Quando
é determinada a paralaxe de uma estrela, se não
for levado em conta o nível de raridade de estrelas com
características tão ou mais raras que as da tal
estrela, o valor resultante estará negligenciando um
fato muito importante, que é a probabilidade combinada
de dois eventos P(A) e P(B), sendo P(A) a probabilidade da paralaxe
verdadeira estar determinada quantidade de desvios-padrão
afastada do valor médio obtido empiricamente, e P(B)
a probabilidade da estrela ter as características que
a tal estrela teria se estivesse à distância correspondente
à paralaxe obtida empiricamente. |
Vejamos um exemplo prático
de como os cálculos das distâncias das estralas podem
ser aprimorados: a paralaxe que o satélite Hipparcus mediu
para Mu Cephei é p=0,00062" com std. err. 0,00052".
Os dados sugerem que:
Há 25% de probabilidade de que a verdadeira paralaxe seja menor
que 0,00010”.
Há 25% de probabilidade de que a verdadeira paralaxe seja maior
que 0,00114".
Mas isso é falso, porque indica que há 21,06% de chances
de que a paralaxe seja menor que 0”. Aqui convém fazer
um comentário adicional: em todos os casos como esse, em que
a incerteza é tão grande quanto a própria grandeza
medida, a incerteza deveria ser expressa em log(p), porque uma paralaxe
negativa não faz sentido. Então a paralaxe e sua incerteza
deveriam ser representadas por: log(p)=-3,2076, log[std. err.(p)]=0.2645
e haveria 25% de chances de a paralaxe ser maior que 0,00114”
(0,00062*1,84) e 25% de chances de ser menor que 0,00034” (0,00062/1,84).
Claro que isso não poderia ser simplesmente expresso assim.
Antes de usar logs, seria preciso que a coleta dos dados fosse feita
calculando as incertezas nos logs das paralaxes, em vez das incertezas
nas próprias paralaxes, além disso a incerteza deveria
ser expressa como std. err. no log(p), em vez de log do std. err.(p).
Mas esse não é
o ponto chave. O detalhe mais interessante é que há
25% de chances da paralaxe ser maior que 0,00114” e isso é
muito maior do que a probabilidade de uma estrela escolhida fortuitamente
ter luminosidade maior que a de Mu Cephei. Em outras palavras, com
base na medida do Hipparcus, há 50% de chances de que a verdadeira
paralaxe de Mu Cephei seja maior que 0,00062” e 50% de chances
de que seja menor que 0,00062”. Mas, com base na distribuição
estatística das estrelas em função da luminosidade,
dentro da classe espectral observada, há 5% de chances de que
uma estrela escolhida fortuitamente numa população de
supergigante M2 tenha luminosidade igual à que Mu Cephei teria
se estivesse à distância correspondente a uma paralaxe
menor que 0,00062” e há 95% de chances de que uma estrela
tenha luminosidade igual a que Mu Cephei teria se estivesse à
distância correspondente a uma paralaxe maior que 0,00062”
(estou supondo que a luminosidade bolométrica média
das estrelas M2Ia é cerca de 10.000 vezes a do sol). Logo,
é cerca de 20 vezes mais provável que a paralaxe de
Mu Cephei seja maior que 0,00062” do que a probabilidade de
ser menor que 0,00062”, então é claro que 0,00062”
não é o valor que melhor representa a paralaxe “verdadeira”.
Para determinar com mais exatidão a paralaxe mais provável
_ isto é, aquela em que haja 50% de chances do valor verdadeiro
ser maior e 50% de chances de ser menor _, é necessário
encontrar a distância na qual a probabilidade da estrela ter
tal luminosidade acima ou abaixo da média seja igual à
probabilidade da paralaxe estar tantos desvios-padrão abaixo
ou acima da paralaxe medida.
No caso de Mu Cephei, para que a paralaxe fosse 0,00062”, ela
deveria estar a 5.260 anos-luz de nós e, se estivesse a essa
distância, ela teria luminosidade visual 55.000 vezes maior
que o Sol e luminosidade bolométrica 580.000 vezes maior que
a do Sol.
Se a paralaxe medida estivesse certa, Mu Cephei seria 58 vezes mais
luminosa que a média de sua classe e, portanto, 20 vezes mais
rara. Considerando isso, temos que a paralaxe mais provável
de ser correta é 0,00144”. Esse valor é 5,4 vezes
mais provável de ser correto do que 0,00062”. Então
a distância mais provável para Mu Cephei é 2.265
anos-luz, mais preciso e mais acurado que o valor oficialmente adotado
(5.260 anos-luz).
O método que proponho não se aplica apenas nos casos
das estrelas cujas incertezas nas paralaxes sejam tão grandes
quanto as próprias paralaxes, mas em todos os casos. Claro
que a principal vantagem é corrigir disparidades nos casos
em que há grande incerteza, mas o método também
ajuda a refinar todos os outros cálculos. Para Sírius,
por exemplo, cuja paralaxe é conhecida com boa precisão,
o Hipparcus dá p=0,37921" com std err.=0,00158".
Uma estrela do tipo A0/A1, como é o caso de Sírius A,
tem, em média, magnitude absoluta 0.85, mas Sirius A tem magnitude
1.45, portanto ela é 1,74 vezes menos luminosa que a média
de sua classe espectral e tem massa 1,15 vezes menor que média
de sua classe, logo ela tem vida 1,5 vezes maior que a média
de sua classe e podemos supor que seja 1,5 vezes mais abundante do
que a média da classe A0/A1, portanto, para que ela tivesse
abundância igual à média, deveria estar um pouco
mais distante. Então a paralaxe que tem maior probabilidade
de ser correta não é 0,37921”, mas cerca de 0,26sd
maior, ou seja: 0,37860" (1,2 vezes mais provável que
0,37921”).
Para os sistemas binários e múltiplos, o cálculo
de correção pode ser feito individualmente, para cada
componente, e depois usada a média ponderada como distância
mais provável.
A mesma idéia pode ser aplicada também em outros métodos
para determinar distâncias. Por exemplo: se um quasar apresenta
desvio para o vermelho muito pequeno e a incerteza nesse desvio é
grande, então pode-se situá-lo mais longe com base na
raridade de quasares pouco luminosos, usando o mesmo critério.
Para compreender melhor
o método proposto, veja esta página:
http://users.skynet.be/albert.frank/interpstat.htm