
|
|
|
|
Quando uma pessoa se submete a vários testes de inteligência e obtém escores tão diferentes quanto 150 e 120, pode haver confusão sobre como encontrar um escore global que represente a “média” de todos os resultados. Naturalmente a média aritmética, a média geométrica ou a média harmônica entre os escores não é uma representação fiável, especialmente quando os resultados diferem muito uns dos outros. Baseando-me nas idéias que discuto em “UM NOVO MODELO DE ESTRUTURA MENTAL“ e usando a representação de inteligência que apresento nesse mesmo texto, decidi propor um método rústico para determinar escores globais que correspondam satisfatoriamente ao total de resultados obtidos em testes diferentes. Algumas pessoas muito inteligentes estão somando e dividindo os escores individuais. Isso é feito inclusive por muitos psicometristas, embora seja um método incorreto (em minha opinião). Apenas dizer que é incorreto, sem propor algo mais elaborado, poderia ser um comentário qualificado de pejorativo. Por isso minha proposta é uma equação simples, que requer alguns aprimoramentos num futuro próximo, mas por enquanto deve cumprir a função de representar escores globais mais adequadamente que os métodos usados no momento. Em teoria, dois
instrumentos ideais para medir a inteligência deveriam produzir
resultados iguais, ou seja, o coeficiente de correlação
entre dois testes de inteligência deveria ser 1. Se os coeficientes
de correlação são menores que 1, alguns dos motivos
são: É muito importante saber dissociar a idéia de “correlação entre os testes” de “correlação entre os escores obtidos pelas pessoas testadas”. Um teste verbal e outro não-verbal podem apresentar correlação 0,2, embora a correlação entre os escores das pessoas testadas seja algo em torno de 0,7. Isso acontece porque uma pessoa que apresenta bom desenvolvimento do pensamento verbal tende a apresentar também bom desenvolvimento do pensamento não-verbal, não em proporções iguais, mas semelhantes. O resultado disso é que embora cada teste esteja avaliando capacidades bem distintas, as pessoas podem apresentar resultados muito mais semelhantes nos dois testes do que a real semelhança existente entre as faculdades cognitivas aferidas nesses testes. Na prática, é fácil calcular a correlação entre os escores obtidos pelas pessoas nos testes, mas é muito difícil calcular a correlação entre os testes propriamente ditos. Também é muito importante saber distinguir as grandes diferenças implícitas nos pequenos detalhes. Por exemplo: as habilidades de um goleiro e de um artilheiro podem diferir mais entre si do que as diferenças entre um goleiro e um advogado. As habilidades de um físico e de um matemático podem diferir mais entre si do que as diferenças entre um físico e um escritor. E não apenas as habilidades globais das pessoas consideradas individualmente, mas também as habilidades necessárias para uma pessoa arbitrária se enquadrar nos arquétipos de goleiro e artilheiro podem diferir mais entre si do que as habilidades necessárias para uma pessoa arbitrária se enquadrar nos arquétipos de goleiro ou advogado. É preciso ter certos cuidados ao fazer considerações sobre essas questões, para não incorrer em erro. Feitas essas considerações, podemos tratar da equação propriamente dita. Como calcular o escore
global de uma pessoa, considerando escores obtidos em vários
testes de QI ou QIE?
