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Conversávamos ao telefone, a Juçana e eu, quando ela me falou sobre as palestras de que havia participado, ministradas por um monge budista. Ele dizia ser a morte a única certeza do ser humano. Ela comentou que Fernando Pessoa havia escrito algo semelhante. Eu não penso dessa maneira e expus a ela minha opinião. Creio que não podemos ter certezas sobre questões abstratas, do tipo: “Uma linha que une os vértices opostos de um quadrado desenhado sobre uma superfície plana euclidiana divide esse quadrado em dois triângulos de áreas iguais”. Essa assertiva é um caso extremamente simples e idealizado, incomparavelmente mais simples que a questão sobre vida e morte, mesmo assim não há como ter certeza se é correto, porque existe a possibilidade de toda a humanidade estar experimentando uma ilusão coletiva ou pode haver alguma sutileza que nos escapa a todos. Temos nossos axiomas e a partir deles podemos inferir nossas proposições, que nos levam a determinadas conclusões, e assim podemos construir teoremas que julgamos serem modelos de rigor lógico. Mas as lógicas paraconsistentes nos mostram que se pode chegar muito mais fundo na investigação de certas idéias. No futuro, creio, a tendência é de que sejamos cada vez mais hábeis na percepção de que cada pequeno detalhe da natureza e da mente consiste num emaranhado infinito de complexidade, que nunca pode ser compreendido por inteiro. Por outro lado, sempre podemos e devemos formular modelos mais ou menos adequados, que nos permitam representar o universo de acordo com as impressões que temos dos estímulos que recebemos. Isso nos permite crescer em entendimento e também permite que nos aproximemos de algo que supomos ser a Verdade. Talvez não seja uma Verdade Absoluta, mas se for pelo menos uma “verdade coletiva” e todo o bom-senso caminhe para essa verdade, e se essa verdade puder representar satisfatoriamente os fenômenos físicos e psíquicos observados, isso nos basta para que possamos manter uma civilização tecnologicamente equipada e em constante evolução, e também nos permite estabelecer determinados parâmetros éticos e morais, que asseguraram alguma justiça e viabilizam as diversas relações sociais e comunitárias. Esse assunto desencadeou uma conversa sobre vida e morte, sobre lendas de vampiros e imortalidade, e me fez recordar de um dos contos que escrevi em 1995. Foram mais de 20 contos escritos nessa época. Como meu HD foi formatado muitas vezes desde 1995, esses contos estavam guardados num disquete. Há algum tempo eu tive a triste surpresa de descobrir que os discos magnéticos possuem vida bastante efêmera, não chegando a 5 anos, e ao tentar resgatar esses contos, verifiquei que os dados também haviam se perdido. Mas felizmente eu tinha um backup em CD, feito em 1998, de sorte que pude recuperar todos os contos, especialmente este do qual me recordei durante a conversa e que transcrevo a seguir. Eu o revisei antes de enviar à Juçana, e comentei com ela que não me sentia muito satisfeito com o final do conto. Então ela propôs um arremate que me pareceu se encaixar muito bem. O texto apresentado a seguir está usando o final que ela propôs. Este conto é dedicado à uma mulher cuja versatilidade de seus talentos só é igualada pela nobreza de seu espírito e pela ternura de seu coração: Juçana Senssatto Davét Corrêa.
Numa noite de Natal, ao ver uma estrela cadente, Pedrinho pediu a Deus, ou a Papai Noel, ou a seu Anjo da Guarda, ou a quem quer que fosse que o estivesse ouvindo, que lhe desse um presente muito especial, um presente surpresa. Ele não tinha nenhuma preferência, apenas pediu qualquer coisa, e também não pediu a ninguém específico. Desse momento em diante, sua vida mudou para sempre... _ Pedrinho! Pedrinho! O que é que você está fazendo aí fora?! Está chovendo de novo? Venha para dentro!
Era Dona Ema, a mãe de Pedrinho, como sempre, preocupada com o filho.
Ela já havia tentado de tudo para curá-lo daquela doença
estranha, mas nenhum médico sabia como tratá-lo, nem médico,
nem psicólogo, nem curandeiro. Ninguém dava jeito naquilo;
a doença de Pedrinho era um mistério para a Ciência.
Seus pais já o tinham levado aos melhores especialistas em doenças
estranhas, mas ninguém conseguia entender o seu caso, pois os médicos
só sabiam lidar com “doenças estranhas amplamente conhecidas”.
