Pergunta
Parte
I
-----Mensagem
original-----
De: afreitas [mailto:afreitas@usp.br] Em nome de Antenor de Freitas
Filho
Enviada em: sábado, 12 de agosto de 2000 15:47
Para: sigma.2000@sti.com.br
Assunto: Divagação!
Olá Melão,
Outro dia
estava lendo uma carta enviada para ser respondiada pelo Oráculo,
onde vc tem a impressão, acertada na minha opinião,
que a pessoa que fazia a pergunta estava mais se exibimdo que
querendo saber uma resposta para a dúvida dela, espero
que não seja o caso agora com essa mensagem!
Eu tenho
alguma dificuldade em ter muitos amigos, ou pelo menos alguns
que tenham interesses paracidos com os meus; ai entrei para fazer
pós-graduação e o ambiente melhorou um pouco,
pelo menos no começo, agora depois de alguns anos quando
?a ficha começa a cair? e as coisas começam a ficar
mais claras, a impressão que se tem é que 80% do
seu tempo aqui dentro passa-se fazendo algum trabalho "burrocratico"
, para fazer meu doutorado,p. ex., perderei pelo menos dois dos
quatro anos mínimos necessários para terminá-lo.
Mas não era bem esse assunto que estava querendo te falar
- foi só para desabafar um pouco, me desculpe se o faço
perder tempo lendo estas bobagens- foi então que encontrei
as sociedades de HIQ, e a esperança renasceu no sentido
de se começar a fazer coisas interessantes que nem ousaria
comentar com meu orientador; e olhe que ele tem ADD, ou seja um
QI altíssimo, estou tentando montar um clube de pessoas
que gostem de robôs, dotá-los de alguns sentidos
humanos tais como visão, fala e principalmente inteligência,
no sentido de saberem como resolver problemas para os quais não
foram programados para saberem a solução, mas o
sonho maior seria conseguir uma ?interface? entre nossa mente
com um computador no sentido de ter na tela do micro uma imagem
do que estamos pensando, não tendo a necessidade de tentar
traduzir aquilo em palavras; e de quebra imortalizar todos que
tenham interesse em tal experiência no sentido de ter todos
os dados gravados em um disco rígido e poder fazer com
que outras pessoas possam conversar com ele/a mesmo quando este
já tivesse nos deixado, além do que estes dados
do disco poderiam continuar se "evoluindo" indepente
do ser original que deixou as informações originais;
minha nossa agora eu exagerei mesmo!! Em todo caso quando estou
sonhando é com isso que perco meu tempo, será que
teria mais alguem na sociedade que tenha interesses parecidos
com esses?! Parece que não tenho muito poder de síntese
não é, era só isso que estava interessado
em saber, se teria mais alguém que se intersse por imortalidade,
pelo menos do pensamento, não seria igual ao do livro escrito
pela pessoa mas o próprio pensamento dela ainda vivo entre
nós.
Resposta
Grande
Antenor!
Tudo
bem?
A
Mariangel me enviou outros e-mails depois daquele. Cerca de 10
ao todo. Ela parece uma pessoa simpática, mas naquela mensagem
me pareceu claro que realmente a intenção dela era
aquela, pois da maneira como ela descreve os termos utilizados,
deixa transparecer que não acredita que a pessoa a quem
ela dirigiu a pergunta saberá sequer o significado daquelas
expressões, e muito menos a resposta à sua pergunta.
Se no seu caso a intenção é a mesma que a
dela, isso não sei dizer, mas pelo menos você está
sendo mais sutil. ;-)
Acho muito interessante sua idéia de construir robôs
pensantes. Digo interessante porque inicialmente o
perigo será bem pequeno, já que eles serão
pouco inteligentes. Mas à medida em que forem
ganhando autonomia e se tornando capazes de tomar decisões
próprias, fica difícil prever o que eles vão
fazer conosco. Basta analisar a maneira como tratamos os animais
para ter uma idéia do que pode nos acontecer. Acho que
qualquer especulação nesse sentido, não conduz
a lugar algum. Por isso vamos tentar encaminhar o assunto de modo
que cheguemos a algum lugar.
