson
mi ou ainda múon é um lépton,
não um méson, um detalhe da nomenclatura que os
físicos não acharam importante corrigir, e com razão,
porque o modelo tem muitos problemas lógicos que devem
ter prioridade.
Sua hipótese de anti-gravidade é interessante e
válida, não entra em contradição com
a experiência nem com o modelo teórico, porque embora
as anti-partículas tenham massa normal, por
assim dizer, isso não significa que essa massa (supostamente
normal) vai ter gravidade necessariamente atrativa.
É possível que a massa das anti-partículas
exerça repulsão, em vez de atração.
Mas a intensidade dessa força não seria suficiente
para produzir fenômenos sensíveis em corpos pequenos
(a intensidade é cerca de 10^40 vezes menor que a da força
eletromagnética), e como a anti-matéria não
pode ser encontrada em blocos grandes (pelo menos não se
conhece em parte alguma), seria difícil verificar experimentalmente
essa hipótese. Talvez quasares sejam colisões de
matéria e anti-matéria, mas é só uma
especulação. A tal matéria escura que tem
sido manchete ultimamente, dificilmente poderia ser considerada
anti-matéria, porque ela parece estar espalhada por toda
a parte, e se fosse anti-matéria (se tivesse o comportamento
do que chamamos anti-matéria) ela aniquilaria a matéria
em volta e se auto-aniquilaria junto. Então não
vejo uma maneira de investigar se a idéia é correta.
É importante ter em mente que o prefixo anti,
quando usado no caso de anti-matéria, não tem propriamente
o significado que atribuímos a ele. Por exemplo: a anti-água
seria idêntica à água, desde que todos nós
fôssemos feitos de anti-matéria. Se não fôssemos
de anti-matéria, a anti-água continuaria sendo percebida
como idêntica à água, exceto pelo detalhe
que não poderíamos chegar muito perto dela. :-)
Em vez de matéria e anti-matéria,
seriam mais apropriadas as expressões matéria
do tipo A e matéria do tipo B.
Um abraço!
Piu