Efeito Flynn no trabalho de Dra. Cox
Por Hindemburg Melão Jr.
    
Para saber o que é o efeito Flynn, clique aqui.
     
             O que sugere o efeito Flynn? Uma análise superficial mostra que, no intervalo entre 1916 e 1986, em diferentes países, o QI médio da população aumentou cerca de 3 pontos a cada 10 anos. Estatísticas feitas tomando por referência diferentes intervalos, diferentes populações, diferentes faixas etárias e usando diferentes testes, apresentaram resultados bastante variados, mas sempre indicam um efeito inflacionário a médio e a longo prazos. Os cálculos desse efeito são realizados principalmente com base nos escores obtidos pela população com QI entre 70 e 130, que representam mais de 95% das pessoas, e não existe nenhuma razão para supor, com base nesses dados, que o mesmo acontece com QIs muito fora do intervalo 70-130. Um estudo, para produzir resultados mais completos e confiáveis, precisaria levar em conta a influência relativa do efeito Flynn em diferentes faixas de QI. Vamos supor que para QIs entre 90 e 110 o referido efeito produza uma inflação de 4 pontos a cada 10 anos, e para QIs entre 120 e 130 a inflação seja de 2 pontos a cada 10 anos, diminuindo progressivamente à medida em que os QIs se distanciam da média. Desse modo, o efeito estaria quase completamente dissipado ao atingir a marca dos 150 ou 160 de QI, de modo que já não faria muito sentido usar esse efeito para “corrigir” QIs situados nos extremos superiores ou inferiores da escala. Mas não se dispõe de volume suficientemente grande de elementos estatísticos com QIs muito acima de 150, por isso é que a partir desse ponto não é possível avaliar com segurança como se comporta o efeito Flynn. Outro problema é que a função que descreve o efeito Flynn não pode ser aproximada para uma reta ao longo de toda sua extensão, como algumas pessoas têm feito. Para um pequeno intervalo de algumas décadas, uma reta até pode representar bem a provável curva desse efeito, mas para períodos mais longos, o cálculo perde completamente a validade. Da Vinci, por exemplo, com seu QI estimado em 180 nos testes de 1916 (avaliação de 1926), teria uns 320 num teste hipotético de sua época (século XV), enquanto os mais antigos, como Aristóteles, por exemplo, teriam mais de 900 de QI em testes feitos na Antiguidade. Por isso é que  geralmente quando se aplica o efeito Flynn, considera-se que, assim como acontece com a altura das pessoas, a longevidade e o tamanho dos pés, o QI só recentemente começou a sofrer essas alterações em proporções sensíveis, como conseqüência da melhora na qualidade média da alimentação, entre outros fatores (mais detalhes no artigo de Scientific American). 
             Para compreender o efeito Flynn, não basta fazer uma análise do quadro estatístico produzido por esse efeito. Além desse quadro, é necessário saber quais são suas causas. Embora não saibamos apontá-las com exatidão, muito provavelmente uma delas decorre da disseminação do conhecimento de questões típicas em testes de QI, que originariamente eram “quase inéditas” (leia-se: pouco conhecidas pela população), mas à medida em que os testes foram se tornando mais populares, e algumas questões “típicas” começaram a ser divulgadas por outros meios (livros, revistas, almanaques, jornais etc.), as pessoas foram assimilando esses conhecimentos sobre tais questões, e com isso foram se tornando mais preparadas para resolvê-las. Quase um século depois de Binet ter aplicado seus testes pioneiros, encontramos baterias inteiras de testes de QI disponíveis na Internet, ou que podem ser adquiridas em revistas, em CD-ROM etc. As informações sobre essas questões, portanto, deixaram de ser domínio exclusivo dos consultórios psicológicos e se tornaram, de certa forma, de domínio público. A conseqüência natural é que, mesmo não querendo, as pessoas tomam conhecimento sobre questões que estão presentes em testes de inteligência antes de serem submetidas a esses testes, e, obviamente, quando são efetivamente submetidas a um teste supervisionado, acabam atingindo escores mais elevados do que os atingidos por seus pais ou avós, não porque as novas gerações sejam necessariamente mais inteligentes (ao menos não na proporção sugerida pelo efeito Flynn), mas porque foram educadas num mundo em que algumas informações, outrora “secretas”, agora são ampla e livremente difundidas em todas as mídias. 
             Por esses motivos, as estimativas de QI feitas pela equipe liderada pela Dra. Cox não podem ser “corrigidas” pelo efeito Flynn. Se Dra. Cox fosse viva hoje e reunisse uma equipe igualmente competente para realizar o mesmo estudo, porém utilizando testes modernos, é muito provável que as estimativas seriam, em média, quase exatamente as mesmas de 1926, não havendo nenhum motivo para acreditar que seria visível qualquer traço do efeito Flynn. 
             Nossa conclusão, portanto, é de que o efeito Flynn pode e deve ser usado em muitos casos contemporâneos, como para corrigir os escores obtidos por um jovem que hoje tem 19 anos, QI 106 e foi submetido a testes criados em 1950 (inalterados desde então). Mas não faz sentido aplicar a mesma “correção” aos QIs acima de 130 estimados pela Dra. Cox, pelo simples motivo que tanto as questões dos testes de hoje como as dos de 1950 ou 1916 seriam “inéditas” para todos os nomes da lista de Cox, e qualquer efeito inflacionário presente nas faixas mais elevadas de QI não deveriam ser tão grandes como acontece na média. Não obstante, se algum estudo demonstrar que o efeito Flynn está presente nas pessoas com QI acima de 150 ou 160, produzindo a mesma inflação de 0,3 ponto a cada ano, então seria pertinente “corrigir” as estimativas preliminares feitas por Cox.
            Apêndice (7/7/2001): 

