Brasil - 500 anos
por Hindemburg Melão Jr.
  

Embora muitos não cultivem o hábito de pensar, nesse pequeno ensaio eu proponho uma reflexão sobre nossos costumes e tradições _ nossas "boas e velhas tradições".

Dia 22 de abril de 2000, terão se passado exatamente 499 anos e 355 dias (nota-1) desde que as costas litorâneas do Brasil foram vistas pela primeira vez por um europeu. É possível que os viquingues tenham estado muito antes nas Américas, mas isso deve ter ocorrido nas altas latitudes, não no Brasil. Certamente esse é um excelente motivo para comemoração! Afinal, quanta coisa de bom essa “descoberta” trouxe ao Brasil e ao mundo todo!

A população indígena no Brasil era de cerca de 1 ou 2 milhões de habitantes, na época da descoberta. Depois de alguns anos, 90% desse povo foi dizimado. Os sobreviventes foram catequizados, alguns escravizados e outros expulsos de suas terras. Assim começa a história de nosso país, com tirania, mortes, estupros, torturas e toda sorte de atrocidades...

Nós aprendemos que o nome “Brasil” deriva da cor avermelhada do pau-brasil, cuja cor lembra às brasas, daí vem o nome. É possível que a coloração da pele dos índios também lenha sido um fator, e isso também me faz pensar se o sangue derramado durante a colonização não poderia ter motivado a adoção definitiva do nome “brasil”, cor de brasa, cor rubra de madeira, cor da pele indígena, cor de sangue...

Desde nossa "descoberta", experimentamos um desenvolvimento cultural, econômico e social “muito veloz”, de modo que sempre nos mantemos apenas cerca de 30 anos atrasados em relação ao mundo civilizado. Vivemos num país em que impera a corrupção, a ignorância e a miséria. Mas nos orgulhamos de nossa Pátria, porque, afinal, temos belas paisagens, temos belos carnavais e nosso futebol é admirado em todo o mundo! O que mais poderíamos querer? Temos tudo o que um povo precisa para ser feliz e viver sempre em festa e alegria! É um mero detalhe que 15% de nossa população seja analfabeta e igual porcentagem esteja desempregada. É outro mero detalhe que no Nordeste de nosso país muitas crianças morram de fome e diarréia, e muitas meninas de 10 a 13 anos sejam comercializadas como se fossem pedaços de carne. Portanto, nada mais justo do que comemorar os resultados espetaculares de nossos 500 anos de “existência”, como se não houvesse Brasil antes de 1500.

Algum “sábio” e profundo conhecedor de nossa história poderia argumentar que os selvagens que habitavam as Américas antes do “descobrimento” promoviam rituais macabros, em que se sacrificavam vidas humanas. Devo concordar plenamente que essa objeção tão pertinaz é muito boa e justifica plenamente que tais selvagens merecessem morrer, pois só assim deixariam de se matar uns aos outros. Também é conveniente lembrar o quão comum eram as mortes na fogueira da Santa Inquisição, na época do descobrimento. Mas é claro que essas mortes, por motivos religiosos, eram santas e justas, pois os hereges que iam para a fogueira seriam purificados pelas chamas, logo a religião estava salvando suas almas com tal prática. Por outro lado, os sacrifícios praticados pelos selvagens eram infundados, uma vez que tais rituais não seguiam as determinações das Sagradas Escrituras da Santa Igreja Católica.

Nossas efemérides festivas são muito pertinentes, sem dúvida, por estabelecerem que devemos comemorar a proclamação da república, a descoberta do Brasil e o Dia do Índio, entre tantas outras datas de suma importância para nossas vidas! Como diz a música: “todo dia, era dia do índio”. Isso era terrível, porque os índios não se davam conta de que todos os dias eram de liberdade e alegria. Mas, graças ao descobrimento, agora tudo está “melhor”, porque existe um dia específico do ano para nos lembrarmos de que existem índios em algum lugar, geralmente em reservas especialmente destinadas a eles, onde eles podem comer e respirar, e podem até aprender sobre nossa cultura! Claro que nos outros 364 dias do ano, simplesmente ignoramos que eles existem e pouco nos importamos com as condições em que eles vivem _ ou sobrevivem...