A impressão que tenho é de que mal começamos
a engatinhar nesse campo. Pelos softwares de tradução,
pelos programas que ministram sessões de Psicanálise
e pelos programas para jogar Xadrez, podemos perceber o quão
pouco sabemos sobre como atua o pensamento. Um programa de Xadrez,
por exemplo, precisa calcular 1 milhão de lances por segundo
para conseguir equilibrar a força de jogo com um grande
mestre humano, que calcula somente 1 ou 2 lances por segundo.
Além disso, o programa não entende nada do que está
fazendo. Ele elege o melhor lance pela força bruta,
comparando os resultados de numerosas variantes, selecionadas
com base em critérios extremamente rudimentares. Se um
programa de Xadrez chegar a uma posição semelhante
a outra contida em seu banco de dados, ele será incapaz
de compará-las e tirar proveito de seu conhecimento.
Vejamos um exemplo: o Hiarcs 7.32 é uma das engines mais
sofisticadas que existe. Na maior parte das vezes, é capaz
de avaliar estrategicamente uma posição com tanta
acurácia quanto um grande mestre. É um dos programas
que aprende com as próprias partidas, incorporando
à sua engine as valorações que vai fazendo,
tendo em conta todo o histórico pregresso e o transcurso
posterior das partidas, e usa essas informações
nas análises de outras partidas. Em muitos casos ele é
capaz de evitar cometer o mesmo erro quando se depara pela segunda
vez com a mesma posição, o que já é
algo bastante representativo em comparação a qualquer
outra máquina moderna, mas ainda é muito pouco em
comparação à capacidade de raciocínio
de um cachorro ou de um rato.
Pois bem, o Hiarcs 7.32 é incapaz de concluir que se no
diagrama 1 as Brancas dão mate em 16 lances, no diagrama
2 também haverá o mesmo mate, pois a mudança
na posição do Rei branco é irrelevante. E
não apenas o Hiarcs, mas também o Fritz 6, o Junior
6 e qualquer outro software de ponta. Nenhum deles é capaz
de entender algo que nos parece tão óbvio.
Os softwares de Xadrez e de tradução
são importantes indicadores do estágio em que se
encontram os estudos sobre inteligência artificial, e eles
revelam que já é possível simular com eficiência,
por meio da força bruta, a capacidade de pensar
sobre processos muito simples. Mas à medida em que esses
processos vão se tornando mais complexos, os programas
começam a falhar sistematicamente. O que os programas fazem
atualmente é processar instruções com rapidez.
Fazem isso melhor do que os mais velozes calculistas mentais,
sorobanistas ou enxadristas. Porém, coloque os computadores
diante de uma situação em que seja preciso improvisar,
e eles serão incapazes de colocar uma caixa em cima da
outra para conseguir alcançar um cacho de bananas _ coisa
que chimpanzés e gorilas fazem sem ter que meditar muito.
Na vida as decisões são tomadas aproximadamente
com base em parâmetros similares aos que usamos para decidir
qual o melhor lance numa posição de Xadrez. A diferença
principal é que no Xadrez existe um número discreto
de variáveis a serem consideradas, e a posição
final de cada variante pode ser valorada assumindo que muitos
parâmetros subjetivos podem ser quantificados, de modo a
estabelecer uma ordem de prioridades a serem seguidas, e com isso
é possível acertar nas decisões recorrendo
a um pequeno número de informações sobre
os princípios gerais do jogo. Pode-se dizer, por exemplo,
que uma Dama vale 88, uma Torre vale 45, um Bispo vale 32, um
Cavalo vale 30 e um Peão vale 10 (mais grosseiramente,
pode-se dizer que os valores são, respectivamente: 9, 5,
3, 3, 1). Além disso pode-se dizer que esses valores devem
ir aumentando à medida em que as peças forem saindo
do tabuleiro, a fim de ensinar aos programas a Teoria
da Simplificação. Para tanto, basta dizer
ao programa que o valor de cada peça deve ser multiplicado
por 800 e dividido por x, onde x representa a soma
dos valores das peças presentes no tabuleiro + 400. Pode-se
também atribuir algo como 1 ponto (0,1 Peão) por
casa dominada, 0,1 ponto por Peão central etc., e assim
obter uma estimativa das vantagens estáticas (espaço)
e dinâmicas (mobilidade das peças) em cada posição.
