Sobre as touradas
Por Carlos Paula Simões
com anexo de Hindemburg Melão Jr.
 
   
         "Abençoando-os, Deus disse-lhes: «Crescei e multiplicava-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra" 

         Livro do Génesis, capítulo 2, versículo 28 

         Com estas palavras se "autorizou" para sempre a supremacia do homem sobre o animal e todas as "utilizações" deste pelo homem. Afinal e como diz Carlos Cruz, dirigente da Delegação do Alentejo da Liga para a Protecção da Natureza, na edição do Diário de Notícias de 31 de Agosto de 1999 e passo a citar, "os animais têm funções e não direitos ou deveres, como os protectores dos animais preconizam".  

         Ao pôr-se a questão de que existem problemas mais graves que as touradas, esquece-se que os problemas mais graves são causados precisamente pelo mesmo espírito de total insensibilidade e desrespeito para com os outros seres vivos, incluindo o nosso semelhante e para com a Natureza. 

         No caso das touradas actuais, não se trata, como alguns místicos pretendem, da preservação estilizada de rituais religiosos de que podemos encontrar exemplos na civilização Cretense ou no culto de Mitra. A tourada é, neste instante, uma feira de vaidade, uma exaltação de valores completamente ultrapassados, uma demonstração de força viril ao bom velho estilo ibérico. O toureiro, o matador, o forcado, são "verdadeiros homens"... A calça justa realçando os órgãos sexuais, a imagem do macho latino, a virilidade atestada por inúmeras histórias de filhos-de-uma-noite, as corridas com assistências exclusivamente femininas... que valores são estes ? O que poderá justificar este tipo de sentimentos e mais, como podem eles existir hoje ? Tradição ? mas que tradição ? a do Circo Romano ? dos combates até à morte de gladiadores ? do lançar às feras os criminosos ? Não vale a pena argumentar, a tradição em que se alicerçam os defensores das touradas é a mesma tradição que aceita os combates até à morte de cães, de galos, das corridas de galgos em que a lebre é despedaçada viva e alguns dos cães morrem no final da corrida devido ao esforço, do tiro aos pombos a quem foram previamente arrancadas penas da cauda afim de lhes dificultar o voo... e poderá ser um dia a tradição em que se baseará a emissão televisiva de combates de morte entre homens. 

         Não esqueçamos o factor social: A tourada é um espectáculo dos estratos sócio-económicos mais altos. O cavaleiro tauromáquico é o expoente dessa pseudo-aristocracia e a tourada substituiu os torneios de cavalaria. Assiste-se a uma tourada como se estivesse numa cocktail-party, onde fica bem ser visto. Assumem-se as posturas, gíria, trajes e trejeitos dos aficcionados para se conseguir a aceitação junto dos lavradores, ganadeiros e outros membros de "famílias-bem". Fica bem, socialmente, ir à tourada, às corridas de galgos, à caça... Se se vive numa sociedade cada vez mais hedonista, onde se dá cada vez mais importância à imagem e posição social (ou mais correctamente, à insinuação desta...), cada vez mais sujeita ao poder das influências e amizades bem-colocadas, então é impossível erradicar estes sentimentos fúteis das novas gerações. E os turistas que nos visitam e vão assistir às touradas leram demasiados livros desse grande machista que era Hemingway... 

         Surgem ainda aqueles, que em nome da renúncia ao "politicamente correcto" (esta renúncia não é mais que uma tentativa de ser diferente dos outros, de mostrar que se é suficientemente forte para não ser arrastado pelo "rebanho") defendem a continuação e preservação destas tradições. Reparemos no que diz Miguel Sousa Tavares na edição de 3 de Setembro de 1999 do jornal Público: "O que eu defendo em Barrancos é a sobrevivência de uma cultura própria e enraizada localmente e que tenta resistir em face de investidas do pensamento "moderno", "jovem" e "civilizado", de uma elite urbana e arrogantemente convencida da sua suposta superioridade civilizacional". Pois é caro Miguel, uma cultura própria e enraizada localmente é, por exemplo, a que leva a cabo a remoção do clitóris às mulheres, o amputar das mão aos ladrões, o apedrejamento das adúlteras, a que considera que uma criança de 10 anos está apta para iniciar a "vida sexual"... Qual será a opinião do caro Miguel acerca da escravidão ou da pena de morte ? Não vai cometer a insensatez de ser contra a pena de morte no caso dos seres humanos (que supostamente terão cometido algum crime contra o seu semelhante) e apoiar a pena de morte para um animal (que se limitou a viver) e que servirá não para erradicar um suposto mal, mas para entretenimento de uma multidão ávida de "sensações fortes". O caro Miguel parece ter esquecido a etimologia da palavra "política"... 

