Mistérios Explicados

 

O inteligente Cavalo Hans

 

Em seu excelente livro “O cérebro de Brocca”*, Carl Sagan trata de muitos assuntos interessantes, entre os quais o caso de um cavalo que conhecia Matemática, Geografia, História, Física e outros assuntos; era um erudito completo. Ele respondia a perguntas sobre qualquer assunto e acertava numa proporção muito maior do que seria esperada no caso de os acertos serem meramente acidentais, aliás, ele acertava mais que a maioria dos humanos.

A história teve início em 1892, quando o alemão Wilhelm von Östem – um professor aposentado – adquiriu um cavalo russo e o chamou “Hans”. Durante anos, von Östem ensinou ao animal muitas coisas e depois declarou publicamente que Hans havia se tornado capaz de responder corretamente a questões sobre aritmética, dizer a hora certa, reconhecer pessoas em fotografias, responder a perguntas básicas sobre história, geografia etc., recompensando o animal com um torrão de açúcar cada vez que ele acertava uma resposta. O caso se tornou muito famoso e, em 1904, uma comitiva de cientistas se reuniu para estudar o fenômeno.

Obviamente o cavalo não falava. Ele apenas batia a pata no chão. Se a pergunta fosse: “Qual é a raiz cúbica de 27?” O cavalo respondia batendo a pata 3 vezes. Quando a pergunta envolvia nomes, a resposta podia ser em forma de alternativas ou usava um código numérico para representar cada letra. Por exemplo: qual é a capital da França?

1) Londres
2) Moscou
3) Bruxelas
4) Paris
5) Berlim

E o cavalo respondia batendo a pata 4 vezes. Ou então o cavalo podia expressar a letra “a” com uma batida, a “b” com duas batidas e assim por diante.

Todos ficaram perplexos e não foram capazes de dar uma explicação científica ao que estavam presenciando. Alguns jornais não perderam a oportunidade de fazer sensacionalismo e começaram a divulgar as notícias mais estapafúrdias. Alguns diziam que o cavalo era um gênio, era o cavalo mais inteligente do mundo (e por que não do universo?), enquanto os mais esotéricos afirmavam que o cavalo era a reencarnação de um erudito europeu falecido no século XVIII. Os céticos de carteirinha diziam que não passava de um truque, mas não eram capazes de descrever como o truque era feito. Enquanto isso, os pesquisadores sérios prosseguiram em suas investigações, para tentar compreender o caso antes de apresentar uma teoria.

De acordo com o relato de Sagan, von Östem era um homem de excelente reputação e estava praticamente fora de cogitação a possibilidade de uma fraude, mesmo assim experimentaram colocar von Östem longe do animal e, feito isso, constataram que não importava se von Östem estava presente ou não, o cavalo acertava da mesma forma. Também notaram que se von Östem estivesse presente o cavalo respondia mais rápido e com maior índice de acertos, mas se von Östem estivesse longe do estábulo o desempenho do cavalo caia um pouco. Constataram que não fazia diferença se von Östem estivesse na casa e Hans no estábulo ou se von Östem estivesse em outra cidade, a redução na performance de Hans era aproximadamente a mesma, não dependendo da distância.

Várias outras comitivas foram formadas e as pesquisas sérias prosseguiram por um bom tempo, enquanto os especuladores foram articulando as mais bizarras explicações.

Assim como os céticos, os cientistas também pensavam tratar-se de uma fraude e seus esforços eram no sentido de flagrar o truque usado por von Östem, mas todas as investidas com esse propósito foram em vão.

Finalmente, começaram a tratar o caso como um fenômeno autêntico e procurar uma explicação. Então um assistente do próprio von Östem encontrou a resposta para o mistério.

Entre 1994 e 96 eu contei essa história a várias pessoas. Eu sempre pedia a elas que tentassem explicar o que acontecia. A esmagadora maioria das pessoas nem ao menos se aproximava à resposta “certa”, mas nosso amigo José Celso Franco de Freitas resolveu a questão com uma rapidez surpreendente. Eu não cronometrei, porque quem conseguia resolver nunca conseguia no mesmo dia, logo não havia razão para cronometrar, mas o Zé Celso resolveu em poucos minutos!
Antes de ver a solução no final da página, tente resolver esse problema.