Mas ainda existem problemas técnicos extremamente difíceis
de serem resolvidos, como avaliar a segurança dos Reis
ou a importância justa de uma estrutura de Peões
defeituosa. Naturalmente os primeiros programas de Xadrez eram
muito ruins, e depois de 3 décadas temos acumulado alguma
experiência, que permitiu compilar programas sábios
e lentos (Hiarcs, Genius, M-Chess Pro) tão bons como
os tolos e velozes (Fritz, Nimzo). Os sábios
e lentos assemelham-se mais ao jogador humano, na aparência
dos lances, mas ainda diferem muito na essência. Um programa
veloz calcula 500.000 a 2.000.000 de lances por segundo, enquanto
um programa lento calcula entre 10.000 e 50.000, portanto, mesmo
os programas lentos e sábios são muito mais rápidos
e mais tolos que os humanos.
A única maneira de saber se foram ensinados
bons conceitos a um programa é colocando-o para jogar com
humanos e com outros programas, e fazendo uma estatística
dos resultados. Com isso pode-se escolher algumas poucas variáveis
e ir mudando-as gradualmente, depois comparando o desempenho do
programa antes e depois da mudança. Se o desempenho melhorar,
as mudanças são mantidas, caso contrário,
restabelecemos os parâmetros antigos. Por exemplo, em vez
de dizer que cada Peão central vale 1, podemos dizer que
vale 1,15 e verificar se isso aumenta ou diminui a performance
do programa.
Como está claro, a tarefa é absurdamente laboriosa
e dispendiosa, portanto requer muito tempo, uma equipe numerosa
e pesados investimentos. Não é como inventar o Cálculo,
a Teoria da Relatividade ou o Teorema de Pitágoras, em
que basta dispor de uma vareta e um chão arenoso para rabiscar,
ou no máximo uma folha de papel, uma caneta e algumas ferramentas
matemáticas adequadas, um sistema de símbolos conveniente
e coisas do gênero. Mas os problemas que surgem nas pesquisas
sobre I.A. não são tão simples. Isso já
torna extremamente difícil e retarda imensamente o desenvolvimento
de programas destinados a uma finalidade muito específica,
como um programa que jogue bem Xadrez, ou um
bom software de tradução, e quando se pretende
algo mais ambicioso, como um programa capaz de pensar sobre qualquer
assunto, capaz de aprender sobre qualquer assunto, ou capaz de
tomar decisões, então a tarefa se torna praticamente
impossível em nosso atual estágio de desenvolvimento
tecnológico, porque na vida existe uma variedade muito
maior de informações a serem consideradas na hora
de tomar uma decisão, portanto seria preciso um tempo imenso
para reunir todos os dados relevantes e programar um robô
capaz de diferenciar uma mulher bonita e que faria sucesso como
modelo, de uma mulher que não se enquadra nos padrões
de beleza vigentes em nossa sociedade. E quando falamos em tempo
imenso, estamos nos referindo também a grandes investimentos
e numerosas equipes. Creio que a tarefa seria muitíssimo
mais árdua do que o projeto Manhattan, que consumiu mais
de 1 bilhão de dólares na década de 1940,
com vários pesquisadores de ponta trabalhando em conjunto
ao longo de alguns anos. Penso que o máximo que se pode
fazer, por enquanto, é robôs altamente especializados,
capazes de tarefas simples de raciocínio convergente.
