Pergunta
No
SabeSabe foi postada uma pergunta muito interessante
sobre o paradoxo dos gêmeos. Em vez de responder diretamente
no site do SabeSabe, pedi ao autor da pergunta que escrevesse
para o Oráculo. As intenções eram identificar
o autor e também publicar a resposta em nossa seção.
Porém, o rapaz sumiu... J De qualquer modo, fica aqui a
mensagem que ele postou e a nossa resposta. (Nota: o nick do rapaz
é zaguleu)
Olá
Considere
a situação bem conhecida do "Paradoxo do Gêmeos"
da Relatividade Restrita. Um dos gêmeos permanece na superfície
da Terra enquanto o outro embarca em um foguete que viaja a uma
velocidade muito próxima da velocidade da luz. O foguete
viaja durante alguns anos com velocidade constante, REVERTE SUA
VELOCIDADE e viaja mais outros anos com velocidade de mesmo módulo
de encontro à Terra. A Teoria afirma que o gêmeo
que permaneceu sobre a Terra terá idade maior que o que
estava no foguete. A origem do paradoxo está no fato de
que ambos os gêmeos podem dizer que o outro é que
se afastou a uma velocidade próxima da luz, reverteu o
sentido da velocidade e voltou. Tanto o que estava no foguete
quanto o que estava na Terra pode afirmar isso. Sendo assim, onde
está a quebra da simetria que ocasiona o fato de o gêmeo
do foguete resultar realmente mais jovem?
A resposta é que o referencial ligado ao foguete não
permaneceu inercial todo o tempo. Na verdade, no instante da reversão
de velocidade o referencial não era inercial.
As Transformações de Lorentz prevêem que uma
régua de comprimento L1 em repouso em K` medida por O`
apresentará um comprimento L2 (L2<L1) quando medida
por O. As mesmas Transformações de Lorentz prevêem
que uma régua em repouso em K de comprimento L1 medida
por O apresentará um comprimento L2 quando medida por O`(L2<L1).
O mesmo acontece com os intervalos de tempo medidos pelos dois
observadores. Cada uma achará que o tempo do outro é
que está dilatado. Isso é conseqüência
direta das transformações de Lorentz. De outro modo,
teríamos dois referenciais em movimento relativo uniforme
não-equivalentes.
O problema é que as Transformações de Lorentz
para dois referenciais em movimento relativo uniforme prevêem
esses efeitos completamente simétricos, de cada observador
medir uma dilatação no tempo do outro e de contração
no espaço do outro. Portanto, não são puramente
as Transformações de Lorentz que explicam a diferença
de idade dos gêmeos. Elas prevêem efeitos simétricos.
Essa simetria é quebrada, no problema dos gêmeos,
no instante em que o foguete reverte sua velocidade. É
apenas nesse instante que não há simetria. Na viagem
de volta, tudo passa a ser simétrico novamente. Tudo isso
que eu comentei até agora está de acordo com a teoria.
O que ocasiona a não inercialidade do referencial do foguete
durante a reversão de sua velocidade em relação
à Terra? Não adianta dizer que se deve à
aceleração. Definindo a aceleração
como a segunda derivada da posição, tanto o gêmeo
que estava no foguete quanto o que estava na Terra pode afirmar
que a segunda derivada da posição do outro foi diferente
de zero durante o período de reversão. Portanto,
para falar de aceleração, é necessário
dar alguma outra definição que não o "x
dois pontos".
Outra maneira de pensar é que apenas o referencial do foguete
teve uma variação de velocidade em relação
ao resto da matéria do Universo. Se propusermos essa solução,
estaremos dizendo que o resto da matéria do Universo influencia
os fenômenos de inércia locais, e, portanto, também
os fenômenos de gravitação, segundo o princípio
de Relatividade Geral.
Até aqui, concluí que a assimetria dos gêmeos
pode ser devida a dois fatores:
a) Movimentos acelerados são absolutos.
b) O resto da matéria do Universo influencia fenômenos
inerciais, e, portanto, fenômenos gravitacionais locais.
Há alguma outra alternativa?
A hipótese a) é completamente contrária ao
princípio de Relatividade Geral, e não me parece
satisfatória.
Analisemos, portanto, a hipótese b) .
Se o resto da matéria do Universo influencia fenômenos
gravitacionais, onde esta influência aparece nas teorias
de gravitação atuais? Ao que me conste, essas teorias
apenas levam em conta as massas dos corpos em questão,
a distância entre eles e a contante gravitacional G.
Ora, é evidente então que essa influência
do resto do Universo, se existir, está embutida de alguma
forma em G.
Mas então G não é necessariamente constante,
pois, o Universo estando em expansão, a influência
das massas sobre outras pode alterar, alterando, assim, o valor
de G.
Outra forma de pensar é que o que denominamos hoje Leis
da Natureza na verdade são casos específicos de
leis mais gerais, já que a distribuição específica
da matéria em nosso Universo influencia até o que
chamamos de constantes universais. Nesse caso, se a matéria
do Universo tomar uma distribuição diferente da
atual, as "Leis" serão outras...