         O homem civilizado e empenhado revolta-se contra a ditadura, a tortura, a pena de morte, o racismo, o fundamentalismo religioso, as experiências nucleares. Como conseguirá ficar insensível a uma tourada, caro Miguel ? Como conseguirá ficar insensível às imagens do abate de focas-bebés ? Você consegue ? 

         E se a morte de animais é nalguns casos inevitável (caso da alimentação humana, do controlo de espécies infestantes, do controlo de populações em áreas em que não existe um mecanismo natural de equilíbrio), devemos ter presente que essa inevitabilidade se deve ao mau uso que temos feito dos recursos naturais e a desvios por nós provocados. Mas isso não significa que se possam esquecer esses casos. O controlo das condições em que essas mortes se verificam deve fazer parte das nossas preocupações e reivindicações. 

         O problema da erradicação da tourada da nossa cultura não passa somente pela contestação ao evento em si; Passa também pela criação de um estado de espírito de repulsa pelos sentimentos que permitem que esses eventos continuem a ter lugar. Passa por uma educação em que a violência e a agressão sejam veementemente condenadas. Passa por uma educação em que a Natureza seja vista com olhos de admiração e não de menosprezo, em que o dado adquirido passe a ser uma dádiva preciosa. Passa por uma educação em que o respeito pelos mais fracos, pelos que são diferentes, seja exaltado e encorajado. Passa por aprender a respeitar a Vida em todas as suas manifestações. 

         Passa por cairmos do pedestal para onde trepamos, e bem junto ao chão, olharmos com admiração, respeito e carinho para todos os animais que se movem na terra, todas as aves dos céus e todos os peixes do mar. E termos a consciência da imagem de Deus que somos e da responsabilidade que isso implica.

   
         Pouco depois de ter publicado o texto abaixo, recebi o texto acima do amigo Carlos Simões, e concluí que o mais justo seria colocar o dele como principal, porque trata do tema com mais profundide, maior riqueza de detalhes e menor dispersão. E mantive meu texto apenas como anexo.
 
         Muitos podem se perguntar: “Porque devemos nos preocupar tanto com as touradas, se temos tantos problemas mais graves e que nos afetam diretamente?” A resposta é bem simples: Por detrás das touradas existe uma série de sentimentos macabros, que são excitados durante os tauricídios. O toureiro e os espectadores, com suas mentes cheias desses sentimentos cruéis, aprazem-se com o sofrimento. O problema maior não está no fato do sofrimento ser causado a um animal, a um vegetal ou a um humano. O cerne da questão é que os sentimentos incitados nos corações dos humanos que assistem a essas barbáries são tremendamente impiedosos, e se tais sentimentos são alimentados _ quer por esporte, quer pela arte, quer por desajuste mental e emocional _, o fato é que tais sentimentos vão gradualmente se incorporando e se cristalizando, vão se tornando parte das pessoas que apreciam esses espetáculos, e essas pessoas tendem a exteriorizar tais sentimentos em diferentes oportunidades, causando dor e sofrimento não apenas a outros animais, mas também a todos aqueles que lhe sejam subalternos: filhos, funcionários, criados etc.  
         Todos somos selvagens e precisamos nos empenhar para conter nossos instintos ruins, ao mesmo tempo em que devemos cultivar nossos sentimentos mais sublimes. Se nos deixarmos agir por nossos instintos, não seremos muito diferentes de outras feras. A repressão de nossos instintos selvagens não causa nenhuma deformação em nossa personalidade. Muito pelo contrário. A contenção de nossa ferocidade é que nos permite viver em relativa paz, mesmo numa sociedade altamente competitiva e hierarquizada. 
         Para os homens cavardes, obtusos e vulgares é muito fácil “respeitar” (ou temer) o presidente da república ou um general, mas é muito difícil respeitar o indigente que dorme nas calçadas ou o cachorro faminto que vaga pelas ruas. O homem de espírito é capaz de respeitar tanto uns como os outros. O homem vulgar trata o indigente com desprezo, enquanto o homem de espírito nobre é solidário e sempre que se depara com alguém (homem ou animal) que sofre, compartilha da sua dor. 
         Há um provérbio que diz: “O teste da coragem vem quando estamos em minoria; o da tolerância vem quando estamos em maioria.” No caso de um touro solitário, que enfrenta um homem armado e altamente especializado em matar, assessorado por outros homens especializados em matar, temos um exemplo claro de covardia. Se, em vez disso, um homem sozinho e de mãos nuas enfrentasse um touro, como fazia Mílon, na antiga Grécia, ou como fazia Massutatsu Oyama, nos tempos modernos, ainda assim teríamos um mero exemplo de corajosa estupidez, porque tal confronto é absolutamente desnecessário e só pode ter como finalidade a exaltação da força bruta, como se essa capacidade de matar fosse uma virtude da qual devêssemos nos vangloriar. 
         O mesmo sentimento que leva os homens a se regozijarem com esses rituais sangrentos é que os leva a se matarem uns aos outros nas brigas de torcidas de futebol, nas guerras, nas brigas de quadrilhas e gangues e em tantas outras situações animalescas. Portanto, mesmo que as touradas não representassem um mal por si mesmas, elas deveriam ser abolidas pelo fato de estimularem os sentimentos mais sombrios, mas baixos e mais atrasados que habitam nossas mentes e nossos corações. Sentimentos que deveríamos nos empenhar para coibir, em vez de encorajá-los a aflorar. 
         Quando uma pessoa maltrata um animal, ciente de que ele não está protegido pelos mesmos direitos que os homens, ciente de que ele mal pode reagir às agressões, ciente de que ele tem sentimentos tão intensos como os nossos e, sobretudo, ciente de que tal agressão é absolutamente desnecessária, se mesmo assim ela o maltrata, significa que ela também é capaz de maltratar uma criança, um idoso, um paraplégico ou um cego. O espírito de compaixão não pode ser sectário. Uma pessoa que não respeita um animal, pelo fato dele ser “diferente”, não respeitará qualquer outro ser que lhe seja diferente. 
         Para finalizar, tomo emprestado alguns trechos do site contra touradas: 