Seria extremamente difícil elaborar um programa que lesse
e interpretasse um texto simples, do tipo: Vá ao
mercado comprar guaraná. Se não tiver, traga coca-cola.
Para que tal programa pudesse lidar com muitas frases que não
tivessem sido previamente incluídas em seu banco de dados,
ele teria que simular muito bem o entendimento, e
mesmo assim cometeria muitos erros graves, que os humanos não
cometem. O interessante é que depois de dar o primeiro
passo, os passos seguintes seriam mais fáceis. Por exemplo:
daqui a alguns séculos, depois que alguém (ou alguéns
J) conceber um programa com as características acima, será
relativamente fácil aprimorá-lo para que, apenas
dizendo O guaraná está acabando. E a
partir disso o próprio programa conclua que precisa ir
ao mercado, e que se não encontrar guaraná pode
trazer coca-cola ou então procurar guaraná em outro
mercado, e, diante desse dilema, o programa será capaz
de tomar a iniciativa de nos perguntar: O senhor quer que
eu vá ao mercado buscar? E se não tiver guaraná,
quer que eu traga coca-cola ou prefere que eu vá a outro
mercado? Enfim, a dificuldade reside nos fundamentos do
programa. Os passos seguintes, de rebuscá-lo com recursos
mais sofisticados, seriam comparativamente fáceis.
Esse quadro é ao mesmo tempo terrível e estimulante!
Terrível porque para todos os lados que olhamos, tudo o
que vemos é um vasto terreno estéril. E estimulante
porque praticamente tudo no campo da I.A. ainda está por
ser descoberto. Antes de colher os primeiros frutos, ainda é
preciso adubar a terra, inseminá-la, cultivá-la...
Cuidar de muitas etapas antes de ver algum resultado concreto.
Creio que estamos tão distantes de um robô inteligente
quanto os antigos gregos estavam de nossa tecnologia atual. O
fato é que não dispomos de ferramentas adequadas
e não acumulamos conhecimentos suficientes. Temos apenas
imaginação e avidez pela descoberta, e isso deve
nos conduzir aos nossos objetivos, mas não tão cedo...
Bom, o que quero dizer com tudo isso é que considero sua
intenção muito interessante, ambiciosa e quase impossível
de realizar no momento. E vou ficar muito feliz se você
mostrar que estou sendo pessimista e construir algo capaz de discernir
visualmente (sem analisar quimicamente) uma laranja real de outra
de plástico, e repita isso para qualquer outra fruta, e
além disso possa chegar a outras conclusões corretas
sobre questões variadas. Um programa que leia um problema
do tipo: João tinha dois ovos e seu irmão
quebrou um deles. Com quantos ovos inteiros João ficou?
e seja capaz de dar a resposta correta, seria um grande passo!
Mas acho que nem isso é possível nas próximas
décadas. Talvez seja possível elaborar um programa
de tradução tão eficiente em sua tarefa como
os programas de Xadrez são na deles. Isso já seria
um avanço muito importante, embora não representasse
mais do que uma nova gota dágua de conhecimento em
meio ao oceano do desconhecido.
Até o parágrafo acima, eu tinha respondido antes
de nos encontrarmos pessoalmente e de você me falar sobre
os detalhes de sua idéia, que envolve transmitir informação
de um cérebro humano para uma máquina (um HD, DVD
ou similar). Eu considero que o texto acima está inacabado,
mas como ia seguindo um rumo meio diferente, vamos ver se agora
abordamos o tema que você propôs.
A idéia de preservar as informações que uma
pessoa vivenciou ao longo de sua existência é fascinante,
principalmente se houver algum meio de processar essas informações
num software (na falta de algo melhor) que simule o pensamento.
