Pergunta
------Mensagem
original-----
De: Francisco Lacerda [mailto:clacerda@vicunha.com.br]
Enviada em: quinta-feira, 9 de novembro de 2000 06:29
Para: 'melao@sigmasociety.com'
Cc: 'angelam@unifor.br'
Assunto: Dúvida cruel...
Prioridade: Alta
Pessoal, gostaria muitíssimo de ter a resposta a uma pergunta,
e, acho que aí, do outro lado da telinha, deve ter alguém
que pode responder com alguma parcela de segurança!
O universo
é mesmo infinito???
Se
for infinito, é necessário que haja matéria
escura suficiente para que não ocorra o paradoxo de Olbers,
mas as teorias vigentes sugerem que seja finito e com tamanho
relativamente bem conhecido.
Minha pobre
mente não consegue entender o infinito! E mesmo antes do
big-bang, algo existia, não é verdade?
É
uma boa pergunta! :-) Para tratar do que acontece alguns instantes
depois do Big-Bang, precisamos de uma teoria de gravitação
quântica, que permita entender o que se passa sob o raio
de Schwarzschild. Mas não dispomos de uma teoria unificada
que inclua a gravitação. Para entender o momento
do Big-Bang, precisamos de mais do que isso, porque seria preciso
compreender o se passa numa singularidade, e perguntar o que acontece
antes disso, eu não creio que faça algum
sentido, porque os modelos cosmológicos vigentes supõem
que o tempo começou a existir com o universo, ou seja,
sem universo não há tempo e não podemos falar
em antes.
Mas o que?
E desde quando?
A
expressão "Quando" implica em "tempo".
"Antes" também requer existência de tempo.
Mas se havia alguma coisa "antes" do Big-Bang, essa
coisa não era propriamente o tempo, uma vez que o tempo
e o espaço começaram a existir com a origem do universo.
Um detalhe importante: o Big-Bang é apenas uma das teorias
sobre a origem do universo, e a partir dela se pode formular diferentes
modelos.
È possível
que algo sempre tenha existido e sempre exista???
Você
está usando muitas expressões ligadas ao conceito
de tempo. Não temos nenhum motivo para acreditar que o
tempo seja "eterno". Aliás, "eterno"
é uma expressão que pressupõe a existência
do tempo. Se você deseja formular uma pergunta sobre alguma
coisa que esteja fora dos limites do universo, precisa respeitar
o fato de que o tempo e o espaço estão contidos
no universo, não fora dele, nem antes dele. A questão
é muito delicada e para fazer perguntas que tenham algum
sentido, antes precisamos estabelecer um conjunto de normas coerentes
e uma linguagem apropriada.
Pois mesmo
que morramos, mesmo que todo o universo encolha e expluda, mesmo
assim, algo permanecerá! Mas o quê ???
Desculpem-me
se vocês acham isso uma baboseira, mas esta é uma
de minhas dúvidas! ! !
Carlos Lacerda,
direto de Pacajus - Ce - BRA.
Fui...
É
uma boa dúvida! :-) Porém não temos uma resposta
a altura. Por isso vamos dar uma enrolada...O fato é que
nosso modelo matemático de universo não representa
o universo propriamente. Se retrocedermos até as culturas
mais primitivas, encontraremos muitas concepções
bizarras, com chacais comendo pedaços da lua ou a Terra
sustentada sobre a carapaça de tartarugas. Se avançarmos
até os tempos áureos da Grécia, encontraremos
modelos mais racionais, formulados por filósofos que observavam
os céus e procuravam representar os fenômenos celestes
por meio de modelos coerentes. Os primeiros sistemas cosmológicos
consistiam em esferas concêntricas de cristal, todas girando
em torno da Terra (Pitágoras), ou tudo girando em torno
de um Fogo Central (Filolau), ou ainda tudo girando
em torno do Sol (Aristarco). O mais lógico era o sistema
geocêntrico, conforme demonstrou Aristóteles, por
meio de argumentos tão persuasivos que só foram
refutados 2 mil anos depois. Isso é um detalhe muito importante!
Aristóteles e seus contemporâneos não eram
menos inteligentes do que os pesquisadores modernos, e os critérios
que usavam não eram inferiores aos atuais. Eles pecavam
por negligenciar a experiência, e hoje pecamos por burocracia
científica, entre outras coisas. A ausência de paralaxe
estelar e a queda perpendicular dos corpos foram possivelmente
os melhores argumentos em favor do modelo da terra imóvel.
E a Teoria da Relatividade talvez seja um dos melhores argumentos
em favor do universo finito e em expansão. Mas vamos aguardar
alguns milhares de anos antes de garantir que nossas teorias atuais
são corretas.
Como a resposta ficou muito curta, vamos encher um pouco de lingüiça.
