Pergunta
-------Mensagem
original-----
De: rrdyow [mailto:rrdyow@bol.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 1 de agosto de 2002 14:32
Para: melao@sigmasociety.com
Assunto: spin
ola !
meu nome é rafael tenho 18 anos , tenho uma duvida que
persiste a muito tempo . na escola aprendemos que o ponto central
de uma roda quando em movimento , nao tem rotacao , mas apenas
o movimento de translacao . mas tambem aprendemos que os eletrons
sao pontos ' "infinitamente" pequenos e que fazem um
movimento de rotação . isso me parece uma contradição
, nao é ?
nao sei se
visitantes podem mandar perguntas , mas em todo caso agradeço.
Resposta
Olá, Rafael.
Tudo bem?
Em primeiro lugar, vamos discutir os conceitos de rotação,
translação e ponto.
Depois de definir um referencial estático, quando um corpo
está animado por um movimento (em relação
ao referencial estático) que o leva a circunvoluir em torno
de um eixo que o atravessa, podemos dizer que ele está
em rotação. Se o corpo está girando em torno
de um eixo que não o atravessa, isso pode ser uma translação.
Um ponto é um ser adimensional, ou seja, tem medida 0 em
qualquer direção considerada.
Tanto um movimento de rotação quanto um de translação
envolvem deslocamento. Um ponto pode girar em torno
de algo, mas não faz sentido dizer que gira em torno de
si mesmo. Se ele gira em torno de algo, obviamente ele não
pode ao mesmo tempo ser o centro do giro, portanto o ponto central
de uma roda não pode ter rotação nem translação.
Uma outra maneira de concluir isso é considerando que as
partes mais externas da roda possuem velocidade maior que as partes
mais internas. À medida que os pontos estiverem mais próximos
do centro, a velocidade se torna menor, até que ao chegar
no centro, vai a zero. Estamos falando de velocidade em unidades
de espaço por unidade de tempo, mas se estivéssemos
tratando de unidades de ângulo por unidade de tempo, a velocidade
seria sempre a mesma, e nesse sentido teríamos uma situação
degenerada no ponto central, porque um ângulo é definido
por duas linhas, mas cada linha tem 1 dimensão, portanto
você precisa de um espaço com pelo menos 2 dimensões
para traçar um ângulo. Como um ponto tem 0 dimensões,
ele não pode ter velocidade angular.
Agora vamos tratar da questão das partículas. Vamos
supor que possa existir uma partícula puntiforme. Nesse
caso, se essa partícula tiver massa de repouso, ela necessariamente
vai gerar um horizonte de eventos de raio r, sendo
r>0, portanto, se ela tem raio=0, vai estar dentro
do horizonte de eventos, mais precisamente ela será uma
singularidade. Seria melhor não tentar "adivinhar"
o que acontece nesse caso, porque vamos estar apenas especulando
(não se sabe o que acontece numa singularidade), mas só
para não deixar em branco, vamos supor que as idéias
de Hawking-Penrose sobre evaporação de buracos-negros
sejam corretas, ou pelo menos vamos supor que acontece algo semelhante
ao que eles propõem (eles não tratam de singularidades,
mas de ergosferas). Então um buraco-negro tende a se evaporar
tanto mais rapidamente quanto menor for sua massa. No caso de
um buraco-negro com massa de Planck (10^-5g), ele se evaporaria
no tempo de Planck (5,39*10^-44s). No caso de um buraco-negro
com a massa de um elétron, deveria se evaporar em 10^-118s,
mas, em vez disso, sabemos que o elétron tem meia-vida
maior que 10^31 anos (talvez seja estável). Então
algo está errado. Ou o elétron é uma esferinha
(em vez de ser um ponto), ou a idéia de radiação
de buracos-negros e partículas virtuais está errada,
que implicaria também uma falha na teoria do Princípio
da Incerteza, e envolveria toda uma propagação de
falhas, desmantelando a Mecânica Quântica. Nada disso
tem muita importância, porque não podemos observar
diretamente nada no mundo quântico, e as interpretações
sobre os resultados das experiências podem variar segundo
o gosto do pesquisador. Se o universo for formado por supercordas,
em vez de partículas, não haverá lugar para
o conceito de spin ou de elétron. Um elétron é
uma idéia, apenas uma idéia, assim como as outras
partículas, e o spin é uma propriedade atribuída
às partículas. Não sabemos se existe o ente
fantástico, com número leptônico 1, bariônico
0, massa 511MeV, carga 1,6*10^-19C etc., que chamamos elétron.
Não temos nenhuma evidência de que existam elétrons.