Eu não sei dizer se algum dia será possível
construir uma máquina dotada de criatividade e emoção,
mas sabemos que no momento nem sequer sonhamos com os meios que
permitam compilar um programa capaz de articular idéias
básicas. Portanto, a impressão que tenho é
de que essas idéias não podem ser encaradas como
um projeto, mas como um interessante tema para um
texto de ficção. Eu coloquei uma descrição
resumida sobre a máquina da invisibilidade na seção
dos Sigma Testes, em forma de problema. Creio que uma versão
rudimentar da máquina da invisibilidade, capaz de funcionar
em circunstâncias especiais, seja um projeto muito mais
modesto e ainda assim inviável nos próximos séculos.
Já a idéia de transmitir dados de um cérebro
para um HD ou de um HD para um cérebro, isso eu considero
muito distante. Mas o que realmente fascina nisso é que
me parece viável, porque a conversão de uma linguagem
na outra não seria impossível (ao menos até
onde posso entender), já que ambos (cérebro e máquina)
trabalham à base de pulsos elétricos. Eu não
sei nada sobre neurologia, por isso não posso me arriscar
nesse campo, pois fatalmente diria grandes sandices. Mas espero
que outras pessoas com os mesmos interesses que você lhe
escrevam, e que também se associem ao seu clube de pessoas
que gostam de robôs.
Um grande abraço!
Piu
Parte
II
Pergunta
-----Mensagem original-----
De: afreitas [mailto:afreitas@usp.br] Em nome de Antenor de Freitas
Filho
Enviada em: quinta-feira, 31 de agosto de 2000 05:05
Para: sigma.2000@sti.com.br
Assunto: Aumento do arquivo sobre piadas!
(Mensagem
editada, com exclusão das piadas, que serão publicadas
na seção de humor)
Olá,
Melão
Obrigado
pela resposta no Oráculo, muito instrutiva e estimulante,
quanto à máquina ser mais inteligente que nós
tenho uma resalva que talvez nos deixe um pouco mais ?confortáveis?,
da mesma forma que pessoas como vc e eu não maltratamos
os animais quem sabe poderemos ter a mesma sorte de não
sermos maltratados pelas máquinas, e quanto ao atraso tecnológico
da nossa civilização estar tão longe do dia
em que poderemos ver tais máquinas quanto nosso atual estágio
em relação ao antigo Egito (digamos 4.000 anos atrás),
acredito que certamente não levaremos tanto tempo assim
pois há um fato chamado ?espiral do conhecimento?, algo
como quanto mais vc sobe a montanha do conhecimento mais longe
vc enxerga, quanto mais conhecimento vc adquire mais rápido
vc descobre outros, creio que até o final do próximo
século deveremos ter ?andróides ? bastante razoáveis
! espero.
Um abraço.
Resposta
Olá, Antenor!!
Tudo
bem?
Não
sei bem se a minha resposta foi instrutiva, conforme você
disse. Espero que não esteja com esse papo pra tentar me
seduzir ;-), porque sou um Piu-Piu macho, com um pauzinho (hífen)
no meio dos Piu. O pouco que conheço sobre
Inteligência Artificial está ligado à aplicação
da mesma aos softwares de Xadrez. De certo modo, sou um usuário
de Inteligência Artificial, tanto com softwares de Xadrez
como softwares de Tradução, mas pelo fato de pesquisar
com certa profundidade as diferentes engines de Xadrez (Fritz,
Hiarcs, Junior, Craftty, Nimzo etc.), acabo tomando conhecimento
sobre alguns processos que talvez possam ser de algum interesse.
Em 1998, pela Escola Virtual de Xadrez, recebi um e-mail de um
rapaz que precisa de alguma orientação sobre como
elaborar a parte heurística de um programa de Xadrez que
fosse capaz de vencer alguém que tivesse acabado de aprender
a mover as peças. Eu não achava que estivesse habilitado
para isso, mas fiz o que pude, atribuindo algumas valorações,
meio que chutadas, sobre a importância de dominar
o centro, linhas abertas etc., e ele me respondeu agradecendo
muito, demonstrando grande entusiasmo e dando a impressão
de que era exatamente o que ele procurava. No fim das contas,
tive a impressão de que ele buscava apenas algumas informações
sobre Xadrez, porque sobre I.A. propriamente, eu não conheceria
o bastante nem sequer para entender um diálogo light
entre estudantes nessa área.