            Em 1932 foram aplicados testes de QI a 2230 crianças de 11 anos que estudavam em escolas de Aberdeen. Em 1997 constatou-se que a fração daquelas crianças que permaneciam vivas era significativamente maior entre as de QI mais elevado. Mais detalhes podem ser encontrados em <http://www.klicksaude.com.br/not2001/01abr05bmj-ilt-qi.shtml>. Isso sugere uma relação entre longevidade e QI, que obviamente indica um aumento progressivo da fração da população de QI elevado, e conseqüente elevação do QI médio da população, sendo uma das prováveis causas do efeito Flynn (possivelmente a única causa empiricamente comprovada). Em outras épocas, especialmente na Idade Média, o pensamento original era reprimido pelo dogmatismo religioso, e muitas pessoas inteligentes foram incineradas quando ainda eram jovens, o que certamente provocou um efeito contrário, levando à redução da expectativa de vida entre as pessoas mais inteligentes e também um decréscimo no QI médio da população. Nas guerras também se tem constatado que as pessoas de QI mais elevado morrem em maior quantidade, certamente por terem valores morais que as inibe no momento de tirar a vida de outro ser humano, enquanto as de QI mais reduzido preocupam-se em seguir ordens sem questionar. Isso ajuda a explicar porque o efeito Flynn só começou a se tornar notório nas últimas décadas (mas mesmo que esse efeito existisse antes do século XX, não poderia ser aferido porque não havia testes de QI). A curva que representa o QI em função da longevidade não é uma reta. As pessoas com QI 130 podem ser sensivelmente mais longevas do que as pessoas de QI 100, porém não há motivos para supor que as pessoas com QI 150 ou 180 sejam significativamente mais longevas do que as de QI 130, pelo simples fato de que a longevidade se relaciona ao QI não pelo QI propriamente, mas pelas conseqüências do QI, entre as quais podemos destacar o padrão de vida. As pessoas de QI 130 possuem, em média, renda mais elevada e alimentação mais saudável que as pessoas de QI 100. A condição social e os hábitos nutricionais são alguns dos verdadeiros responsáveis pelo incremento na longevidade (suponho). E como as pessoas com QI 150 ou 180 não apresentam vantagens significativas na qualidade de vida, em comparação às pessoas com QI 130, não temos motivos para acreditar que o efeito Flynn seja tão pronunciado nesses casos como acontece na média da população. Aliás, é possível até que a qualidade de vida de pessoas com QI em torno de 130 a 150 seja superior à das pessoas com QI acima de 160, porque a maior parte dos estadistas, empresários e outras pessoas pertencentes às castas mais abastadas apresentam QI entre 120 e 150, enquanto os intelectuais de ponta, como cientistas, filósofos, escritores e outros pensadores originais, com QI acima de 160, geralmente não possuem qualidade de vida muito acima da média. 
            Esse é mais um indício de que o efeito Flynn não afeta significativamente a fração da população com QI muito acima de 130 ou 140. Mas a intervalos mais longos, o efeito pode se fazer sentir mesmo entre os QIs mais altos, pelo seguinte motivo: a probabilidade de um casal ter filhos com QI elevado é aproximadamente proporcional a uma gaussiana cuja média situa-se entre o QI médio da população geral e a média do QI do casal. Desse modo, um casal em que o homem tenha QI 164 e a mulher 187 (Marilyn e seu esposo, por exemplo), o pico da gaussiana para os filhos ficará em torno de 138, enquanto o pico da gaussiana para os filhos de um casal de QI 100 seria 100. Vejamos outro exemplo: Um casal cujo QI médio seja 140, terá filhos cujas probabilidades dos QIs se distribuirá segundo uma gaussiana com média 120. Isso faz com que os filhos desse casal tenham 50 vezes mais chances de ter QI acima de 160 do que os filhos de casais com QI 100. Portanto, a longo prazo o efeito Flynn acabará afetando também os QIs mais altos. 
 

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