Cordão umbilical espacial
por Hindemburg Melão Jr.
  
             A NASA parece estar trabalhando seriamente num projeto semelhante ao que é descrito num dos livros de ficção de Arthur Clarke, que consiste em construir um tubo ligando a Terra à Lua, ou a um asteróide ou a um satélite geoestacionário. Das três possibilidades, a ligação ao asteróide é a que me parece mais difícil, sendo a grande variação de distância o principal fator. No caso da Lua, a variação de distância é muito menor (355.000km a 407.000km), mas continua sendo um impedimento severo. Então suspeito que eles vão concentrar esforços na construção de um tubo unindo um satélite geoestacionário à superfície da Terra. Eles calculam que isso reduziria em centenas de vezes os custos para o transporte, permitindo colocar uma pessoa no espaço por menos de $500, e em poucas décadas ou séculos será mais barato ir à Lua do que ir à Disney.  
             Para driblar os problemas do atrito com a atmosfera, eles pretendem construir uma torre com 50km de altura. :-) Suponho que o formato adequado para isso seja uma pirâmide ou um cone. Supondo que seja uma pirâmide maciça, com base quadrangular e lado igual à altura, e que o material usado na construção seja aço 440C, seria necessário cerca de 300 trilhões de toneladas. Vamos supor uma torre vazada, como a Torre Eiffel, e feita com um material leve e resistente (fibra de carbono?). Talvez com isso se possa resolver a parte dos problemas relativa ao custo e à resistência, mas aí é que vem a dificuldade mais dura: construir o "cordão-umbilical" que liga a estrutura ao satélite. Sabemos, há séculos, que os corpos que orbitam planetas a uma distância menor que um determinado limite (limite de Roche) se fragmentam, originando os pedregulhos que formam os famosos anéis que enfeitam os planetas jovianos. Isso acontece porque o lado mais próximo do satélite fica sujeito a uma interação gravitacional sensivelmente mais intensa do que o lado mais distante (o conhecido efeito de maré), de modo que o lado mais próximo tende a girar mais rápido que o lado mais distante, e isso leva à fragmentação do corpo. Em menor escala, esse efeito é notado nos edifícios, cujas inclinações e alturas oscilam diariamente por influência gravitacional do Sol e da Lua. Estamos falando de "pequenos edifícios", com 100m a 400m de altura. O que devemos esperar de uma torre (pirâmide?) com 50.000m de altura? E de uma tripa com 36.000.000m de comprimento?  
             Eu acredito que esse e outros projetos serão possíveis num futuro muito distante, mas nas próximas décadas ou séculos, considero muito improvável. Acho muito mais fácil de ser bem sucedido o projeto de uma sonda espacial que poderá ser acelerada até 0,1c, que além de mais barata, parece-me exeqüível.  
             Talvez a torre possa ser construída em 100 anos, mas o tubo unindo a superfície a um satélite geoestacionário me parece muito além dos horizontes de nossa atual tecnologia. 
  
Recentemente propus esse assunto para discussão no grupo Intellectual Associates, constituído majoritariamente por membros de Prometheus Society, e foram sugeridas muitas idéias interessantes. Rostam Seddiq sugeriu discutir as conseqüências se a torre caísse. Stephen Coy propôs uma solução usando vários anteparos para escorar a queda, eu sugeri um dispositivo para quebrar o tubo na base se qualquer ponto mais alto se romper, assim o tubo ficaria em órbita em vez de cair. Também foram discutidos possíveis materiais a serem usados, e se seria imprescindível que a base estivesse no equador ou se isso seria apenas desejável. Depois de alguns dias seguidos tratando desse assunto, a idéia parece muito razoável, embora esteja longe de ser possível para nossa atual engenharia. Mas o projeto pode começar a ser elaborado desde já, e boa parte dos problemas já podem ser resolvidos (ao menos no papel).  
  
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