A equação que proponho está baseada nas seguintes hipóteses: 1 – As conjecturas apresentadas no artigo “Novo método para normação de testes” são corretas e o valor calculado para a constante “k” é bastante acurado. 2 – O escore global calculado a partir de escores individuais de vários testes diferentes, em que cada teste se destina a avaliar aspectos diferentes da inteligência, é sempre maior que qualquer dos escores individuais. 2.1 – A proposição #2 não é válida quando QIp é menor ou igual a 100. O “-1” introduzido no final da equação é uma atenuante que tem por finalidade corrigir distorções para QIp próximo de 100. 2.2 – Basta que o QIp seja maior ou igual a 100 para que a equação possa ser aplicada. Excetuando o QIp, os outros QIs podem ter qualquer valor entre ‘-infinito’ e ‘+infinito’. 3 – Para testes diferentes, cada um dos quais se destina a mensurar aspectos diferentes da inteligência, quanto maior for a correlação entre os testes, menor será a diferença entre o escore global e o escore médio desses testes. Como não conheço nenhum método para determinar o coeficiente de correlação entre os testes (não é a mesma coisa que o coeficiente de correlação entre os escores das pessoas submetidas aos testes e nem sequer apresentam valores semelhantes), não tive como adicionar um fator de ajuste que atenda a essa necessidade. Essa equação não serve apenas para determinar o escore global de pessoas, mas é muito útil também para determinar o teto de testes constituídos por vários sub-testes. Por exemplo: um teste constituído por dois sub-testes com teto 180 terá teto global 187. Um teste constituído por três sub-testes com tetos 196, 196, 196, terá teto global 207. Um teste constituído por quatro sub-testes com tetos 160, 150, 140 e 135, terá teto global 164. Alguns exemplos:
O mesmo sistema usado para calcular os escores globais de pessoas partindo dos escores individuais, pode ser usado para calcular os tetos de testes com base nos tetos dos sub-testes. Há muitas ressalvas importantes a fazer. Uma delas é que obter escores 180 em vários testes, como Titan, Mega e Ultra, não é o mesmo que obter desempenho equivalente a 180 em três atividades intelectuais diferentes, como Física, Literatura e Filosofia. Contudo as diferenças entre desempenho em testes e desempenho em atividades mais amplas não deve resultar significativo desde que os testes sejam suficientemente difíceis e diversificados dentro de seus respectivos contextos. Com base nessa equação, podemos formalizar a noção intuitiva de que uma pessoa com desempenho notável (percentil 99,9) numa determinada atividade intelectual e desempenho mediano (percentil 50) em outras atividades é mais inteligente do que uma pessoa com desempenho muito acima do mediano (percentil 98) em duas ou três atividades diferentes. No primeiro caso, a pessoa teria QI 150, enquanto no segundo caso teria cerca de 140. Porém, uma pessoa com desempenho no percentil 98 em meia dúzia de atividades diferentes (ex.: Matemática, Computação, Física, Química, Literatura e Psicologia) teria capacidade global semelhante à de uma pessoa com desempenho no percentil 99,9 numa única atividade (ex.: Matemática). Um outro exemplo: uma pessoa com desempenho no percentil 99 em três atividades intelectuais diferentes (Engenharia eletrônica, Engenharia Civil, Engenharia Elétrica) teria, em princípio, capacidade global semelhante a uma pessoa com desempenho no percentil 99 em três outras atividades intelectuais (Matemática, Literatura e Xadrez). Não dispomos de meios para mostrar que existe maior correlação entre três diferentes ramos da engenharia do que entre três outros ramos cognitivos quaisquer. No exemplo citado, eu acredito que se pudéssemos determinar os coeficientes de correlação, encontraríamos resultados semelhantes para os dois casos. Para compreender melhor de que maneira essa equação pode ser aplicada a resultados de testes de QI ou a performances e realizações intelectuais, vamos fazer algumas estimativas de QI (ou percentil correspondente) para personalidades conhecidas: Kasparov, Fischer, Lasker, Keres, Morphy, Einstein, Newton, Euler, Feynman, Wiles e Voltaire: Kasparov situa-se num nível de 202 (99,99999999, considerando a população