Gostaria de ter comentário de você sobre tudo isso.
Abraço
!
Resposta
Olá, zaguleu!
Se queremos entender o problema que você expõe, em
primeiro lugar precisamos reformular o enunciado. Em vez de um
objeto de pequena massa e a Terra, vamos considerar dois objetos
de massas iguais. Em vez de ir e voltar, ambos traçarão
uma trajetória circular, partindo do mesmo ponto, viajando
em direções opostas e se encontrando no ponto diametralmente
oposto ao de partida. Mais adiante explicaremos a razão
dessa modificação na maneira de formular o problema.
Também é importante que ambos se movam ou na direção
do ápex solar, ou ambos na direção oposta,
e que o plano da circunferência esteja inclinado 90 graus
em relação ao plano da eclíptica, para assegurar
que um deles não se sujeitaria a uma interação
gravitacional mais intensa com o Sol, que embora diminuta, não
nos custaria nada cuidar para que não estivesse presente
atrapalhando nossos resultados (na verdade, ainda teríamos
alguns empecilhos, porque o ápex solar está inclinado
30 graus em relação à eclíptica e
não haveria um modo de assegurar perfeita simetria no movimento
dos dois objetos). Mais um detalhe evidente e presumível:
os objetos precisariam viajar a velocidades próximas de
c, para que as possíveis variações fossem
sensíveis. Seria irrelevante o movimento ser uniforme ou
acelerado.
O que aconteceria quando se encontrassem? Qual deles teria relógio
defasado? Não existe motivo algum para supor que em algum
deles o tempo teria se passado mais lentamente, por isso a conclusão
natural é que os relógios permaneceriam sincronizados
durante todo o trajeto, e marcariam o mesmo tempo quando se encontrassem.
Uma explicação possível seria a existência
de um referencial inercial absoluto, e o melhor referencial que
podemos assumir, parece-me, é a radiação
de fundo de 2,7K. Aceitando isso, a velocidade absoluta
da Terra na direção do ápex solar varia de
610km/s a 670km/s, e ao considerar as velocidades dos objetos,
seria preciso somar ou subtrair o movimento da Terra, dependendo
do caso.
Uma evidência de que é realmente isso que acontece
pode ser encontrada nos aceleradores de partículas. Tanto
num acelerador linear como num anular, se você faz duas
partículas viajarem a altas velocidades, uma em relação
a outra, e ambas se movendo à mesma velocidade em relação
à Terra, no momento da colisão ambas terão
aumentado suas massas na mesma proporção. Será
como se ambas estivessem o tempo todo se movendo em relação
a um referencial absoluto, em vez de uma estar se movendo em relação
a outra. Em tal caso, a Terra poderia ser assumida como esse referencial,
porque sua velocidade absoluta de cerca de 640km/s é desprezível
em comparação às velocidades das partículas.
Note que a Terra não aumentaria sua massa em relação
às partículas, mas as partículas é
que aumentariam em relação à Terra, isso
porque o movimento absoluto da Terra determinaria
a que ritmo o tempo estaria fluindo para ela, bem como sua energia
cinética, enquanto a velocidade absoluta das partículas
teria efeito análogo sobre elas.
Note que assumindo a existência de um referencial absoluto,
não importa quão grande seja o número de
elementos distintos, com movimentos distintos, nunca teremos paradoxos
como o dos relógios, o dos gêmeos ou similares.
Quanto à possibilidade das constantes fundamentais mudarem
ao longo do tempo, parece bastante razoável que isso aconteça,
embora não existam indícios que confirmem isso.
Há mais de 10 anos estão sendo feitas medições
tão acuradas quanto possível com a finalidade de
determinar ínfimas variações em algumas constantes,
mas não tenho conhecimento de qualquer resultado definitivo
nesse sentido. Sabe-se apenas os limites abaixo dos quais não
ocorrem tais variações (ex.: G não varia
mais do que 0,001% a cada século, mas ainda não
se dispõe de dados suficientemente acurados para saber
se ocorrem em G variações menores). Outra consideração
a ser feita é que as constantes podem variar não
só ao longo do tempo, mas também sob diferentes
condições de temperatura ou gravidade, para citar
apenas duas possibilidades. Em condições extremas
de temperatura, como 0K, não faço idéia do
que poderia acontecer (talvez um fóton congele, e com a
anulação da atividade do bóson
mediador da interação eletromagnética, essa
força deixaria de existir. Será?). No âmago
de uma singularidade, nada pode ser previsto com base nos conhecimentos
que se dispõe hoje em dia. A questão é: em
condições menos extremas que uma singularidade ou
0K (zero Kelvin), teríamos variações menores
nas pretensas Leis físicas e/ou nas constantes fundamentais?
Creio que não se pode dar uma resposta a isso por enquanto.
Um abraço!
Piu