Mulheres & Xadrez
  
           Recentemente foi levantada uma interessante polêmica a respeito da aptidão das mulheres para o Xadrez, porque alguns dirigentes de federações pretendem extinguir os torneios femininos, sob a alegação de que as mulheres possuem a mesma habilidade que os homens para esse esporte.  
           Não tenho a pretensão de esgotar o assunto com essa pequena crônica, mas tão somente apresentar minha opinião.  
           Esse texto discute exclusivamente a acuidade mental das mulheres, sem ter em conta fatores culturais, emocionais ou educacionais, pois acredito que o cerne da questão consiste justamente em decidir se as mulheres apresentam ou não uma aptidão natural para o Xadrez que seja equivalente à dos homens.  
           Embora seja um assunto que me atrai, confesso que não me sinto totalmente à vontade ao redigir um texto dessa natureza, pois considero uma questão delicada e tenho receio de que minhas palavras possam gerar interpretações equivocadas.  
           Minha posição a esse respeito é bem definida, e tenho fortes motivos para manter essa postura: considero opressora a medida de abolir os torneios femininos, mas creio que uma defesa baseada nisso seria demasiado frágil para ser aceita pelos que defendem a opinião contrária. Portanto, alicerçar-nos-emos em evidências científicas, que não podem ser contestadas a não ser por outros argumentos de igual peso e teor.  
           Antes de dar início à crônica propriamente dita, com o intuito de reforçar minha posição solidária às enxadristas e deixar claro que não tenho nenhuma intenção de desmerecê-las intelectualmente, desejo expressar meu sincero respeito e minha profunda admiração pelas notáveis conquistas de algumas mulheres, dentro e fora do Xadrez. Mulheres como Madre Teresa de Calcutá, Marilyn Mach vos Savant, Marie Sklodowska Curie, Hipácia, as irmãs Polgar, Vera Menchik e Amandine Aurore Lucie Dupin (George Sand), isso para citar apenas alguns nomes...
   
           Em primeiro lugar, é importante esclarecer alguns fatos empiricamente comprovados, que julgamos importantes para a compreensão das idéias desenvolvidas nesse texto:    
    1.0 - O desempenho no Xadrez é aproximadamente proporcional à capacidade intelectual (veja: http://www.ex.ac.uk/~dregis/DR/ChessRefs/chess36.txt);  
       
    2.0 - O desvio padrão verificado na distribuição dos QIs das mulheres é um pouco menor que na dos QIs dos homens (veja: http://www.eskimo.com/~miyaguch/grady/realworld.html);   
       
    3.0 - Entre as pessoas que jogam Xadrez, o número de mulheres é muito menor que o de homens;  
       
    4.0 - Entre os primeiros colocados do ranking mundial de Xadrez, o número de mulheres é muito menor do que o de homens. 
           Os itens 3 e 4 se contrapõem e é possível que aproximadamente se anulem. Vamos nos abster de considerar em detalhes esses fatores, e nos concentrar nos dois primeiros.  
           De 1.0 decorre que, nos casos de enxadristas que tenham recebido as mesmas oportunidades para se desenvolver (mesma motivação para estudar, mesmo volume de informação etc.) e tenham apresentado a mesma disposição para o estudo, nesses casos o fator que indica o enxadrista com melhores perspectivas de êxito é sua capacidade intelectual inata.   
           Para os casos em que as condições de aprendizado tenham sido favoráveis a um dos jogadores, isso geralmente pesará mais que a aptidão natural de cada um. Como exemplo, basta comparar os enxadristas russos com os de outros países. Os russos não são necessariamente mais talentosos, mas apresentam melhor desempenho porque receberam uma formação muito mais laboriosa, nasceram num país em que existe uma longa tradição enxadrística, e até mesmo as condições climáticas são favoráveis à prática do Xadrez.   
           Não há grandes novidades em 1.0, visto que nenhum enxadrista terá grandes oposições à idéia de que o Xadrez é uma atividade intimamente ligada ao intelecto, e ninguém contestará seriamente o fato de que grandes enxadristas são necessariamente pessoas muito inteligentes, mas a recíproca não é verdadeira e seria redundante citar exemplos sobre isso, mas vejamos apenas um caso: o notável escritor Edgard Allan Poe. Ele simplesmente não gostava de Xadrez, talvez pelo fato de que o melhor jogador do mundo em seu tempo era Howard Staunton, cujo estilo não seguia a tendência romântica da época, o que afastava o Xadrez dos padrões estéticos das outras artes.   
           Antes de prosseguir, convém deixar claro que 1.0 é válido para grandes grupos de pessoas _ sejam homens ou mulheres _, mas pode não ser válido para casos individuais ou para pequenos grupos, pois o número de elementos que constituem o universo amostral precisa ser suficientemente numeroso para que haja confiabilidade.  
    