mundial na época, o tempo em que permaneceu entre os primeiros do ranking e o destaque em comparação aos oponentes) em Xadrez de torneio a ritmo oficial (eleito segundo melhor jogador do século XX pelo júri do Sahovski Informator), 196 em Xadrez a ritmo blitz (5 minutos), cerca de 196 em Xadrez às cegas, cerca de 170 em Xadrez a ritmo postal, cerca de 160-170 em algumas outras atividades intelectuais (composição de problemas e estudos, por exemplo) e 135 e 123 em testes de QI supervisionados (Eysenck Test e RAPM, respectivamente). Tudo isso considerado em conjunto resulta num QIG em torno de 210. Fischer situa-se num nível de 200 (99,99999998) em Xadrez de torneio a ritmo oficial (eleito melhor jogador do século XX pelo júri do Sahovski Informator), 203 em Xadrez a ritmo blitz (5 minutos), cerca de 190 em Xadrez a ritmo postal, cerca de 160-170 em algumas outras atividades intelectuais e 187 em teste de QI supervisionado. Isso resulta num QIG em torno de 211. Lasker situa-se num nível de 198 (99,99999995) em Xadrez de torneio a ritmo oficial (campeão mundial durante 27 anos [a população mundial na época era cerca de 1,6 bilhões]), 198 em Xadrez a ritmo blitz (5 minutos), cerca de 180 em Xadrez a ritmo postal, cerca de 190 em Psicologia, cerca de 185 em Matemática, cerca de 185 em Filosofia, cerca de 160-170 em algumas outras atividades intelectuais (Literatura, estudos e composições). Isso resulta num QIG em torno de 210. Keres situa-se num nível de 196 (99,9999999) em Xadrez de torneio a ritmo oficial (um dos melhores do mundo durante várias décadas), 196 em Xadrez a ritmo blitz (5 minutos), cerca de 200 em Xadrez a ritmo postal (campeão mundial e um dos melhores todos os tempos), cerca de 160-180 em algumas outras atividades intelectuais (estudos e composições). Isso resulta num QIG em torno de 210. Morphy situa-se num nível de 202 (99,99999999) em Xadrez de torneio a ritmo oficial (maior talento natural da história da humanidade, na opinião de Fischer e de vários outros), 202 em Xadrez a ritmo blitz (5 minutos), cerca de 190 em Xadrez a ritmo postal, cerca de 160-180 em algumas outras atividades intelectuais (Leis, Filosofia). Isso resulta num QIG em torno de 211. Einstein situa-se num nível de 200 em Relatividade (desenvolveu os trabalhos de Lorentz), 200 em Efeito foto-elétrico, cerca de 180 em efeito Browniano, cerca de 170 em Matemática, cerca de 130 em Xadrez de torneio a ritmo oficial, 120 em Xadrez a ritmo blitz (5 minutos), cerca de 170 em Xadrez a ritmo postal, cerca de 150-180 em algumas outras atividades intelectuais (Filosofia). Isso resulta num QIG em torno de 209. Newton situa-se num nível de 200 em Gravitação (deu embasamento matemático às idéias de Robert Hooke), 195 em Cálculo (desenvolveu o Cálculo independente de Leibniz, com notação um pouco menos eficaz), cerca de 170-180 em dezenas de grandes e pequenos campos da Física e da Matemática, chegando a cerca de 190 em alguns. Isso resulta num QIG em torno de 210-215. Maior talento da história da humanidade, na oinião de Asimov e de vários outros. Euler situa-se num nível 170 em dezenas de pequenos campos da Matemática, chegando a nível 180 em alguns. Isso resulta num QIG em torno de 205-210. Feynman situa-se num nível 170 em uma dezena de pequenos campos da Física e da Matemática. Isso resulta num QIG em torno de 193. Wiles situa-se num nível 190 Teoria dos Números (ganhador da Medalha Fields por "encaixar a peça final" na demonstração do Último Teorema de Fermat) e cerca de 170 em uma dezena de pequenos outros campos da Matemática. Isso resulta num QIG em torno de 198. Voltaire situa-se num nível 190 em Literatura, 190 em Filosofia, 180 em Matemática, 180 em Física, 150 em Xadrez. Isso resulta num QIG em torno de 200. Aristóteles situa-se num nível 202 em Lógica, 195 em Filosofia (global exceto Lógica), 180 em Matemática, 180 em Física, 170 em Zoologia. Isso resulta num QIG em torno de 208. Mas essa representação
não seria adequada e os escores resultantes seriam pouco confiáveis.
Kasparov
teria 180 em pensamento profundo (Xadrez ao vivo + postal), 200 em pensamento
veloz (Xadrez ao vivo + Blitz), 195 em memória (Xadrez às
cegas + ao vivo + Blitz), 190 em pensamento original. QIG=207,5.