Boa sorte!

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* O título original foi “Bocca’s Brain” e foi publicado em Portugal com a tradução ipsis litteris deste título, porém foi publicado no Brasil com o título “O Romance da Ciência”.

Acertadores:

O primeiro a enviar a solução correta, desde a publicação desse texto, foi Antenor Freitas Filho. A resposta de Antenor foi enviada na mesma data da publicação. Alexandre Prata Maluf também enviou a solução e comentou que já conhecia a história. Agradecemos ao amigo José Antonio Francisco pela gentileza de anunciar essa seção como destaque em seu site.

 

Solução:

Oskar Pfungst e Carl Stumpf, incentivados pelo próprio von Ostën, realizaram experimentos adequados para falsear a hipótese e constataram que Hans não sabia ler, contar ou resolver problemas. Um fragmento do relatório que publicaram dizia: "o cavalo se equivocava em suas respostas toda vez que a solução dos problemas era desconhecida para as pessoas presentes." A dificuldade para a interpretação do fenômeno, portanto, foi em grande parte porque os cientistas que investigaram o caso não conduziram os experimentos de maneira adequada. Bastou um simples teste duplo cego para que a pista decisiva fosse evidenciada e a solução se tornasse fácil.

A explicação para o mistério é que Hans apresentava grande sensibilidade para perceber o nível de ansiedade das pessoas presentes, e este nível mudava subitamente quando ele atingia o número de batidas correspondente à resposta certa. Tudo que Hans pensava era: “Enquanto estas pessoas estiverem ansiosas, eu preciso bater a pata no chão. Quando a ansiedade diminuir bruscamente, eu paro de bater a pata e ganho um torrão de açúcar.” Naturalmente Hans conhecia seu dono melhor do que conhecia outras pessoas, por isso tinha mais facilidade para perceber alterações no humor de von Ostën e acertava mais rapidamente na presença dele do que em sua ausência.

Um experimento muito interessante foi realizado na França, em 1980, e consistiu em aplicar em alunos da 4ª. série uma prova com várias perguntas cujos enunciados não faziam sentido, tais como: "Em um navio há 26 carneiros e 10 cabras. Qual é a idade do capitão?" A grande maioria dos alunos respondeu “36 anos”.

Os resultados desse experimento foram incorretamente interpretados pelos pedagogos, o que é muito comum em pesquisas similares, nas quais os condutores do experimento partem de algum preconceito e tentam “provar” que a tese preconcebida é válida, em vez de investigar com rigor a legitimidade da tese. Os pesquisadores afirmaram que os alunos tentavam satisfazer ao professor, dando a resposta que eles acreditavam que o professor gostaria de receber. Erro grave. Eles deveriam ter dado continuidade ao experimento, entrevistando os alunos e perguntando por que deram aquela resposta, e deveriam aplicar testes equivalentes em outras faixas etárias, sempre questionando-os depois sobre os motivos de darem suas respostas.

Embora eu não tenha feito nenhum experimento sobre isso, com base nos dados disponíveis, minha interpretação é que os alunos menos autoconfiantes se julgaram incapazes de compreender a lógica do problema, e “chutaram” a solução julgando que o problema poderia ter alguma lógica oculta para eles, mas poderia ser compreensível para o discernimento supostamente superior do professor (quanto menor a habilidade crítica do aluno, mais ele tende a pensar que o professor está menos susceptível a cometer erros, inclusive em vários casos os alunos acham que os professores são infalíveis). Ou seja, as crianças não tentavam agradar ao professor, elas realmente tentavam resolver o problema da melhor forma que podiam. Por outro lado, creio que os alunos mais autoconfiantes deram respostas em que afirmavam que o problema não tem solução, ou explicavam que não percebiam a “charada” oculta, que não percebiam como associar os dados do enunciado de modo a inferir a idade do capitão. Por exemplo: mesmo que fosse necessário presumir que o capitão ganhou um animal de presente a cada aniversário, a expectativa de vida de cabras e carneiros é bem menor do que 36 anos, portanto os animais ganhos no primeiro aniversário do capitão já não estariam vivos. Além disso, os animais inicialmente ganhos poderiam procriar, e não havia motivos para supor que o capitão levaria consigo todos animais que ganhou, além de ser possível ele ter ganho ou comprado outros animais além dos aniversários etc. Os alunos mais perspicazes tentariam enxergar alguma lógica subliminar, não a encontrariam e tentariam demonstrar a inexistência de qualquer lógica que conduza a uma solução unívoca, enquanto os alunos mais superficiais, ao não enxergarem qualquer lógica explícita nem implícita, chutariam qualquer resposta, sendo os chutes mais simples mais prováveis, e como a adição é a operação mais simples, isso explica a abundância de respostas “36 anos”.