Mas quando se viam diante de um caso único na história da
Medicina, eram incapazes de solucionar o problema.
_ Boa tarde, minha senhora _ Disse a Coruja. _ Boa tarde, Dona Coruja _ Respondeu Dona Ema. _ Em que posso ajudá-la? _ É que meu filho está com uma doença estranha, e nenhum médico sabe dizer como devemos tratá-lo. _ O que seu filho sente? _ Nada. _ Nada?! Então qual é o problema? _ O problema é que às vezes ele fica no quintal, lá de casa, olhando as formiguinhas, e, de repente, começa a chover? _ Sim, prossiga? _ A senhora acha isso normal? _ Olhar formiguinhas? _ Não. É óbvio que não. Perguntei se a senhora acha normal chover. _ Lógico que é normal. Em alguns dias chove, em outros não. Qual o mal nisso? _ Acho que não fui suficientemente clara. Quero dizer que ele chove. Meu filho chove, compreende. _ Seu filho chove? _ Isso mesmo. Às vezes ele também morre, depois chove; fica chovendo o dia todo, depois inventa de morrer de novo, e fica alternando entre chover e morrer. Ele molha tudo. O pior é quando ele resolve chover dentro de casa, ou então quando está dormindo, e, de repente, sem mais nem menos, começa a chover; ele molha o quarto inteiro: molha cobertor, cortinas, roupas... molha tudo! Outro dia mesmo, estávamos viajando de avião quando ele começou a chover, bem dentro do avião. Todos os passageiros ficaram apavorados; creio que eles nunca viram alguém chover antes. Depois ele morreu umas cinco ou seis vezes até o fim da viagem. Algumas pessoas levaram na brincadeira; a aeromoça, por exemplo, ficou assustada quando ele morreu pela primeira vez, mas a partir da segunda vez ela já foi se habituando. Quando ele morreu pela terceira vez ela até achou graça e começou a rir. Mas nem todos têm mente aberta para aceitar com naturalidade essas doenças estranhas. Teve uma velhinha que desmaiou quando o viu morrer pela segunda vez, e quando ele morreu pela terceira vez, aí a velhinha sofreu um ataque do coração. Quase ela morreu de susto, coitadinha. Sorte que a morte dele não é contagiosa, senão ela teria morrido também. _ Deixe-me ver se entendi bem: você diz que seu filho faz chover e morre. _ Faz chover não. Ele chove! _ Ele chove e morre? _ Exatamente. _ Mais depois que morre ele continua vivo? _ Sim, é claro.
_ E quando chove ele causa algum dano que a “chuva normal” _ chamemos assim
_, ele causa algum dano que a chuva normal não causaria?
_ E quando morre, ele causa algum mal a alguém? _ Como eu disse, ele quase matou uma velhinha de susto. _ Veja bem, ele não tem culpa se a velhinha não admitia certas diferenças em outras pessoas. Ele não tem culpa se ela acha que todo mundo só pode morrer uma vez. Certamente essa velhinha ficaria assustada se visse um ET, uma cobra voadora ou um pato falante. Ela não se assusta por culpa da cobra voadora ou do pato falante, mas por culpa de seu preconceito de que cobras jamais podem voar e patos não podem falar. Se ela tivesse opiniões mais flexíveis, simplesmente teria incorporado a nova informação. Se ela tivesse morrido de susto, a culpa não teria sido de seu filho, teria sido dela mesma. E tem mais. Isso que você chama de “doença”, pode não ser uma doença; pode ser apenas uma anomalia. E anomalias tanto podem ser boas como podem ser ruins. Imagine uma pessoa que nascesse com quatro braços. Digo braços perfeitamente saudáveis, não braçotes atrofiados. Agora lhe pergunto: isso seria bom ou ruim? _ Ruim, é claro. _ Por quê? _ Ora, porque todas as pessoas normais têm dois braços. _ Então imagine um mundo onde todas as pessoas nascessem com quatro braços. Se em tal mundo nascesse uma pessoa com dois braços, ela seria normal ou deficiente? Dona Ema ficou hesitante e não respondeu nada. A coruja prosseguiu:
_ Pois eu lhe digo: num mundo onde todos nascem com quatro braços,
se nascesse alguém com apenas dois, esse bímano seria deficiente.