           De 2.0 decorre que as mulheres apresentam o mesmo desempenho que os homens quando ambos situam-se na faixa intelectual da média: QI = 100 ou rating = 1282 (veja: http://www.pe.net/~bmcgaugh/eloiq.htm). À medida em que se afastam dessa média (para mais ou para menos), a tendência é de que a capacidade dos homens varie mais acentuadamente. Para entendermos melhor, suponhamos um grupo com 1000 homens e 1000 mulheres, todos escolhidos ao acaso, e vamos admitir que essas pessoas sejam totalmente leigas em tudo. Agora suponhamos que a essas 2000 pessoas sejam ensinados os fundamentos básicos sobre Xadrez, Matemática etc. Se depois de algum tempo forem comparados os desempenhos dos 30 homens mais talentosos com os das 30 mulheres mais talentosas, espera-se (com base em 2.0) que os homens se sobressaiam. Por outro lado, se forem comparados os desempenhos dos 30 homens mais obtusos com os das 30 mulheres mais obtusas, então as mulheres terão melhor desempenho. Se forem comparados os 100 homens e as 100 mulheres situados nas médias de seus grupos sexuais, então deve-se esperar por um desempenho aproximadamente igual entre homens e mulheres. Isso não acontece apenas nas atividades intelectuais. Podemos citar como exemplo o Ballet: em média, as mulheres apresentam muito mais aptidão para o Ballet do que os homens, mas devido a 2.0 os grandes bailarinos são tão bons ou até melhores do que as grandes bailarinas. Outra decorrência direta de 2.0 é que entre pessoas com deficiências mentais graves há menos mulheres do que homens.  
           Portanto, sob o ponto de vista estritamente cognitivo, as mulheres mais talentosas não apresentam a mesma predisposição que os homens mais talentosos, qualquer que seja a atividade intelectual (subentenda-se "raciocínio convergente") adotada como referência.   
           Além disso, estão presentes muitos fatores relacionados à educação que as mulheres recebem, não sendo motivadas para "competir" com homens ou com outras mulheres, mas para "proteger" sua prole. E não se trata apenas da educação, mas também de uma tendência natural, pois o instinto materno inibe sentimentos e atitudes agressivas, que muitas vezes são necessários no Xadrez e em outras atividades esportivas. Todavia, uma abordagem minuciosa sobre esses aspectos foge à finalidade dessa crônica.   
           É muitíssimo importante enfatizar que as evidências estatísticas de que as mulheres mais talentosas apresentam desempenho comparativamente menos expressivo que os homens mais talentosos só se aplicam a grandes grupos de pessoas e não podem abranger todos os casos individuais, por isso os fenômenos como Judit Polgar ou Marilyn Mach vos Savant não podem ser encarados como "refutação" para tais evidências.   
           Para concluir, desejo dizer que não tenho conhecimento sobre nenhuma evidência de que as mulheres são mais inteligentes ou menos inteligentes que os homens, mas existem numerosos fatos que demonstram o seguinte: no Xadrez, entre jogadores de ponta, os homens tendem a obter melhores resultados que as mulheres. Evidentemente, a conclusão final a que somos levados é que não parece justo abolir os torneios femininos. Mais do que isso: me parece um contra-senso, que servirá apenas para desmotivar ainda mais a prática do Xadrez entre as mulheres.  
           Nota 1: não colocamos em discussão o fato de que as mulheres possuem menor número de neurônios e menor massa cefálica por diversos motivos:  
  
- Em primeiro lugar, há muito tempo a comunidade científica reconhece que a inteligência está mais relacionada à quantidade de interligações entre os neurônios do que ao número de neurônios ou à massa do cérebro.  
  
- Em segundo lugar, está comprovado que as pessoas, independente do sexo, utilizam uma pequena parcela de seus neurônios, de modo que ainda não se sabe se esses excedentes no cérebro masculino podem representar alguma vantagem. 
  
- Em terceiro lugar, se for levada em conta a relação "massa cefálica / massa corporal", as mulheres apresentam quocientes tão bons ou até melhores do que os homens.  
  
           Nota 2: este texto diz respeito unicamente à capacidade inata das mulheres para o Xadrez, estendendo-se a algumas atividades similares (matemáticas, lógica etc.), com ênfase para o raciocínio convergente. Nos casos de atividades relacionadas à linguagem, à inteligência social, à imaginação e outras faculdades cognitivas, tem sido constatado que as mulheres apresentam melhor desempenho que os homens (ver Piaget e Guilford, por exemplo). Por isso é imprescindível deixar claro que esse texto não pretende afirmar que homens ou mulheres sejam melhor ou pior servidos, no que respeita à acuidade mental. Apenas defendemos a opinião de que tanto os homens como as mulheres situados na faixa de inteligência mediana, apresentam desempenho no Xadrez aproximadamente equivalente, independente de fatores culturais e educacionais. Observa-se também que nos casos de homens e mulheres com inteligência acima da média, os homens possuem aptidão inata capaz de atender melhor às exigências necessárias a um bom desempenho no Xadrez. Por fim, nos casos de homens e mulheres que apresentam inteligência abaixo da média, são as mulheres que tendem a apresentar melhor desempenho.  


           SuperAjedrez Hispano Americano traduziu ao espanhol esse texto e o está disponibilizando em seu site. A tradução foi feita pela Sra. Yanina Barreto, esposa de nosso amigo e membro Maximilliano Alvarez. O texto se encontra na seção de Damas Hispanoamericanas. 

      Hindemburg Melão Jr. 
      São Paulo, 4 de dezembro de 1999  
      Esse texto pode ser livremente utilizado pelos membros de Sigma Society, desde que seja mencionada a fonte.  

      Esse assunto já está aberto para debate em nosso fórum. 

Voltar à página principal
Voltar à páginda de artigos
sigma.2000@sti.com.br