Newton teria 200 em pensamento profundo, 160 em pensamento veloz, 160 em memória, 200 em pensamento original. QIG=207,2. Um detalhe interessante surge ao comparar Einstein a Newton. Em realização, Newton talvez tenha se destacado, porém em capacidade inata provavelmente houve equilíbrio. O fato de Newton ter se dedicado com maior obstinação e por mais tempo explica o maior sucesso. Euler teria 190 em pensamento profundo, 180 em pensamento veloz, 195 em memória, 185 em pensamento original. QIG=203,0. Keres teria 200 em pensamento profundo, 195 em pensamento veloz, 190 em memória, 195 em pensamento original. QIG=209,5. Morphy teria 190 em pensamento profundo, 200 em pensamento veloz, 200 em memória, 195 em pensamento original. QIG=211,0. Sidis teria
195 em pensamento profundo, 200 em pensamento veloz, 200 em memória,
190 em pensamento original. QIG=211,0. |
|
|
O método eficaz para lidar com sub-testes de um determinado teste é a equação para determinar o QIG, que vimos acima. Ela funciona bem porque o coeficiente de correlação entre os sub-testes de um mesmo teste é próximo de 0, ou seja: um dos sub-testes se destina a medir o desempenho em questões de pensamento espacial, outro se destina a medir o desempenho em questões de analogias, outro se destina a medir o desempenho em questões de séries numéricas etc. Então basta somar os desempenhos isolados para obter o escore global, que sempre será maior que qualquer dos escores individuais e será representativo da capacidade global. Mas essa equação já não é tão boa para lidar com testes independentes, que se destinam a medir habilidades semelhantes, como por exemplo dois testes de “inteligência geral”: WAIS e Stanford-Binet. Em casos assim, como ambos os testes consideram habilidade numérica, habilidade verbal etc., o QIG estaria inflacionado porque somaria duas vezes cada habilidade. Portanto, para testes independentes seria necessária uma fórmula mais adequada, como esta apresentada a seguir. (Nota: no exemplo citado de WAIS e SB, antes de qualquer procedimento seria preciso converter os escores baseados em sd=15 do WAIS em correspondentes de sd=16). QIF = QI Final
(média ponderada entre dos escores do QIG)
|
|
|
Uma pessoa com 140 de QI é 2 vezes mais inteligente que outra pessoa com 70 de QI? Para compreender melhor a resposta a essa pergunta, antes é recomendável fazer uma pequena experiência. Em primeiro lugar, deve-se acender uma vela, deixar outras velas à mão e apagar todas as luzes, de modo que a única fonte de luz seja a vela que está acesa. Em seguida, deve-se acender mais uma vela. Nós sabemos que o fluxo luminoso aproximadamente dobrou, porque duas velas semelhantes emitem aproximadamente o dobro de energia (luz e calor) que uma vela. Porém, pela nossa percepção visual, temos a impressão de que a luminosidade global no recinto aumento apenas ligeiramente, em vez de ter dobrado. Isso acontece porque nossa visão interpreta as impressões luminosas de acordo com uma escala logarítmica, nos levando a algumas conclusões erradas. O mesmo acontece com nossa audição, por isso é que as escalas de intensidade sonora são medidas em decibéis (logarítmicas). Cientes disso, estamos prontos para responder a essa questão e não nos surpreendermos com a resposta. No jogo de Xadrez existe uma escala que permite determinar o nível desportivo dos enxadristas. Essa escala foi criada pelo físico Arphad Elo e começou a ser adotada pela FIDE em 1970. Em homenagem ao seu criador, esse sistema de pontuação ficou conhecido como “rating ELO”. É uma escala logarítmica e funciona relativamente bem. Existem problemas de inflação e deflação, resultantes de eventos excessivamente regionalistas ou elitistas, que conservam pequenos grupos jogando entre si por longos períodos, sem que os elementos desses grupos tenham contato com elementos de outros grupos. Embora não seja perfeita, precisamos reconhecer que essa é a melhor escala que existe para rankear atletas. O princípio fundamental em que se baseia o rating ELO é bem simples e consistente: Dados três jogadores _ A, B e C _, se o jogador A ganha de B numa proporção de 2 para 1, significa que A é 2 vezes