O contrário sucederia a uma pessoa com dois braços que nascesse
num mundo onde as pessoas têm um braço só. Quanto mais
braços melhor, desde que sejam braços saudáveis e
desde que não prejudiquem o funcionamento harmonioso do organismo
como um todo. Ter um braço é pior do que ter dois e não
ter braços é pior do que ter um só. O mesmo se pode
dizer para outras quantidades. Posso lhe assegurar que quanto mais braços
uma pessoa tiver, melhor seria para ela. Com quatro braços, poderíamos
chupar um sorvete, ao mesmo tempo em que carregaríamos uma criança
no colo e abriríamos uma porta. Como temos apenas dois braços,
teríamos primeiro que chupar o sorvete, depois carregar a criança
no colo e, ao chegar à porta, teríamos que colocar a criança
no chão para abri-la. Enfim, dois braços a mais facilitariam
muito nossa vida e nos poupariam muito tempo e trabalho, além de
possibilitar algumas tarefas que são impossíveis com apenas
dois braços.
_ Acho que não. _ Pois agora imagine uma pessoa sem braços. Se ela ganhasse dois braços novinhos _ não duas próteses artificiais, digo dois braços verdadeiros _, você acha que ela ficaria satisfeita? _ Ela seria diferente das outras. _ Claro. Mas seria uma diferença ruim ou uma diferença boa? _ Agora entendo o que você quer dizer.Seria uma diferença boa.
_ Pois então. O que quero dizer é que vivemos sob certas
limitações, e não devemos nos prender a essas limitações.
O normal não é perfeito. O normal é apenas representativo
da média, isto é, da maioria. Existe a anomalia supranormal
e a subnormal. A supranormal é boa, é como ter quatro braços;
a subnormal é que ruim. O caso de seu filho não se trata
nem de uma coisa nem de outra. O caso dele é um pouco diferente,
pois a anomalia de seu filho não dá a ele uma habilidade
normal em maior grau de desenvolvimento que nas outras pessoas, mas dá
a ele um tipo diferente de habilidade, que não é propriamente
uma “habilidade”, mas uma “característica”. Ele não é
como alguém com quatro, seis ou dez braços. Ele é
como alguém que além dos braços tem também
um par de asas. Não se trata de uma habilidade normal excepcionalmente
desenvolvida, mas de uma característica verdadeiramente fora do
normal. Isso o torna especial. Quanto a isso ser bom ou ruim, depende de
como ele usa essa característica mais do que a natureza da característica
em si. É como uma faca, que tanto pode ser usada para cortar alimentos
e facilitar tarefas cotidianas, como pode ser usada para matar pessoas.
A faca não é boa nem ruim, tudo depende da maneira como ela
é utilizada. Jogar a faca no lixo simplesmente porque não
sabemos lidar com ela não é uma atitude inteligente. Se,
por inexperiência ou por descuido, nos cortamos uma ou duas vezes,
ao manuseá-la, não devemos atribuir a culpa à faca.
Devemos, isso sim, tentar dominar a faca, devemos aprender a lidar com
ela e utilizá-la para nosso proveito. Jogá-la fora é
dispensar um utensílio que poderia facilitar nossa vida em muitas
ocasiões. Assim como a faca, essas habilidades de seu filho não
representam nenhum perigo, desde que a senhora e ele aprendam a lidar com
isso. Privá-lo desse dom, como a senhora está querendo, é
como jogar a faca fora. Isso não faz sentido. Nas mãos de
um exímio pescador, os anzóis são muito úteis,
mas nas mãos de uma criança inexperiente eles são
perigosos; ela pode se machucar. Em vez de manter a criança longe
dos anzóis, por medo, é preferível ensiná-la
a lidar com eles, para que ela também se torne um exímio
pescador. Se a criança não tiver ninguém para ensiná-la,
cabe a ela mesma decidir entre permanecer ignorante no manuseio dos anzóis
ou arriscar-se a aprender por conta própria, às custas de
alguns possíveis pequenos ferimentos.
Depois de ouvir atentamente a tudo o que disse a sábia Coruja, Dona
Ema concluiu, com muita satisfação, que o fato de seu filho
morrer e chover não era uma doença, mas uma dádiva;
em primeiro lugar, porque assim Pedrinho nunca corria perigo, posto que
o pior que podia lhe acontecer é justamente morrer, e morrer pra
ele já era uma rotina, de modo que nesse ponto não havia
com que se preocupar. Quanto a chover, era só uma questão
de educá-lo, como se educa a uma criança para “segurar” o
xixi e não ficar molhando as calças o tempo todo.
Escrito
em 14/12/1995
Revisado
em 25/11/2001
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