Quanto à questão dos animais, para nosso referencial
julgamos que não os maltratamos, mas não creio que
algum de nós gostaria de trocar de posição
com eles. Note que eles vivem sem liberdade, quase exclusivamente
para nosso prazer e diversão. Podemos gostar deles, mas
nem por isso lhes oferecemos o que talvez seria realmente o essencial
a eles.
Quanto à espiral do conhecimento, de fato parece representar
satisfatoriamente a evolução da Ciência e
da Tecnologia. Um exemplo interessante seria o Evolucionismo,
que de Lamarc passou por Darwin e Wallace e agora parece estar
resgatando algumas idéias de Lamarc, como a segunda volta
da espiral que passa sobre o antigo ponto, mas com uma visão
mais elevada. Isso acontece em muitos casos, mas segue caminhos
inteiramente distintos, com saltos ou quedas, desvios etc. Especialmente
no caso da I.A., acredito que o desenvolvimento precisará
de um salto para prosseguir, porque o tamanho dos chips já
está chegando perto de atingir seus limites físicos.
O que quero dizer é que não sei se algum dia será
possível construir um processador com 1 THz ou um HD com
100THz. Se isso for possível, deve envolver uma tecnologia
inteiramente nova e, portanto, representará um salto
fora da evolução suave e contínua da espiral
do conhecimento.
Quanto aos andróides, esse é um tema delicado! Um
membro da Prometheus, chamado Graddy Towers, que faleceu nesse
ano, escreveu um artigo muito interessante sobre a miscigenação
entre homens e macacos. Ele considera a possibilidade de fazer
experiências cruzando homens com chimpanzés e/ou
gorilas, e cita que o número semelhante de cromossomos
é um fator que favorece esse cruzamento, como acontece
no caso de cruzar cavalos com jumentos, gerando mulas. Mas para
conseguir o aval necessário a promover tais experimentos,
seria preciso persuadir a Igreja e o Governo, e para tanto também
seria preciso persuadir o povo. Em outras palavras, isso só
seria possível se houvesse algum indício de que
tais experimentos nos levariam a encontrar a cura para a AIDS
ou algo assim, do mesmo modo que a NASA precisou apelar para a
possibilidade de existência de vida (macroscópica)
em Marte para conseguir fundos financeiros destinados às
missões Viking, Mariner e outras... É a meta elevada
(agradar aos olhos do povo e da mídia) que permite arrecadar
fundos para o projeto mais vulgar (expandir os horizontes
de nosso conhecimento).
Construir um andróide talvez já seja possível
nos dias de hoje. Depende do que se entender por andróide.
Se anexar um braço mecânico, capaz de responder aos
impulsos elétricos adequados e corresponder com os mesmos
movimentos de um braço orgânico, se isso já
puder ser considerado um andróide, então já
dispomos dessa tecnologia. Mas bem diferente disso é, conforme
você disse, colocar um cérebro dentro de um conjunto
de engrenagens, ligado a miríades de eletrodos, e esse
cérebro comandar todo um corpo mecânico. Nesse caso,
não bastaria que dispuséssemos de tecnologia suficiente,
mas além disso seria necessário vencer a barreira
dos dogmas religiosos e as tradições sociais. Se
bem que, depois de atingir o estágio tecnológico
adequado, a tarefa de driblar as restrições da Igreja
e da Sociedade é a parte mais fácil. Contudo, existe
algo mais grave e mais importante do que os preconceitos religiosos
e sociais. É a Ética. E, sinceramente, eu não
sei se é ético empreender algum esforço no
sentido de preservar um cérebro em tais condições.
