|
|
|
Lá estava eu, passeando por um lindo jardim, quando avistei uma
mulher de aspecto deslumbrante. Era alta, de corpo perfeitamente modelado,
com olhar calmo, tranqüilo e penetrante... Ela estava sentada, de
costas para um arco-íris que se formava no céu. Eu me aproximei...
e percebi que ela tinha um tabuleiro de Xadrez à sua frente.
Quando cheguei suficientemente perto, ao ponto de minha presença tornar-se notória, ela desviou o olhar do tabuleiro por um instante, num gesto suave e delicado. Olhou em meus olhos por alguns segundos e sorriu para mim, ao mesmo tempo em que fazia uma inclinação com a cabeça, como intentando cumprimentar-me. Retribui ao gesto, inclinando-me cortesmente, tomando e beijando delicadamente o dorso de sua mão. Também não pude deixar de elogiar sua beleza. Com isso, consegui dela mais um sorriso, dessa vez ainda mais encantador. Ela me agradeceu pela lisonja e me perguntou se eu jogava Xadrez. Eu respondi que sim. Então ela me convidou para jogar uma partida. Agradeci e aceitei o convite. Pela abertura, já percebi que ela jogava bem... A meu ver, a partida estava equilibrada até que, no lance 22, ela deu início a uma combinação extraordinária! As complicações eram incalculáveis, de modo que só me dei conta do que estava se passando quando chegamos ao lance 36. A essa altura, estávamos na posição do diagrama abaixo. ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]()
Eu tinha as Pretas. Enquanto ela pensava no que jogar, eu já tinha
encontrado 2 maneiras diferentes para ela ganhar... J
Tanto jogando Ta8 como Bf3, ela venceria sem dificuldades. Mas, no fundo,
eu ainda alimentava alguma esperança de que ela errasse, porque
o Rei dela estava muito exposto, numa situação em que um
pequeno erro pode ter graves conseqüências.
![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]()
Ela prosseguiu avançando o PBR a ‘f4’, que considerei um típico
lance de desespero e comi o Peão com o Bispo. Pensei com meus botões:
“Ela desperdiçou sua última oportunidade de empatar... agora
as peças dela estão acabando... em pouco tempo ela terá
que se render...”
![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() ![]() Ela me entregou todas as peças, numa combinação de 9 lances, conservando somente um humilde Peãozinho, com o qual fulminou meu Rei... Este se encontrava rodeado por peças ‘amigas’, que nada faziam para protegê-lo e ainda entupiam seus caminhos de fuga! Estendi a mão, para cumprimentá-la, e lhe perguntei: _ Qual é o seu nome? _ E antes que ela me desse a resposta, acrescentei: _ Você joga muito bem! Essa foi a combinação mais bonita que eu já vi! _ Obrigada. _ disse ela em tom suave e sereno. E complementou: _ Meu nome é Caissa. Era a deusa Caissa, ‘em carne e osso’, a musa inspiradora do Xadrez, a responsável por todas as idéias, todas as combinações, todos os planos... por tudo que acontece de genial e de inusitado no Xadrez... Embora eu tivesse sido derrotado de maneira tão contundente e devastadora, sentia-me feliz por dois motivos: a partida tinha sido muito bonita e eu tive a oportunidade de conhecer a inspiradora de todos os mestres. Pedi a ela um revanche, ao que ela recusou gentilmente, com um doce sorriso... A essa altura, chegou um homem atarracado, com olhar seco e duro, movendo-se desengonçadamente... Aproximou-se de nós e perguntou: _ Por que perdem tempo com esse jogo estúpido? Não têm nada mais importante para fazer?
Tive ímpetos de pular sobre ele e esmurrá-lo! Mas me controlei
e me limitei a olhar para ele com desprezo... Ela, por sua vez, deu-se
o trabalho de responder:
Ouvindo isso, sem ter como responder à altura, ele limitou-se a
sair, com seu jeito rude, caminhando pesadamente... Todo desajeitado...
|
| Nota: a posição do primeiro diagrama representa um problema composto por Conrad Bayer, que obteve o primeiro prêmio “Era”, em 1856. |