"A compaixão pelos animais está intimamente ligada com bondade de caráter e pode ser constatado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem." Arthur Schopenhauer 

"O pressuposto de que os animais não têm direitos e a ilusão de que o nosso tratamento para com eles não está sujeito a qualquer moral é certamente um escandaloso exemplo de ocidental brutalidade e barbaridade. Compaixão Universal é a única garantia de moralidade." Arthur Schopenhauer 

"Enquanto os homens massacrarem os animais, vão se matar uns aos outros. Na verdade, ele (homem) que espalha a semente da morte e da dor não pode colher amor e alegria." Pitágoras 

"Até nós termos a coragem de reconhecer a crueldade tal qual ela é (quer a vítima seja animal ou humana) não podemos esperar muito mais deste mundo... Nós não podemos ter paz entre os homens cujos corações se deliciam ao matar qualquer ser vivo. Para cada ato que glorifica ou tolera esse idiota prazer em matar, nós travamos o progresso da humanidade." Rachel Carson 

"A não-violência leva ao mais elevado padrão ético, que é o objetivo de toda a evolução. Até nós pararmos de magoar todos os outros seres vivos, continuamos selvagens." Thomas Edison 
  
         Tratar desse assunto é, de certa forma, uma tortura à minha consciência, porque eu me sinto extremamente fraco e desleal por não se capaz de me opor à matança de animais, mesmo sabendo que eles possuem sistemas neurológicos suficientemente desenvolvidos para que sintam dor com a mesma intensidade que nós, e por saber que somos naturalmente herbívoros, o que se pode constatar pelos nossos dentes achatados _ destinados à trituração de verduras, raízes e frutas, em vez de serem pontiagudos, que serviriam para dilacerar carne _, por nosso trato intestinal _ muito mais longo que o de carnívoros, no qual a carne digerida leva mais tempo para percorrer e começa a se deteriorar antes de ser expelida _ e por toda a nossa anatomia. 
         Eu me sinto culpado por não conseguir abrir mão de minha dieta que inclui grandes quantidades de carne. Tentei me tornar vegetariano, mas não consegui. Não gosto de feijões, lentilhas e similares. Os únicos alimentos ricos em proteína que eu aprecio são as carnes. Tenho amigos vegetarianos que se sentem muito bem e são provavelmente tão ou mais saudáveis do que eu. Contudo, eu realmente não consigo. Defendo a dieta exclusivamente vegetariana, mas não sou capaz de segui-la. 
         Um movimento contra a matança de animais não pode ser completo e franco, quando liderado por alguém incapaz de eliminar a carne de sua alimentação. Por esse motivo, minha abordagem da questão é um tanto superficial, buscando apenas apontar a repercussão que a matança animal pode ter na vida dos homens, sem considerar o mal em si mesmo. 
         De qualquer modo, sinto-me duplamente aliviado por ter redigido algumas linhas a respeito, pois não me omiti diante do problema e consegui escrever com sinceridade, sem me esconder por trás de minhas fraquezas. 
   

Mais informações em http://www.geocities.com/RainForest/Andes/1084/
Voltar à página principal
sigma.2000@sti.com.br