Eu, por exemplo, acho que não gostaria de ter meu cérebro
trabalhando num corpo mecânico, um corpo incapaz
de se satisfazer sexualmente, gastronomicamente etc.
Enfim, no que diz respeito às limitações
tecnológicas, creio que vamos precisar de muito tempo até
que possamos enlatar um cérebro e mantê-lo ativo.
Você deve estar mais apto do que eu para estimar o prazo
para isso, pois está bem familiarizado com o ritmo em que
a área está se desenvolvendo. Se serão 200
ou 2000 anos, isso realmente não sei dizer. Mas nas próximas
décadas, como você supõe, considero bem pouco
provável.
Mas basicamente só divergimos no ponto em que você
diz até o final do próximo século deveremos
ter andróides bastante razoáveis! espero.
Talvez tenhamos andróides, de fato, mas não sei
se espero por isso com entusiasmo ou com medo. É
comum o pesquisador estar disposto a sacrificar tudo para atingir
o conhecimento almejado, até a própria vida, até
a vida de toda a humanidade e até mesmo a existência
do Universo. Outro dia uma moça (Patrícia Rodrigues)
me falou sobre um artigo publicado em Nature, que alude a uma
experiência cujos detalhes ela não descreveu, mas
deu a entender que implicava na construção de um
gigantesco acelerador de partículas para produzir anti-matéria
auto-replicante (ela citou os nomes das partículas, mas
não era nada que tenha ouvido falar antes). :-\ Como se
pode concluir, em tal experiência haveria o risco de que
todo o Universo fosse convertido em energia. Por isso alguns pesquisadores
estavam renunciando ao projeto e expondo os motivos ao Governo
e às empresas que o financiariam. O risco de destruir o
Universo com um relativamente pequenino equipamento é um
tanto assustador. No caso de construir andróides, os riscos
me parecem consideravelmente grandes, porque serão diferentes
de nós, e as criaturas são naturalmente sectárias,
tendendo a preferir seus semelhantes. O racismo, o patriotismo,
as preferências por time de futebol ou por seitas religiosas,
são algumas manifestações dessa natureza
sectária. E nada nos garante que esses andróides,
de uma hora para outra, não passariam a desenvolver uma
ideologia nazista e trabalhar pelo nosso extermínio, alegando
(com justiça) que somos nocivos à natureza e depredamos
o planeta. E usariam isso como pretexto para generalizar a idéia
de que todo humano é ruim, nocivo ao planeta, e precisa
ser eliminado.
Pois é, e eu não gostaria de ver meu sonho se transformando
em pesadelo. Robôs já me parecem consideravelmente
perigosos, tomando por referência o que eles fazem no Xadrez
e nas traduções, ou seja: ao traduzir do inglês
para o português e depois traduzir o resultado novamente
para o inglês, mudam o sentido de muitas frases. No caso
do Xadrez, eles muitas vezes acreditam estar seguindo
caminhos corretos e seguros, que para nós são evidentemente
errados e podemos demonstrar isso, e o pior é que eles
são incapazes de entender que estão
errados. Isso já me assusta. E muito mais assustador é
pensar num andróide, com paixões e pensamentos próprios,
não um mero sistema cibernético que segue instruções,
mas um cérebro com vontade própria e um poder
que pode fugir ao nosso controle. Não sou um conservador,
muito pelo contrário, mas tento considerar quais podem
ser as conseqüências positivas e negativas. A possibilidade
de construir andróides e o fato de que isso está
se tornando cada vez mais próximo de ser uma realidade
cotidiana, de algum modo me causa desconforto e preocupação,
mas como não há nada que se possa fazer contra nem
a favor, pois há milhões de pessoas envolvidas e
bilhões de pessoas alheias ao que acontece, então
simplesmente fico aguardando... E torcendo para que essas coisas
demorem muito tempo para acontecer. :-)
Um grande abraço!
Piu