O estudo deveria fazer uma Análise Discriminante entre os grupos que deram a resposta 36 e os que deram outras respostas, ou mesmo uma Análise de Fatorial Hierárquica sobre as características dos alunos em cada grupo de respostas, e o conjunto de características dos alunos em diferentes clusters de respostas proveria muitas preciosas informações que ajudariam a interpretar corretamente o episódio.

Uma refutação simples da explicação proposta pelos educadores pode ser a seguinte: se a explicação habitualmente aceita fosse apropriada, seria esperado que os alunos que responderam “36 anos” fossem os alunos que tiram melhores notas, pois são os que percebem melhor a resposta que os professores esperam receber”. Mas meu palpite é que acontece exatamente o contrário, e os que responderam 36 ou 16 tiram notas mais baixas do que aqueles que deram respostas mais elaboradas, porque a eleição da resposta não é determinada pela vontade de agradar ao professor, mas por processos cognitivos com o real objetivo de resolver o problema, e nesse processo os alunos mais inteligentes tem mais chances de dar respostas coerentes, enquanto os não tão inteligentes tendem “chutar”.

No caso do cavalo e de outros animais, a grande diferença é que eles não compreendem frases longas e complexas. Cães podem aprender a seguir ordens simples, baseadas em apenas uma palavra ou poucas palavras, mas basta pronunciar as palavras-chave num ritmo diferente para criar confusão ao animal. O Cavalo Hans não entendia o que era dito, mas reconheceu um padrão de comportamento das pessoas (ansiedade), e pouco importava os enunciados das perguntas que lhe eram dirigidas. No caso das crianças é muito diferente, porque elas entendem o enunciado, mas não entendem de que modo poderiam usar as informações do enunciado para responder ao que é solicitado. Então algumas crianças concluem que não foram capazes de entender devido às limitações que elas possuem, e sabem que possuem, porque estão igualmente habituadas a não entenderem enunciados de problemas que fazem sentido e errarem várias questões de provas por esse motivo. Outras crianças concluem que há algo de errado com enunciado, porque estão habituadas a entenderem todos ou quase todos os problemas cujos enunciados fazem sentido e a acertar quase todas as questões das provas.

É claro que existe o problema de alguns alunos realmente darem as respostas que acreditam que os professores esperam receber, e esse problema requer alguma atenção. Mas o estudo realizado com a finalidade de corroborar esta tese apresentou numerosas falhas e não permite determinar quantas das respostas podem de fato serem explicadas pela tese que eles propuseram, e quantas são explicadas de outro modo. E o mais grave é que, nesse experimento específico, só uma pequena minoria das respostas talvez possa explicada da maneira que eles gostariam. Estes e outros erros de metodologia científica são alarmantemente freqüentes em investigações em todas as áreas, causando imensos prejuízos à comunidade. Um erro sistemático desse gênero vem se repetindo há anos no Shopping Gararapes, no Nordeste do Brasil, em que estão sendo implementadas sucessivas estratégias de Marketing de baixa qualidade, porque as investigações sobre intenções dos clientes e potenciais não são realizadas adequadamente, e o prejuízo já chega a muitos milhões de dólares. Um pequeno investimento de poucas dezenas ou centenas de milhares de dólares resolveria o problema de forma duradoura e eficiente. Muitas outras empresas, instituições educacionais, órgãos governamentais, entidades assistências e até países inteiros (como o Brasil) sofrem imensos prejuízos causados pela má administração, pela baixa qualidade de projetos publicitários e econômicos, por erros nos cálculos de gestão de risco, por falta de acurácia na gestão de recursos e gestão de pessoal, por falhas nos processos e seleção e recrutamento, entre outras imperfeições.

 

 
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