Temos evidência de que existem cargas elétricas e
existem coisas que deixam rastros quando atravessam
câmaras de Wilson, e com base nesses rastros, podemos supor
que se tais rastros são produzidos por partículas,
essas partículas podem ter determinadas propriedades. Em
aceleradores de cargas, que chamamos aceleradores
de partículas, os físicos pensam estar produzindo
colisões entre partículas, e a partir dos resultados
dessas colisões, inferimos mais propriedades para essas
partículas. Experiências diferentes permitem identificar
outras possíveis propriedades para as tais partículas,
mas devido à impossibilidade de observação
direta, não sabemos sequer se existe aquilo que estamos
habituados a chamar de elétron, e não sabemos se,
quando ele se comporta como partícula, se é puntiforme.
Mas se for puntiforme, muita coisa precisa ser reformulada.
Vale lembrar que quando você vê uma imagem produzida
por um microscópio de tunelamento, aquela imagem não
é gerada por luz, porque nada menor que 360 nanômetros
pode ser observado em luz visível. No caso de um microscópio
eletrônico, você está enxergando um feixe de
elétrons, no caso de um microscópio de tunelamento,
você está vendo os efeitos gerados por campos eletromagnéticos.
Se você olha para um átomo de benzeno, o que você
está vendo não é sólido. Embora você
enxergue como quase 100% sólido, é quase totalmente
espaço vazio (cerca de 99,999999999% a 99,9999999999999%
de espaço vazio, dependendo da substância). Isso
porque as informações sobre o campo gerado foram
transformadas em uma imagem. Isso é uma hipótese,
a famosa hipótese ou teoria atômica, atualmente tão
amplamente aceita, que já é confundida com a própria
realidade. Mas o menor que podemos enxergar diretamente são
objetos com 360 nanômetros. Acreditamos que os menores objetos
vistos com telescópios eletrônicos sejam reais,
como as estruturas internas das organelas das células,
por exemplo. Mas quando chegamos ao tamanho do átomo, atingimos
a fronteira atual do observável por meios diretos. Não
há como saber se existe uma partícula chamada elétron
ou se existe uma superstring que explica os mesmos fenômenos
para os quais normalmente invocamos a existência de elétrons,
simplesmente porque não há como observar objetos
tão pequenos. E mesmo que pudéssemos observá-los,
teríamos incertezas (mas seriam incertezas menores).
Vejamos um exemplo: Antes das primeiras sondas interplanetárias
serem lançadas, muitos pesquisadores extrapolavam os limites
do que podiam enxergar para formular teorias fantásticas.
No caso de Vênus, antes da espectrometria, alguns pensaram
que suas nuvens fossem de água, que sua superfície
fosse um gigantesco pântano habitado talvez por répteis
gigantes, que sua temperatura superficial fosse de uns 25 a 45
graus Celsius. No caso de Marte, os pesquisadores julgavam estar
enxergando imensos aquedutos construídos por uma civilização
muito avançada, que derretia a água dos pólos
e a distribuía por todo o planeta. Chegaram a ser desenhados
mapas cuidadosos desses canais, por Lowell, Schiaparelli e outros.
Quando Galileu apontou sua luneta para Saturno, seu instrumento
era demasiado rudimentar para discernir os anéis, de modo
que estes se apresentavam como protuberâncias, dando ao
planeta o aspecto de um charuto com comprimento 4 ou 5 vezes maior
que a largura (ou diâmetro). A cada 14,73 anos, o plano
dos anéis se alinha com o plano orbital da Terra, o que
os torna invisíveis durante algum tempo. Para um observador
situado na Terra, à medida que o ângulo entre os
planos vai diminuindo, a impressão é de que os anéis
vão sumindo, até que reste só o disco do
planeta. Quando Galileu observou esse fenômeno, ficou muito
impressionado, e como na mitologia o deus Cronos (Saturno para
os romanos) havia devorado seus filhos, Galileu chegou a pensar
nessa possibilidade e fez alguns comentários a respeito.
Talvez tenha até desconfiado da fidelidade das imagens
produzidas pelo telescópio e repensado sobre os comentários
dos eclesiásticos, que diziam que os satélites de
Júpiter eram ilusões criadas pelo instrumento.
Hoje achamos graça de teorias sobre dinossauros em Vênus,
porque sabemos que as nuvens são predominantemente de enxofre
e ácido sulfúrico, e a superfície é
um deserto escaldante de 450 graus Celsius. Sabemos que os canais
de Marte não existem e conhecemos a explicação
para os filhos de Saturno que desapareciam. Mas não
sabemos o que é um elétron, nem mesmo sabemos se
tal coisa existe, então ficamos mistificando e forjando
teorias fantásticas para explicar a Natureza, com objetos
que ora são onda, ora partícula (dualidade), que
podem estar em dois lugares ao mesmo tempo (difração),
que podem ter velocidade infinita (EPRB) e ao mesmo tempo acreditamos
na existência de um limite de velocidade (c), acreditamos
que algumas partículas podem ser puntiformes e ao mesmo
tempo terem massa (léptons), que podem ter um giro que
não é propriamente um giro (spin e isospin), e do
mesmo modo que Aristóteles estabelecia distinção
entre as leis que regiam os fenômenos sub-lunares e extra-lunares,
hoje se estabelece distinção entre as leis do mundo
subatômico e do mundo macroscópico.