melhor que B. Se B ganha de C numa proporção de 4 pra 1, significa que B é 4 vezes melhor do que C. Disso decorre que A é 8 vezes melhor que C (2 × 4 = 8), ou seja: se A jogar com C, A deve vencer numa proporção de 8 para 1. Deixando à parte questões de repertório de aberturas e estilo pessoal, essa assertiva é bastante correta e quando a amostragem do número de jogos é suficientemente grande, as previsões feitas com base na escala ELO funcionam admiravelmente bem. No Xadrez essa escala não serve para avaliar propriamente a aptidão natural, mas serve bem como indicador do desempenho esportivo e permite predizer, no início de um torneio, as pontuações finais de cada participante. Os bons resultados esportivos não dependem apenas da aptidão natural. Dependem de estudo, treinamento e outros fatores, que na maior parte das vezes pesam bem mais do que a aptidão inata. Em média, os jogadores mais habilidosos são também pessoas mais inteligentes, mas a totalidade dos grandes gênios da Ciência, da Literatura e da Filosofia não foram enxadristas notáveis, do mesmo modo que a maioria dos grandes campeões de Xadrez não foram cientistas brilhantes. Isso ocorre porque cada atividade requer dedicação exclusiva. Mas entre as pessoas que elegeram o Xadrez como profissão e se dedicaram exaustivamente ao desenvolvimento técnico, observa-se que o fator diferencial acaba sendo basicamente o talento natural. Claro que um jogador de Xadrez nascido no Brasil ou na Argentina e que tenha 2600 de rating é muito mais talentoso do que um jogador russo com os mesmos 2600, porque o latino-americano teve que enfrentar um número muito maior de condições adversas, que inibiram seu desenvolvimento. O mesmo se aplica a um jogador que tenha nascido numa família cujo padrão de vida lhe permitiu empreender viagens internacionais, adquirir material de boa qualidade, contar com o apoio e supervisão de bons mestres etc. Este deve obter resultados mais expressivos do que outros jogadores mais talentosos, que todavia não tiveram as mesmas oportunidades. Não obstante isso, a escala ELO do Xadrez tem considerável valor estatístico e, com base nos trabalhos de Bill McGaugh <http://www.pe.net/~bmcgaugh/eloiq.htm>, podemos inferir que a inteligência é graduada por escalas logarítmicas. A relação entre habilidade enxadrística (ELO) e QI é dada por: QI = (Elo-1282)/17.3+100 ELO = 1282+(QI-100)*17.3
E a relação entre a força comparativa de dois jogadores em função de seus ratings ELO é dada por: F1/F2 = 10^(DELO/400) Com isso sabemos que um jogador com 2500 de ELO tem cerca de 75% de chances de vencer um jogador com 2300, do mesmo modo que um jogador com 1500 tem 75% de chances de vencer um jogador com 1300. Como podemos ver, um mesmo intervalo de rating corresponde a uma mesma diferença de habilidade em qualquer ponto da escala, e esse mesmo princípio se aplica ao QI, ou seja: a proporção de habilidade entre um jogador de 1200 para outro de 1400 é a mesma que existe entre um jogador com 2200 e outro com 2400, assim como a proporção de inteligência entre uma pessoa com QI 80 e outra com QI 90 é equivalente a proporção entre uma pessoa com QI 140 e outra com 150. Isso nos permite deduzir o seguinte: A proporção entre a capacidade intelectual das pessoas é dada aproximadamente pela seguinte equação: P1/P2 = e^[(QI1-QI2)/k] [A constante k é 10,03
pela fórmula de McGaugh, ou 9,26 pelos dados do Apêndice
III] Onde P1 e P2 representam
os potenciais intelectuais das pessoas 1 e 2. Desse modo, sabemos que
uma pessoa com QI = 93 tem metade da capacidade de uma pessoa normal
(QI = 100), enquanto uma pessoa com 77 de QI tem apenas 10% da capacidade
normal, e isso começa a entrar no campo das patologias ligeiras.
Uma pessoa com 64 de QI tem 1% da capacidade normal e isso já
representa uma debilidade mental acentuada. Seguindo essa mesma linha
de raciocínio, podemos dizer que uma pessoa com 116 de QI é
5 vezes mais inteligente que uma pessoa normal e uma pessoa com 132
é 25 vezes mais inteligente que a média da população.
Isso já representa uma diferença bastante sensível.
[Extraído de "Um novo
modelo de estrutura mental" - Hindemburg Melão Jr.]