J Os gregos se perguntavam o que havia por traz da última
esfera, onde estavam as estrelas fixas, e alguns achavam que as
estrelas eram na verdade furos na última esfera (essa esfera
era um pano escuro), e que por traz dela havia muita luz, que
atravessava tais furos.
Hoje tudo isso nos parece rudimentar, do mesmo modo que nossa
concepção moderna será obsoleta num futuro
distante. Alguns pesquisadores, provavelmente quase todos, podem
ter a impressão de que esgotamos os limites de até
onde se pode enxergar, mas essa visão me parece um tanto
ingênua. Antes da Mecânica Quântica e da Relatividade,
também se acreditava que o conhecimento científico
estava quase esgotado.
Se pudermos entender a evolução das idéias
sobre o universo, teremos uma noção mais adequada
sobre o assunto. Os modelos vigentes naquela época (voltando
aos gregos) eram compatíveis com os conhecimentos disponíveis,
do mesmo modo que nossos modelos atuais (Lemaître, De Sitter
etc.) são compatíveis com nosso atual estágio
tecnológico, nada além disso. Se julgamos que nossos
modelos são representativos da realidade, é por
mera vaidade e arrogância, a mesma vaidade e a mesma arrogância
que conduziram ao fanatismo pelo modelo geocêntrico. Mas
agora trata-se de um fanatismo diferente, pelo paradigma científico
ou, no extremo oposto, o fanatismo pelas idéias de Thomas
Khun (de anti-paradigmas). A grande verdade é que vivemos
numa busca constante pelo conhecimento, e vamos subindo um degrau
de cada vez, eventualmente tropeçamos, caímos, voltamos
a subir... Mas nunca chegaremos ao topo, se é que existe
um topo. As duas "grandes" teorias do nosso século
me desagradam profundamente. Tanto a Mecânica Quântica
como a Relatividade são um tanto mirabolantes e repletas
de paradoxos. São apelações abstratas que
usamos para prosseguir investigando além dos limites do
que podemos entender. Elas agridem nosso bom senso, e seus defensores
tentam sustentá-las com equações, como se
tais equações fossem o esqueleto dourado sobre o
qual está erigida toda a Natureza. É importante
não nos esquecermos de que uma teoria que funciona em 99%
dos casos é incorreta, e nem a Relatividade nem a Mecânica
Quântica dão conta de prever 99% dos fenômenos
que deveriam. Mas isso não significa que deveríamos
abandonar essas teorias, porque embora sejam incompletas, continuam
sendo o melhor de que dispomos. Do mesmo modo, o sistema geocêntrico
só foi abandonado quando o heliocêntrico se tornou
suficientemente bem demonstrado (e ainda foi preciso vencer algumas
barreiras que são típicas durante as transições
de um modelo tradicional para outro inovador). Portanto, o jeito
é aguardar até que teorias melhores venham substituir
ou complementar as duas grandes teorias supracitadas. Ou, em vez
de aguardar, você pode investigar o assunto e tentar revolucionar
a Física. Note que eu não gosto das idéias
apregoadas pela Mecânica Quântica ou pela Relatividade,
mas eu não proponho nada melhor, isso porque é bem
mais fácil criticar do que "criar" ;-)
Voltando novamente aos gregos, à medida em que as observações
foram se refinando, os modelos tiveram que ser modificados a fim
de se manterem ajustados aos dados empíricos. Eudoxo teve
que aperfeiçoar (remendar) o modelo de Pitágoras,
e mais tarde Ptolomeu levou esse modelo aos seus limites de precisão,
usando um conjunto com mais de 50 epiciclos e gradientes para
representar o movimento dos planetas, do sol e da lua. Esse modelo
ainda não comportava os cometas ou os meteoros, que eram
considerados fenômenos atmosféricos.
No século XV, isto é, cerca de 2000 anos depois
do modelo geocêntrico ter sido adotado, as discrepâncias
entre a teoria e os dados observados chegaram ao seu apogeu, então
Copérnico propôs uma mudança fundamental no
modelo, deslocando a Terra do centro do universo e colocando o
Sol nesse lugar. Ele manteve os epiciclos, que só foram
eliminados cerca de um século depois, com as órbitas
elípticas de Kepler. A mudança de posição
tinha implicações importantes nas dimensões
do universo, porque se a Terra se movia, necessariamente produziria
um efeito paralático, mudando a posição relativa
das estrelas de fundo. Se essa paralaxe não era observada,
significava que as estrelas se encontravam muito mais afastadas
do que os planetas. Isso levou Kepler a estimar que as estrelas
(ele ainda conservava a noção de esferas de cristal
e imagina todas à mesma distância do Sol) ficavam
a cerca 500 bilhões de quilômetros do Sol. É
importante lembrar que nessa época Cassini ainda não
havia determinado a distância Terra-Sol, com base na observação
de Marte (em sua oposição periélica) de dois
pontos diferentes na superfície terrestre (em sincronia
com Richer), e as estimativas de Kepler situavam o Sol a apenas
24 milhões de quilômetros.
