Pergunta
----De:
aew1 ------
Categoria: Astronomia
Assunto: Marte
Pergunta: 1-Por que o céu de Marte é vermelho?
2-Por que a Nasa se enrola tanto para ir à Marte, sendo
que foi à lua de uma hora pra outra?
3-Como é as "Tempestades de areia" que surgem
no planeta? como surgem? como terminam? como funcionam? É
aquilo que mostra um filme (não lembro o nome) que duas
ou três pessoas são pegas por uma tempestade de areia
e elas giram tanto que se despedaçam. O que aconteceria
com o corpo de um ser humano em uma tempestade dessas? resumindo:
TUDO sobre estas tempestades.
Resposta
Olá.
Tudo bem?
No
caso da Terra, o céu é azul devido ao efeito Rayleigh.
A luz das estrelas, como o sol, não é monocromática,
mas cobre todo o espectro visível e também irradia
em ultra-violeta, infra-vermelho e vários outros comprimentos
de onda que o olho humano não pode perceber. Por isso é
que se você fizer a luz atravessar um prisma, poderá
enxergar todas as cores do arco-íris. Isso não acontece
se você usar aquelas canetas laser, porque é uma
luz monocromática, ou seja, o comprimento de onda daquela
luz se situa num intervalo muito estreito. O arco-íris
é como um grande prisma produzido por partículas
de água suspensas na atmosfera depois de uma chuva ou nas
proximidades de grandes quedas dágua.
Ao passar pela atmosfera, a luz solar com menores comprimentos
de onda (azul-violeta) se dispersa mais do que a luz solar com
maiores comprimentos de onda (vermelho). Isso faz com que a luz
azul pareça vir de todas as direções com
predominância sobre todas as outras cores, e assim percebemos
o céu terrestre diurno como sendo azul. A cor depende da
constituição do gás. Quando a luz solar atravessa
uma nuvem, todas as cores se dispersam igualmente, e a nuvem assume
coloração branca, porque o branco é a soma
de todas as cores. Quando não há gás nenhum,
ou quando há um gás muito disperso, como no caso
da Lua, cuja pressão atmosférica é muito
menor que a terrestre (humanamente imperceptível), o céu
permanece preto mesmo durante o dia, porque não existe
um meio fluido pelo qual a luz possa se dispersar.
No caso se Marte, a coloração ocre-salmão
resulta de um efeito diferente. O solo marciano é rico
em óxido de ferro, cuja coloração é
predominantemente vermelha, ou seja, essa substância absorve
os comprimentos de onda curtos (violeta, azul) e reflete os comprimentos
longos (vermelho, laranja, amarelo), que são as cores que
chegam aos olhos do observador ou aos sensores das sondas espaciais.
No caso da Terra, a atmosfera é relativamente limpa
de poeira, mas a atmosfera marciana é impregnada, portanto
essa poeira absorve a luz azul e reflete a luz vermelha, a amarela
e a laranja, resultando no efeito observado.
Quanto à sua segunda pergunta, um dos motivos é
a distância. A Lua fica a 384.400km da Terra, atingindo
355.000km no perigeu e 307.000km no apogeu. Marte fica a 227.940.000km
do Sol, variando entre 249.000.000km e 207.000.000km, e a Terra
fica a 149.597.871km do Sol, variando entre 147.100.000km e 152.100.000km.
Para que o consumo de combustível seja mínimo, é
preciso que a Terra e Marte ocupem posições estratégicas.
Obviamente não faz sentido enviar uma sonda a Marte quando
ele estiver de um lado do Sol e a Terra do outro. Também
não é correto pensar que quando estão os
três alinhados (Marte-Terra-Sol) seja a situação
ótima, porque isso estaria presumindo uma trajetória
retilínea e uma viagem instantânea. A configuração
ideal é determinada considerando que a trajetória
será uma elipse, tendo a distância de partida como
periélio e o ponto de chegada como afélio. Como
a órbita de Marte é mais excêntrica, então
precisamos escolher o ponto de chegada como sendo o periélio
de Marte, ou seja, cerca de 207.000.000km, e o ponto de partida
será a aproximadamente 150.000.000km. Assim, a órbita
da sonda terá um semi-eixo maior de 178.500.000km, ou seja,
1,193A (A = unidade astronômica = distância média
da Terra ao Sol), portanto, levará 1,193^(3/2)/2 anos para
ir da Terra a Marte, ou seja, uns 238 dias.
Se os problemas fossem apenas esses, então um ano seria
folgadamente suficiente para fazer tudo. Mas há mais um
problema técnico e vários problemas burocráticos
relacionados às limitações orçamentárias.
Vamos abordar apenas os problemas técnicos. :-) O período
orbital da Terra é cerca de 365,25636 dias e o de Marte
é 686,9798 dias. Portanto, se as órbitas de ambos
fossem circulares, a cada 780 dias eles voltariam a ocupar a mesma
configuração, mas as órbitas são elípticas,
especialmente a de Marte, por isso as boas configurações
vão ocorrer em 15 anos, 17 anos, 32 anos, 47 anos, 64 anos
e as configurações ótimas acontecerão
em 79 anos, 158 anos, 205 anos etc. Então, se for perdida
uma boa oportunidade (uma janela de lançamento), só
depois de 15 anos acontecerá outra. Claro que, dependendo
do caso, em 2 anos pode podem se produzir duas configurações
boas consecutivas.