São essas coisas tão maravilhosas, que merecem ser lembradas com todo o carinho, que nos levam a assistir, com entusiasmo, às comemorações dos 500 anos de Brasil! Antes de 22 de abril de 1500, era como se o Brasil não existisse, pois não era conhecido dos cartógrafos europeus. Mas, a partir dessa data, “nosso país” se tornou uma terra linda e fantástica, passou a ser conhecido e incluído nos mapas! Isso é motivo de honra para todos nós! Não digo isso com ironia. Longe de mim fazer uma coisa dessas com uma comemoração tão séria! Sou um patriota devoto, disposto a sacrificar minha vida mil vezes pelo bem de nossa pátria! E louco foi Einstein, por dizer que “Patriotismo é uma doença infantil _ o sarampo da humanidade.” O patriotismo, na verdade, é um dos nossos mais nobres sentimentos, pois é ele que nos leva a nos deleitar com festanças como essa, dos “nossos” 500 anos, e também é essa sensação de fidelidade à pátria que nos faz matar pessoas que nem conhecemos e nunca nos causaram mal, pelo simples fato delas terem nascido em outros países, cujos governantes eventualmente têm interesses conflitantes com os governantes de nossa amada pátria. Então proclama-se uma guerra e arriscamos nossas vidas para lutar pelo “ideal da justiça e da verdade”! Naturalmente o que favorece nossa pátria sempre é correto e o que favorece outros países só é correto se nossa pátria também tirar alguma vantagem disso. Essa é a visão “imparcial” de todos os patriotas sensatos e justos! E é assim que aprendemos a lutar pela nossa Pátria!

Seguindo a mesma linha de “raciocínio” ditada pela mídia, que nos orienta para comemorar a “descoberta” do Brasil, podemos concluir que seria razoável comemorar também as datas das principais guerras e tragédias de nossa história. Por quê não comemoramos o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki, ou a o acidente com a usina nuclear de Chernobyl? Por quê não comemoramos a explosão do ônibus espacial Challenger? Certamente a mídia não teria dificuldade em instituir comemorações como essas, e o povo se divertiria muito com isso, porque sabemos, pela tradição e pela repetição, que “a voz do povo é a voz de Deus”. Ou será que a voz do povo é o eco da mídia?



Nota – 1: o calendário Gregoriano, que adotamos atualmente, entrou em vigor na passagem do dia 4 de outubro de 1582 para 15 de outubro de 1582. Foram suprimidos 10 dias, para corrigir o erro acumulado devido à precessão dos equinócios, que decorre do fato de nosso ano tropical ter duração um pouco menor do que o ano civil. Aquele tem 365,242.192.630 dias e está diminuindo de duração em cerca de 0,00531594 segundos a cada ano, enquanto o ano civil juliano, usado no calendário antigo, tem 365,25 dias. O ano gregoriano, do nosso calendário atual, se aproxima melhor ao ano tropical, com seus 365,2425 dias, mas ainda deixa resíduos que necessitam de correções a cada 3 milênios. (Na verdade, a variação na duração do ano tropical não é linear. A melhor aproximação atual é um polinômio de ordem 3)
 
Nota – 2: eu sou de descendência lusa, mas antes de tudo sou um homem do mundo, e me envergonho pelo que nossos ancestrais fizeram ao povo nativo do Brasil. E mais ainda me envergonho de pensar que se tivesse ocorrido o contrário _ ou seja, se o Brasil tivesse colonizado Portugal _, tudo sucederia de modo semelhante, porque tiranizar é da natureza humana.

         Hindemburg Melão Jr. 21/04/2000
         Sigma Society© 

Voltar à página principal
sigma@ sigmasociety.com