O fato é que existe nosso universo tangível, no
qual podemos realizar experimentos objetivos que produzem resultados
diretamente observáveis. E existe o universo idealizado
pelos físicos teóricos, com leis que eles inventaram
(não foram leis descobertas), com partículas
que eles inventaram (também não foram partículas
descobertas) e uma série de propriedades que eles inventaram
para explicar os resultados empíricos que eles supõem
que sejam indicadores do comportamento das partículas.
Os físicos teóricos deveriam ter algum respeito
pela Lógica, e respeito por eles mesmos, e tentar formular
teorias que não exigissem que as pessoas engolissem tantos
absurdos. Por outro lado, precisamos ter em mente que nosso universo
em escala humana, tal como o sentimos, não precisa ser
mais fidedigno do que o universo subatômico, e as Teorias
da MQ talvez sejam a verdade mais íntima sobre a Natureza,
enquanto nossa realidade macroscópica não passa
de uma ordem ilusória resultante do comportamento estatístico
dos objetos e leis exóticas que regem o mundo subatômico.
Claro que eu prefiro acreditar que nosso universo macroscópico
é real, enquanto as idéias sobre MQ são fantasia,
mas não podemos descartar completamente as hipóteses
da MQ apenas porque elas nos dizem coisas diferentes do que nossos
sentidos nos sugerem, porque nossos sentidos também são
limitados e sujeitos a produzir ilusões. Nossos olhos,
por exemplo, nos proporcionam uma falsa idéia de tridimensionalidade
a partir de uma imagem bidimensional recebida pela retina. Conhecendo
as falácias usadas nessa interpretação impossível,
podemos facilmente enganar nosso cérebro com estereogramas.
Experimente desenhar (ou imprimir) 7 círculos escuros numa
folha de papel, todos iguais, alinhados horizontalmente, espaçados
por cerca de 1cm. Depois faça um x 6cm abaixo
do círculo central. Então feche os olhos e coloque
a folha perto do rosto, de modo que o x fique encostado
na ponta do seu nariz. Então abra os olhos e conte quantos
círculos você vê. Há muitas maneiras
de enganar nosso cérebro, a partir das falácias
que nossos sentidos usam para representar a realidade. Nossos
sentidos servem apenas para representar a maioria (não
todos) dos fenômenos que acontecem na Terra com uma quantidade
de informações maior do que a que poderíamos
dispor licitamente, ou seja, nossos sentidos inventam informações
para completar o que está inacessível, e nesse processo,
podemos acertar em mais de 99,99% ao interpretar os casos de fenômenos
que ocorrem naturalmente, mas podemos ser enganados em situações
cuidadosamente construídas para esse fim. O fato de acertarmos
em mais de 99,99% das interpretações dos fenômenos
que ocorrem em escala humana e na superfície da Terra,
não significa que os acertos sejam igualmente bons em escalas
de outras ordens de grandeza ou em condições diferentes
das presentes na superfície da Terra. Por isso nossos sentidos
podem nos induzir a erros e não há como ter certeza
sobre nada. Contudo, as incertezas são ainda maiores quando
além das limitações impostas pelos sentidos,
as experiências são indiretas, de modo a somar nossas
falhas na interpretação a outras falhas nas teorias,
nos instrumentos, nas causas imprevistas. Quando se fala em spin
do elétron, não é muito diferente de falar
que o Cavalo comeu a Torre no Xadrez. O spin não é
propriamente um giro e o elétron não se sabe se
é uma esferinha ou um ponto, nem sequer se sabe se ele
existe de fato. O spin tem a ver com momento angular, mas não
no sentido em que estamos habituados. As regras inventadas para
a MQ são tão arbitrárias quanto as de um
jogo, com a diferença que as regras de um jogo não
são contrastadas com resultados experimentais, por isso
podem manter coerência interna. Porém, as regras
da MQ, à medida que são comparadas ao que de fato
acontece na Natureza, e ao verificar que surgem contradições,
as regras vão sendo mudadas. Isso acaba fazendo com que
algumas regras entrem em conflito com outras, sugerindo que muita
coisa esteja errada. No século XVII a quantidade de informações
disponíveis era muito menor que hoje, então podia
surgir um Newton e colocar ordem na casa. Mas hoje em dia isso
é quase impossível. Então a casa vai virando
uma bagunça cada vez maior. A Teoria das Supercordas é
uma tentativa interessante de resolver os problemas lógicos
sem usar remendões, mas ainda precisa amadurecer e ser
usada para fazer algumas previsões ou explicar alguns fenômenos
que não sejam previstos ou explicados pela MQ.
Um abraço!
Piu