|
|
Os elementos da amostragem estão mais dispersos do que seria esperado numa população não-seleta. Isso acontece por dois motivos: 1 - Na extremidade inferior (esquerda) da curva, a cauda se prolonga porque há muitas crianças incluídas na lista de rating. O rating mais baixo da lista (45) provavelmente corresponde a uma criança de inteligência normal com cerca de 6 ou 7 anos, ou uma criança talentosa com 3 ou 4 anos, por isso é razoável atribuir um QI em escala adulta correspondente a 40 ou 50 para o rating mais baixo da lista. Na verdade, um rating muito abaixo de 1300 é difícil de encontrar equivalência em QI, porque se presume que para jogar Xadrez em nível competitivo é preciso um QI de pelo menos 110 complementado por alguns meses de estudo, mas vamos admitir que a distribuição é razoavelmente correta também para ratings abaixo de 1300 porque a curva é bastante simétrica, e essa simetria sugere que nos dois extremos estiveram atuando elementos semelhantes na determinação dos escores. 2 - Na extremidade superior (direita), a cauda encorpada se justifica pela existência de uma concentração natural de pessoas com maior aptidão para o Xadrez, ou seja, entre pessoas com QI 120 ou 130 há mais aficcionados per capita por Xadrez do que entre pessoas com QI 100 a 110, e a proporção de aficcionados (e também de profissionais) cresce com o aumento do QI médio do grupo considerado. Por esses motivos, é razoável supor um desvio-padrão 300 em vez de 450. Como chegar a esse sd=300? A idéia é simples: o teto do grupo (ELO 2789) deve ser equivalente a um QI em torno de 185 (com raridade de 1 em 18 milhões, ou seja, 1/16 da população dos EUA). Então podemos interpolar entre os extremos de ELO (45 e 2789) e de QI (40 e 185) e calcular o desvio-padrão do ELO como sendo cerca de 302,786... Devido à margem de erro do método, não há problema em arredondar o desvio-padrão para 300, mas não seria correto usar nessa distribuição o mesmo desvio-padrão 277 usado por Bill McGaugh, porque nesse caso encontramos média=1150, e se fôssemos usar sd=277 o teto ficaria inflacionado. Para que o teto se mantenha proporcional ao de McGaugh, o desvio-padrão precisa ser cerca de 300, pois os dados de McGaugh se baseiam numa média em torno de 1282. Também é importante lembrar que o rating dos EUA está cerca de 50 a 100 pontos inflado em comparação ao rating FIDE, e o rating CBX nas décadas de 1980 1990 era deflacionado cerca de 100 pontos em relação ao FIDE. Portanto, ao estabelecer correlação entre o ELO de diferentes países, podem surgir algumas disparidades e estas não podem ser corridas simplesmente somando 50 ou 100 pontos de rating, porque não são uniformes, de modo que 2750 nos EUA pode ser equivalente a 2740 na FIDE, enquanto 1200 nos EUA pode ser equivalente a 1000 na FIDE. Mas isso não é um problema grande, porque 100 pontos de rating equivalem a cerca de 5 pontos de QI, então os erros que poderiam resultar disso seriam pequenos. O rating também inflaciona ao longo do tempo, num processo semelhante ao efeito Flynn e numa proporção também semelhante. Por isso uma comparação entre rating e QI deveria levar em conta as datas em que foram tomados os ELOs e os QIs, bem como as federações e escalas consideradas. A tabela apresentada ao final desse apêndice é baseada em uma lista recente (creio que 1999) do rating dos EUA (USCF). A discussão sobre os motivos que produzem a inflação do rating e do QI são difíceis de identificar. No artigo sobre o efeito Flynn no trabalho da Dra. Cox, eu faço uma abordagem um pouco mais detalhada desse assunto, mas a questão está longe de ser esgotada. Outro comentário que convém fazer é que QI pode ser interpretado como uma performance obtida num exame que geralmente demora entre 20 minutos e 1 hora, e a pessoa testada precisa resolver entre 30 e 60 problemas. Por outro lado, o rating é obtido com base em pelo menos 10 partidas, cada partida com duração de 4 horas. Essas partidas têm cerca de 20 a 100 lances cada uma, e esses lances equivalem a problemas cuja variedade e a complexidade podem ser maiores que em qualquer teste de QI, portanto 10 partidas são equivalentes a 10 testes de inteligência, com média de 40 questões e cujo grau de dificuldade médio das questões dependerá da força de jogo de cada adversário, podendo atingir níveis muito altos. Se em 5 dentre 10 partidas a performance for ruim, é preciso compensar isso nas outras 5 partidas. Mas no QI, quando se obtém 5 escores ruins, esses escores simplesmente podem ser ignorados, porque