Pergunta
------Mensagem original-----
De: Jorge Miguel Ramos Domingues Ferreira Vieira [mailto:egrojarieiv@clix.pt]
Enviada em: sábado, 5 de agosto de 2000 22:53
Para: Sigma Society
Assunto: uma estranha ideia
Olá Melão!
Como
está ?
Escrevo-lhe
este e-mail para lhe mostrar uma estranha...devo dizer muito estranha
ideia que me ocorreu já hà alguns anos.
Estava
deitado no sofá (não goze com a introdução
por favor 8 ) )a olhar para a televisão quando subitamente
apareceu-me uma ideia estranha na cabeça.
Questionei-me sobre a continuidade aparente do movimento...sobre
a diferença entre o rápido e o lento...e pensando
de uma certa forma quase que me convenci que a nivel atómico
imaginando-me um electrão não poderia saber a que
velocidade me deslocaria (logo pela falta de referencial), e não
poderia distinguir um e- a andar rápido de um a andar lento...será
então o movimento descontino-o, em que a diferença
de velocidades existe devido aos diferentes intervalos de tempo
entre dois movimentos infinitamente rápidos e infinitamente
pequenos?
Gostava
que opinasse sobre esta muito estranha e por ventura sem lógica
alguma, não faço ideia, ideia.
Desde
já obrigado pela atenção
Jorge
Resposta
Grande Jorge!
Como
está, meu amigo?
Pois
é. Essa é uma questão muito interessante.
Demócrito formulou um modelo atômico para tudo, inclusive
para o tempo, mas na época de Demócrito eram só
especulações, e quando a teoria do átomo
ganhou fundamentos científicos (Dalton, Thomson, Rutherford,
Bohr etc.), a idéia de átomos de tempo
foi deixada de lado. Depois depois, quando foram lançadas
as bases da Mecânica Quântica, Planck sugeriu que
existe um limite inferior de intervalo de tempo, algo da ordem
de 5,4*10^-44 segundo. Isso não significa que o tempo seja
necessariamente granuloso, constituído por partículas
de 5,4*10^-44 segundo, mas significa que, se o Princípio
da Incerteza e os fundamentos da Mecânica Quântica
estiverem corretos, então não se pode estudar (nem
mesmo em teoria) os eventos que ocorrem em intervalos menores
do que esse, que é chamado de "Tempo de Planck".
Admitindo que a Teoria da Relatividade está correta e nada
pode viajar mais rapidamente que a luz no vácuo, então
existe também um limite inferior de espaço, que
é o espacinho percorrido pela luz num intervalo igual ao
Tempo de Planck. Esse espacinho corresponde a cerca de 1,6*10^-35m.
Quanto à sua suposição das diferentes velocidades
serem conseqüência de diferentes intervalos de tempo
entre cada um dos movimentos quantizados (suponho
que poderíamos chamar assim), em princípio não
parece provocar contradição com as teorias vigentes.
Mas se o tempo for constituído por partículas cujo
intervalo tende a zero, creio que isso não representa nenhuma
diferença de considerar que o tempo é um fluxo contínuo.
Só haveriam diferenças revolucionárias se
cada intervalo fosse diferente de zero (por exemplo: 10^-100 seg.),
então isso poderia ter implicações muito
importantes e interessantes, sobretudo se tais grânulos
de tempo fossem maiores que o Tempo de Planck, porque nesse
caso produziriam diferenças sensíveis em nossa apreciação
do universo, ao ponto de nos obrigar a uma reformulação
do modelo adotado. O problema seria como determinar a duração
de tais intervalos. Pelo que sei, os intervalos de tempo mais
curtos que se pode determinar com o auxílio dos equipamentos
atuais são da ordem de 10^-23 segundo. São calculados
com base na trajetória deixada por certas partículas,
quando elas atravessam um fluido. Como as partículas viajam
a uma velocidade conhecida (quase igual à da luz), medindo-se
a trajetória pode-se saber o tempo de seu decaimento. Note
que os intervalos mais curtos medidos em laboratório são
cerca de um bilhão de trilhões de vezes maiores
do que o Tempo de Planck, ou seja, uma desproporção
mil vez maior do que entre o tempo de vida do universo e um piscar
de olhos. :-)
Um grande abraço!!
Piu