Pergunta
-Posted by Jorge Miguel
Ramos Domingues Ferreira Vieira on July 06, 19100 at 14:01:26:
Olá!
Hà algum tempo atrás ao ler uma enciclopédia
deparei com um assunto interessante, algo sobre as massas de partículas
em repouso e com uma dada velocidade. Não estou bem certo
mas julgo que a partícula em questão era o neutrino.
Nesse artigo, era descrita uma experiência para determinar
a massa de repouso dessa mesma partícula. A partir dela
chegou-se à conclusão de que a sua massa de repuso
deveria ser nula. Contudo não consigo compreender como
uma coisa que não existe (com massa), quando é acelerada
a uma determinada velocidade passa a existir com massa.
Se a massa a uma dada velocidade for igual à massa de repouso
sobre a raíz quadrada de um menos beta ao quadrado, e se
a massa de repouso é igual a zero a massa a uma dada velocidade
nuca poderia ser diferente de zero. Como é então
isto possivel?
(desculpem - me se tiver a confundir alguma coisa)
Obrigado
Jorge
Resposta
Grande
Jorge!
Tudo bem?
Pra entender melhor a questão sobre a energia cinética
das partículas elementares, é importante ver como
funciona o processo de fusão nuclear.
Vamos tomar como exemplo a fusão de hidrogênio em
hélio, que ocorre no interior do sol e de outras estrelas.
Bom, quatro átomos de hidrogênio são formados
por 4 prótons e 4 elétrons. Cada próton é
formado por dois quarks up (q = +2/3) e um quark down (q = -1/3).
Dois desses prótons sofrem uma interação
fraca, de modo que cada um deles emite um bóson W+. Esse
W+ tem massa de repouso cerca de 90 vezes maior que a massa de
repouso do próton, por isso ele precisa existir durante
um intervalo muito curto, para não violar o princípio
da incerteza (isso pode parecer meio difícil de engolir,
mas parece ser o que acontece J). Quem emite esse bóson
W+ é um dos quarks up que constituíam o próton,
e prontamente converte-se num quark down: simplificadamente, sem
falar em número bariônico, spin, isospin, número
leptônico etc., ele _ up _ tinha carga +2/3 e emitiu uma
partícula de carga +1, portanto ficou com -1/3, ou seja,
tornou-se um quark down (pois a estranheza, o charme e outras
propriedades foram preservadas). Assim, o próton torna-se
um nêutron, formado por dois quarks down (-1/3) e um quark
up (+2/3), com carga total zero. O bóson W+ colide com
um elétron e, ao anularem suas cargas, emitem radiação
em forma de luz (acho que um par de fótons) e um neutrino,
necessário para manter equilibrado o número leptônico.
Ocorrem algumas coisas insólitas (beijos pra Jú),
como um próton emitir uma partícula com massa 90
vezes maior que a dele, e depois disso ainda aumentar a própria
massa (estamos falando em massa de repouso!), pois o próton
tem cerca de 1836 vezes a massa do elétron, enquanto o
nêutron tem 1838,6 vezes.
O importante é o resultado líquido do processo final.
A massa do bóson W+ é virtual, enquanto
a massa do elétron é real. A massa do elétron
converte-se em três partículas sem massa, mas cada
uma dessas partículas possui uma determinada energia cinética.
O elétron tem energia cinética de repouso de cerca
de 511keV (ou seja, tem massa de cerca 9,1*10^-28g), e essa energia
é transferida às três partículas resultantes.
Em resumo: uma partícula com massa dá origem a outras
que não têm massa de repouso. Essa conversão
de massa em energia se dá por meio da equação
mais famosa que existe: E=mc^2.
Eu não sei atualmente se há algum consenso sobre
o neutrino possuir massa de repouso, mas acho que é universalmente
aceito que o fóton e o gráviton não têm
massa. O fato de não terem massa não significa que
não existem. A luz que você vê refletida nas
coisas é prova disso. A luz é formada por pacotes
de fótons, que têm calor, energia, spin, são
os bósons mediadores da interação eletromagnética
e possuem muitas propriedades bem definidas, portanto eles existem.
Aliás, uma das propriedades deles é justamente não
ter massa. Na verdade, apenas admite-se que não tenham,
porque simplesmente não existe um fóton ou um gráviton
em estado de repouso. Essas (e outras partículas) são
estudadas com base no rasto que elas deixam ao atravessarem determinados
fluidos (câmaras de bolhas, câmaras de Wilson etc.),
com base nas curvas que fazem, no comprimento dos rastos etc.
A equação que você cita é válida
para partículas (e corpos macroscópicos em geral)
que possuem massa de repouso. Não se aplica (ate onde sei)
a corpos sem massa.
Um grande abraço!
Piu