para se filiar a uma sociedade de elevado QI, não lhe pedem todos os seus escores; pedem somente o seu melhor escore. Isso não significa que é mais fácil ou mais difícil obter um rating elevado ou um QI elevado. O que essas diferenças significam é que ELO e QI, embora tenham muitas semelhanças, são performances fundamentalmente distintas. Tanto o rating como o QI podem ser considerados testes de inteligência, tanto um como o outro envolvem conhecimento e aptidão natural, tanto um como o outro apresentam algumas falhas nas escalas usadas. Alguns apresentam certas vantagens, outros apresentam vantagens diferentes. Mas ambos prestam-se relativamente bem à finalidade de mensurar da capacidade cognitiva. Inclino-me a pensar que o Xadrez é melhor que a maioria dos testes de QI e QIE, e o rating reflete melhor a capacidade inata do que o QI. Seria estranho para mim fazer apologia ao Xadrez, porque algum dia pretendo criar ânimo e terminar o Power Test, ou fazer algum teste semelhante, e espero alcançar um escore melhor que meu rating ICCF e meu rating FIDE. Portanto eu deveria estar fazendo justamente o contrário, isto é, eu deveria estar dizendo que os testes de QI aos quais eu fui submetido e obtive escores mais altos são os melhores instrumentos para medir inteligência que existem, ou dizer que os testes que pretendo fazer no futuro são os melhores instrumentos. Mas o problema é que não é assim. Eu tenho consciência de que todos os testes que já fiz são muito precários e nem de longe podem ser comparados aos problemas que surgem ao longo de uma partida de Xadrez, problemas profundos, ricos em complexidade e originalidade, problemas que primam pela estética e pela engenhosidade. E mesmo os testes de QIE, como o Power Test, não se comparam, em dificuldade e profundidade, aos problemas que surgem no Xadrez. Somente as descobertas científicas de ponta ou as criações artísticas de alto nível é que se comparam às melhores composições, estudos e análises de Xadrez. Eu diria que a Ciência está um nível acima dos testes de QIE, e o Xadrez se encontra num patamar igual ou acima ao da Ciência, porque combina elementos gnosiológicos e estéticos. Os melhores testes de QIE normalmente usam problemas científicos elementares, ou problemas não muito complexos de lógica. Mas no Xadrez, a cada partida surgem vários problemas tão difíceis e tão ricos em conteúdo epistemológico que são insolúveis para os padrões humanos. Problemas para os quais é preciso dar uma resposta apenas “boa”, porque é humanamente impossível encontrar a resposta “ideal”. Por esses motivos é que eu me espanto quando algumas pessoas dizem que Kasparov não pode ser uma pessoa muito inteligente, alegam que ele só se destaca no Xadrez, e para sustentar essa opinião, usam como argumento o fato de Kasparov fazer declarações pouco consistentes sobre alguns assuntos e citam também alguns escores que ele obteve em testes de QI. Mas afirmar que Kasparov não é inteligente porque só se destaca numa atividade, equivale a renegar a genialidade de Einstein, Gauss, Euler, Mozart, Shakespeare e quase todos os grandes gênios. O problema principal está em não admitir que uma partida de Xadrez equivale a um teste de inteligência, que a criação de uma novidade teórica equivale à demonstração de um novo teorema, que a composição de um estudo artístico não equivale a uma escultura, que uma análise de Xadrez não equivale a um tratado científico. O problema é não admitir que o bom desempenho no Xadrez exige um conjunto amplo e diversificado de habilidades mentais, habilidades que podem ser aplicadas a um vasto leque de outras atividades científicas e culturais. Muitos profissionais das áreas de Humanas costumam dizer que os profissionais de Exatas só sabem fazer continhas. Tal afirmação revela duas coisas: 1 - eles não têm noção do que sejam as ciências exatas; 2 – por não conseguirem compreender ou por não terem interesse em conhecer o assunto, seguem o impulso natural (e mesquinho) de depreciar o trabalho alheio, como se isso pudesse de algum modo aumentar a importância dos trabalhos que fazem nas áreas de Humanas. Os profissionais das áreas de Exatas não são melhores, e fazem críticas igualmente mesquinhas e infundadas. Essa mesma disputa insana existe entre físicos e matemáticos, entre físicos teóricos e físicos experimentais, entre matemáticos puros e matemáticos aplicados. Uns tentam depreciar os trabalhos dos outros para mostrar que aquilo que eles fazem é mais importante ou está mais estreitamente relacionado