Giordanno Bruno chegou mais próximo da verdade, concebendo
um modelo de universo infinito, com estrelas espalhadas por todas
as partes, cada uma delas um sol, como o nosso, em torno das quais
giram planetas habitados por civilizações. Mas Bruno
era um filósofo, não um astrônomo, por isso
suas divagações não se baseavam
em dados empíricos e não poderiam ser encaradas
pela comunidade científica com algo além de palpites
(bons palpites, sem dúvidas). Além do mais, a idéia
de universo infinito uniformemente povoado por estrelas implica
num paradoxo, que foi notado mais tarde por Olbers.
Com a invenção do telescópio, na Holanda,
e sua rápida reprodução por Galileu e Kepler,
a precisão das observações deu um grande
salto e desde então foi crescendo rapidamente. À
medida que os instrumentos foram se tornando maiores, foi sendo
possível determinar paralaxes cada vez menores, e mesmo
assim não era possível notar nenhum efeito paralático
nas posições estelares, portanto a distância
das estrelas foi sendo empurrada para cada vez mais
longe... Até que Bessel, no século XIX, finalmente
conseguiu determinar a paralaxe de uma estrela. O resultado foi
60 trilhões de quilômetros (6 anos-luz), e nos anos
seguintes foram determinadas paralaxes ainda menores, para estrelas
situadas a quatrilhões de quilômetros. Esse método
apresenta limitações relacionadas à capacidade
dos equipamentos, e usando a órbita terrestre para produzir
o efeito paralático não se pode medir nada muito
além de 1.000 anos-luz. Por isso foram usadas outras técnicas
combinadas. Eu estou tentando abordar todos os detalhes importantes,
e colocá-los mais ou menos em ordem cronológica,
mas acabo de me lembrar que não mencionei as estimativas
de Herschell sobre o tamanho da Via-Láctea. E, mais importante
do que isso, acabo de me lembrar que preciso dormir. J Por isso
vou dar uma arrematada nisso. Bom, depois vieram as técnicas
de paralaxe estatística, variação de luminosidade
das cefeidas e, finalmente, com Hubble, chegamos ao desvio para
o vermelho, que assumindo como correta a Teoria da Relatividade,
sugere a recessão das galáxias e implica num universo
finito.
Entendemos por universo o espaço-tempo onde
se encontram os corpos que podemos observar. Se forem corretas
as estimativas sobre paralaxe estatística, sobre luminosidade
das cefeidas e sobre desvio para o vermelho, o universo deve ter
cerca de 10 a 15 bilhões de anos-luz. A incerteza nesses
valores é grande, porque os cálculos envolvem muitos
métodos indiretos, cuja propagação de erros
torna o resultado final bastante impreciso. Além disso,
o resultado se baseia num conjunto de teorias e hipóteses
que podem não ser corretas, como a variação
de brilho das cefeidas obedecer a uma regra geral, a teoria da
relatividade estar correta em toda sua extensão, entre
outras coisas.
Nossa situação atual não é muito diferente
da situação dos gregos. Temos à disposição
equipamentos mais sofisticados, ferramentas matemáticas
mais poderosas, computadores para tratar as equações
que não oferecem soluções analíticas
etc., mas nossa capacidade intrínseca de pensar e criar
não mudou muito de lá para cá, e continuamos
nos debatendo para entender o que acontece nos estreitos limites
do que podemos enxergar, e nos esforçamos para transcender
e saber o que se passa além do que enxergamos. Na década
de 1960 ninguém jamais tinha observado diretamente um átomo,
mas todos já acreditavam na existência de prótons,
nêutrons e elétrons, que são 100.000 vezes
menores, e já se começava a especular sobre a existência
dos quarks. A Ciência nos permite isso, graças aos
métodos indiretos usados para estudar o comportamento dessas
partículas, por isso é possível conhecer
as características que elas devem ter, mesmo sem nunca
tê-las observado. O mesmo se aplica ao universo. Acreditamos
compreender algumas de suas propriedades, e procuramos nos manter
nos limites de onde nosso conhecimento empírico pode ser
comparado à teoria, afim de corroborá-la ou refutá-la.
Por isso não faz sentido, sob o ponto de vista científico,
especular sobre o que existe além das fronteiras do que
podemos estudar. Precisamos de novas teorias que permitam tratar
melhor das informações disponíveis e também
precisamos de equipamentos mais sofisticados para coletar dados
mais acurados. Por enquanto só podemos opinar sobre o existe
num raio de 10 a 15 bilhões de anos-luz. Fora desses limites,
é campo para os escritores de ficção, religiosos
e esotéricos, que gostam de falar sobre o que não
conhecem.
Um
abraço!
Piu