Outro fator a ser considerado é que para ir à Lua
basta escapar à gravidade da Terra, cuja velocidade de
escape é de 11.180m/s, mas para ir a Marte é preciso
escapar à gravidade do Sol nas cercanias da Terra, que
é de 42.100m/s. Felizmente pode-se aproveitar o movimento
da Terra, fazendo o lançamento numa trajetória tangencial
à órbita terrestre, e assim se pode somar a velocidade
orbital da Terra, de 29.780m/s, à da sonda, de modo que
para atingir os 42.100m/s só será preciso que a
sonda tenha um pouco mais que a velocidade de escape da Terra,
e como não pretendemos escapar para o infinitivo, então
não é preciso atingir a velocidade parabólica
de 42.100m/s, mas basta a velocidade que teria um objeto com órbita
à 1,193A e periélio a 1A.
São utilizados alguns recursos adicionais, para economizar
tempo e combustível, como o estilingue gravitacional,
fazendo a sonda ir e voltar até a Lua algumas vezes, antes
de partir definitivamente para Marte (sempre tenha em mente trajetórias
elípticas, parabólicas ou hiperbólicas, nunca
linhas retas, tanto para ir da Terra à Lua como da Terra
a Marte ou da Lua a Marte). Esse recurso permite que a sonda inicie
o percurso com uma trajetória hiperbólica, e quando
ela se aproxima de Marte, a trajetória é corrigida
para que ela assuma uma órbita elíptica.
Para ir à Lua, uma semana é suficiente. Para ir
a Marte, pode ser necessário aguardar 15 anos por uma boa
oportunidade e mais uns 240 dias serão gastos na viagem.
Com relação às tempestades de areia em Marte,
são semelhantes às que acontecem nos desertos da
Terra. As principais diferenças são:
1
- A gravidade na superfície de Marte, ao nível médio
do elipsóide marciano (nível do mar, se houvesse
mar) e na latitude zero (equador marciano) é cerca de 37,88%
da Terra gravidade na superfície da Terra, ao nível
do mar e na latitude zero.
2
- A pressão atmosférica na superfície de
Marte é 0,7% da pressão atmosférica na Terra,
podendo variar entre 0,4% até 1,1% ou mesmo em amplitudes
maiores.
3
- As partículas de óxido de ferro suspensas na atmosfera
são muito menores que os grãos de areia dos desertos
da Terra.
Não há como simular um modelo como este na Terra
para estudar as diferenças entre o que acontece lá
e aqui, mas de modo geral é basicamente a mesma coisa.
A pressão pode ser reproduzida sem problemas, e também
se pode borrifar partículas com 400 a 700 nanômetros
nessa atmosfera artificial. Com quedas parabólicas, pode-se
simular a microgravidade, mas não se pode simular uma gravidade
de 38% da terrestre. Mas não é a impossibilidade
de simular a gravidade marciana que impõe o maior obstáculo.
O maior problema é que tempestades são fenômenos
caóticos, em que pequenas mudanças no estado inicial
podem mudar completamente os estados subseqüentes. Então
mesmo que fosse possível construir nas vizinhanças
da Terra um planeta inteiro, com o tamanho de Marte, com a massa
de Marte, mesma constituição, mesma atmosfera e
mesmos acidentes geológicos, mesmo período de rotação,
enfim, uma réplica idêntica, o simples fato dele
estar mais próximo do Sol, elevaria sua temperatura e isso
modificaria completamente o comportamento das partículas.
Ainda que fosse possível reproduzir também a temperatura,
os efeitos de maré da Terra e da Lua já produziriam
diferenças decisivas em nosso modelo de Marte, tornando-o
diferente do original. Portanto não é possível
reproduzir as tempestades observadas em Marte, não há
como estudá-las daqui, exceto pela observação
à distância, muito pobre em detalhes. Uma simulação
feita por computador ou qualquer modelo teórico usado para
fazer previsões, também não passaria de um
palpite. Os meteorologistas estudam a atmosfera terrestre há
muito tempo, conhecem as variações gravimétricas,
geomagnéticas e altimétricas de qualquer região
do planeta, e sabem também a constituição
precisa da nossa atmosfera, conhecem a pressão, a temperatura,
a umidade relativa, a concentração de CO2 a cada
momento e em cada ponto da superfície, com boa precisão.
Mas nem assim conseguem prever como será o clima num prazo
de duas semanas, nem conseguem prever qual será a temperatura
no dia seguinte (com incerteza menor que 1 grau). Enfim, não
há como saber muito sobre o que acontece nas tempestades
de Marte. Pode-se apenas observar eventos específicos,
mas não há como fazer previsões ou formular
regras gerais.
Um abraço!
Piu