à inteligência. Um preconceito semelhante leva algumas pessoas a dizer que jogar bem Xadrez só diz respeito a um tipo especializado de inteligência que só serve para jogar Xadrez, escrever bem só diz respeito a um tipo especializado de inteligência que só serve para escrever bem, demonstrar teoremas só diz respeito a um tipo especializado de inteligência que só serve para demonstrar teoremas, inventar geringonças só diz respeito a um tipo especializado de inteligência que só serve para inventar geringonças. E por quê estou usando a expressão “geringonça” em vez de um termo mais digno? Certamente por preconceito de minha parte, que não consigo me desvencilhar de minha tendência de preferir trabalhos abstratos a invenções empíricas. O fato é que uma pessoa só consegue apreciar corretamente o valor de um trabalho se tiver o mínimo de conhecimento sobre o assunto, e ainda assim ela corre o risco de ser injustamente sectária contra disciplinas muito diferentes daquelas nas quais trabalha. Para uma pessoa poder apreciar um trabalho literário de peso, um trabalho científico de peso e um trabalho enxadrístico de peso, é preciso reunir sensibilidade, conhecimento e aptidão natural nesses três campos. Por isso são raras as pessoas que reconhecem o justo valor de diferentes atividades intelectuais ou artísticas. Eu conheço pouco sobre Xadrez, menos ainda sobre ciência e menos ainda sobre arte, mas tenho a sorte de ter conseguido atenuar meu preconceito natural contra aquilo que está distante de meu umbigo, e assim sou capaz de admitir que algumas coisas possam ter valor intelectual mesmo não enxergando esse valor com clareza. Não se trata de um ato de fé, mas de confiar que em outras áreas existem pessoas que pensam e que são capazes de fazer críticas pertinentes sobre o que é bom e o que é mau. Se muitos dizem que Victor Hugo foi um bom poeta, e dizem que a capacidade de fazer boas poesias está de algum modo relacionada à inteligência, eu acredito que isso pode ter um fundo de verdade, embora eu não tenha olhos para apreciar boa poesia. Em vez de chamar Hugo de obtuso, eu reconheço que é uma limitação minha que me impede de enxergar beleza na poesia. Eu gostaria de escrever muito mais sobre o assunto, mas por questões de tempo, espaço e saúde, isso ficará para uma próxima oportunidade. Para finalizar, vou apenas comentar uma vantagem importante que vejo no ELO em comparação ao QI é a possibilidade de gerar escores absolutos, em vez de determinar os escores em função da situação estatística. Por exemplo, muitos pensam que as seis pessoas mais inteligentes do mundo precisam ter QI 196 ou acima, e que ninguém na história da humanidade pode ultrapassar 207. Essa é uma noção muito errada. Isso é tão absurdo como mudar o sistema métrico decimal para que os instrumentos de medida (réguas) se ajustassem de modo que a altura de Robert Wadlow (2,72m) seja cerca de 2,15m. Os testes precisam determinar o potencial intelectual numa escala absoluta, em vez de forçar os escores a se ajustarem numa curva degringolada, e mesmo que a curva não degringolasse, simplesmente não se pode distorcer medidas absolutas para ajustá-las a distribuições estatísticas. O campeão mundial de Xadrez não tem necessariamente ELO 2700, ele pode ter 2800, 2850, 2750 ou qualquer outra pontuação, dependendo do desempenho dele perante seus oponentes. Quanto mais ele se destacar, maior será seu ELO em relação aos de seus rivais. Isso representa uma grande vantagem em comparação aos escores de QI, que dizem pouco ou nada sobre os desempenhos comparativos. Creio que a única maneira correta de estabelecer escores de QI é seguindo o exemplo de ELO. A premissa fundamental é que para diferenças iguais nos escores correspondem diferenças iguais no potencial, ou seja, uma pessoa com 190 de QI tem desempenho melhor que outra com 180 na mesma proporção que uma pessoa com QI 120 tem desempenho melhor que outra com 110. Para que isso seja “verdadeiro”, é preciso reformular completamente as escalas vigentes, porque da maneira como são hoje, alguém com 190 tem mais vantagem sobre alguém com 180 do que alguém com 120 tem sobre alguém com 110. Duas etapas são necessárias para criar uma escala adequada: 1 – criar testes com teto adequado, com respostas únicas e objetivas. 2 – Aplicar esses testes a grande número de pessoas. A tendência futura é de que os testes usem escalas absolutas. Isso será imprescindível quando a inteligência puder ser determinada pelos aspectos fisiológicos do cérebro. ![]() |
|
|
|
|
|
|