Cometa Lulin, Saturno e a atmosfera
Por volta de 2:00h de 28/2/2009, o Cometa Lulin esteve muito fácil
de observar, devido à proximidade a Regulus, favorecendo a localização,
e devido a seu brilho estar perto de mv 5.5. Uma estrela com tal magnitude
seria visível a olho nu, porém um objeto extenso, com menor
brilho de superfície, fica mais difícil devido ao menor contraste
com o fundo escuro. Tentei observar o cometa com instrumentos de diferentes
tamanhos, e foi fácil observar inclusive com um buscador Meade 25 mm
e uma monocular Nikula 40 mm. Foi muito difícil com uma monocular Kenko
de 32 mm. Com um Bushnel 114 mm a imagem já ficou muito bonita, e num
Celestron 203 mm foi uma visão emocionante, embora não fosse
possível notar a coloração esverdeada. O diâmetro
da coma era cerca de 15’ e com aumento de 200x ele enchia todo o campo.
Os elementos orbitais que correspondiam à posição mais
próxima da correta foram da Universidade de Harvard, com erro menor
que 2’. Algumas entre as fontes de dados consideradas foram estas:
http://www.cfa.harvard.edu/iau/Ephemerides/Comets/2007N3.html
http://ssd.jpl.nasa.gov/dat/ELEMENTS.COMET
http://www.aerith.net/comet/catalog/2007N3/2007N3.html
http://en.wikipedia.org/wiki/C/2007_N3
Saturno, também relativamente próximo, foi um espetáculo
à parte, com seus anéis ainda visíveis. A imagem estava
excepcional, nunca havia observado tantos detalhes em Saturno como nesta ocasião.
Eu não saberia dizer se a superior qualidade da imagem foi possível
graças ao uso de uma ocular Lomo 25 mm (que um revendedor alega ter
a melhor qualidade ótica já produzida por mãos humanas),
ou devido às condições atmosféricas, ou uma combinação
de ambas. A primeira comparação foi trocar a ocular por uma
Bushnell 27 mm e uma Meade 26 mm. A qualidade da Meade ficou bem semelhante
à da Lomo, talvez só um pouco inferior à Lomo, mas ao
colocar de volta a Lomo, ela parecia pior do que ela própria alguns
minutos antes, sugerindo que estava ocorrendo na atmosfera uma dinâmica
muito frenética e em questão de segundos ou minutos a qualidade
observacional estava mudando, pelo menos naquela pequena região. Concluí
que a qualidade da Lomo, se era superior, talvez isso não fosse sensível
em virtude das limitações de qualidade do primário e
do secundário, bem como da atmosfera, degradarem a imagem a um nível
que depois não faria mais diferença usar uma Lomo ou Meade.
Também é possível que o fato de usar uma PowerMate 5x
TeleVue estivesse degradando um pouco a qualidade da Lomo, mas estaria igualmente
degradando da Meade, e num nível tão sutil que acho improvável
ser esta a justificativa. Concluí que o principal fator que havia possibilitado
aquela visão especialmente nítida havia sido a transparência
da atmosfera naquele momento. Então me ocorreu a idéia de um
teste interessante para verificar a transparência atmosférica,
com feixes de laser de diferentes intensidades. Usei um laser 5 mW e um 400
mW, ambos de 532 nm, com filtros para regular as intensidades, e me parece
que o experimento foi bem sucedido no sentido de possibilitar constatar a
presença de condensações a cerca de 1 km de altitude,
que eventualmente se posicionavam em frente a Saturno e deixavam a imagem
ligeiramente pior, e quando não havia tais condensações
na frente, a imagem melhorava. Isso me pareceu bem interessante, por ser um
método simples para verificar as condições atmosféricas
exatamente num determinado trajeto: nos trechos em que o brilho do laser fica
mais intenso, indica que há maior concentração de partículas
obstruindo sua passagem e, portanto, a imagem ficará menos nítida.
Se o laser não deixar um traço muito brilhante, indica que a
atmosfera está mais transparente, melhor para observação.
Durante o breve período ótimo, foi possível observar
3 faixas paralelas ao equador, claramente perceptíveis, além
de uma leve sensação de uma mancha elíptica clara por
volta da latitude de 55 graus Sul. A época atual é favorável
à observação de eventos relacionados aos satélites
de Saturno, embora desfavorável à observação dos
anéis. O amigo Fábio Plocos, que participa de um grupo do Hubble
para monitoramento de Júpiter, relatou que foram feitas algumas fotos
de Saturno numa ocasião bastante rara, com trânsito simultâneo
de 4 satélites sobre o disco de Saturno, e, por sugestão dele
e sua equipe, o Hubble foi usado para fotografar este fantástico evento.
Em breve a foto deve ser publicada na NASA e outros sites (talvez todos os
principais sites de Astronomia, devido à raridade e beleza do evento).
Plocos já recebeu as fotos do Hubble não-processadas e fez alguns
comentários que aumentam a curiosidade de ver o trabalho final, quando
for publicado. Os trânsitos de satélites de Saturno são
muito mais raros que os de Júpiter, só ocorrem nos períodos
em que o plano dos anéis está quase alinhado com o da órbita
da Terra. Isso se deve ao fato de a inclinação do eixo axial
de Saturno ser de 26,73 graus, enquanto o de Júpiter é 3,13
graus, conseqüentemente a oscilação no ângulo de
visão dos anéis e da maioria dos satélites tem amplitude
muito maior, fazendo os alinhamentos se repetirem só quando os planos
orbitais dos satélites coincidem com o plano da órbita da Terra
por uma diferença pequena. Assim as oportunidades de observar eventos
envolvendo os satélites de Saturno só ocorrem duas vezes a cada
29,46 anos, e cada vez dura poucos meses. Quando os anéis estão
bem visíveis, as órbitas ficam muito inclinadas e não
há alinhamento satélites-Saturno-Terra para produzir os trânsitos,
ou trânsitos de sombra, ou ocultações.
Um detalhe interessante a se comentar é que quando falamos das condições
de observação, deveríamos especificar exatamente o local,
horário e direção da observação, porque
concentrações de partículas de água em suspensão,
neblina, poluição etc., a apenas 1 km de altitude, muito heterogeneamente
esparramadas por regiões de poucos graus quadrados, fazem com que uma
pessoa possa ter excelentes condições de observação
ao lado de outra que tenha condições apenas boas, bastando que
cada uma esteja olhando para uma região apenas alguns graus distante
da outra. Ou ambas podem observar o mesmo objeto, mas se os observadores estiverem
separados por apenas algumas centenas de metros, pode ser que um tenha condições
excelentes e o outro não. Ou para uma mesma pessoa, num determinado
momento, as condições podem estar excelentes, e poucos segundos
ou minutos depois podem já não estar tão boas. Assim,
quando se fala que uma determinada noite estava excelente para observação,
isso pode ser aplicável a todo o céu e toda a noite, ou apenas
a uma região bem delimitada, a um período bem curto e a uma
localização geográfica bem específica.
Claro que há regiões nas quais mais de 95% do céu fica
uniformemente transparente durante longas horas, mas na maioria das vezes
são pequenas janelas ótimas, que duram pouco tempo e cobrem
áreas muito pequenas.