Dia 6/3/2009 será lançado o telescópio
espacial Kepler, com a finalidade de investigar a existência de planetas
telúricos com base na queda de brilho causada pelo trânsito destes
planetas sobre o disco de suas respectivas estrelas.
http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/imagem.php?artigo=telescopio-espacial-kepler-vai-comecar-busca-por-outras-terras&id=010105090302&ebol=sim
Há detalhes não muito bem explicados na matéria, como a
afirmação de que “O telescópio consegue detectar
essas alterações de brilho com uma precisão de apenas 20
partes por milhão.”, dando a entender que o instrumento tem igual
sensibilidade para estrelas de qualquer magnitude, mas não é o
que acontece. Na realidade é muito mais fácil notar diferenças
de brilho numa estrela de maior luminosidade. Basta pensar em termos digitais:
digamos que uma estrela de mv 30 deixe impresso 1 pixel no sensor. Não
há como medir 20/1.000.000 numa imagem com apenas 1 pixel. Este caso
extremo é só para exemplificar o problema, pois as estrelas a
serem analisadas são muito mais brilhantes do que mv 30. mas o exemplo
deixa claro que quanto menor a quantidade de pixels registrados, mais difícil
é detectar alguma variação. Então seria mais correto
afirmar que o sensor pode detectar variações de até
20 partes por milhão.
Outro trecho impróprio da matéria diz que seria equivalente a
notar a passagem de uma pessoa em frente a uma lâmpada acesa numa pequena
cidade, mas isso não procede. As diferenças que o Kepler medirá
não serão eventuais, mas sim cíclicas, e a detecção
se dará por comparações estatísticas (contrastes
entre médias, por exemplo, ou contrastes robustos de tendências
centrais, ou análises de variâncias, entre outras). O planeta não
passará apenas 1 vez em frente a estrela, nem passará aleatoriamente
algumas vezes, como seria o caso da pessoa na cidade. O planeta passará
periodicamente e permanecerá um determinado tempo, também aproximadamente
uniforme, em frente à estrela (se a estrela não tiver tamanho
oscilante), e graças a milhões de fotos da mesma estrela, tiradas
em diferentes momentos, se poderá encontrar padrões muito sutis
de variação na curva de luminosidade que se repetem sazonalmente,
e que se conservam durante certo tempo. Por meio destas curvas, será
possível não apenas saber da existência do planeta, mas
também determinar o raio aproximado da estrela e, em alguns casos, até
o raio do próprio planeta por dois métodos distintos: um deles
considerando o tempo que leva entre o início e o término da entrada
e saída do planeta na frente de cada borda da estrela, e o outro com
base no tamanho da redução do brilho causada quando ele está
inteiramente em frente à estrela. O cálculo do raio da estrela
dependerá também da região em que ocorrer o trânsito,
sujeito a uma incerteza consideravelmente grande se o trânsito não
for próximo ao equador.
Para determinadas inclinações orbitais em relação
ao nosso eixo de observação, a detecção não
será possível porque o planeta não passará em frente
à estrela. Aliás, na grande maioria dos casos não será
possível detectar planetas por este motivo, ou seja, o número
real de planetas é muito maior do que a quantidade que será detectada.
Aliás, se não fosse por estes procedimentos, não seria
possível detectar nada, porque a flutuação natural no brilho
de uma estrela típica é muito maior do que 20 partes por milhão,
e não seria possível distinguir entre uma variação
deste gênero de uma causada por um planeta. A distinção
só é possível justamente devido à repetição
em períodos aproximadamente regulares das reduções de brilho
quando a causa é o planeta. Se forem usadas wavelets e outras ferramentas
estatísticas, é possível inclusive reconhecer dois ou mais
planetas com diferentes períodos e diferentes tamanhos passando em frente
à mesma estrela.
A antiga classificação de “estrelas variáveis”,
que se adota até hoje, não é muito apropriada, porque na
verdade todas as estrelas são variáveis. Aquelas classificadas
como “variáveis” o são apenas porque apresentam maior
amplitude de variação, a tal ponto de serem claramente notadas.
Variações muito menores que 0,01 mv ocorrem com freqüência
em todas as estrelas, inclusive no Sol. A presença de muitas manchas
solares com superfície dezenas de vezes maiores que a Terra, por exemplo,
ou uma protuberância gigante, causam variações significativas.
Que dizer, então, de um instrumento que propõe detectar mudanças
de 0,00002 mv? Estaria sujeito a milhões de flutuações
no brilho que nada teriam a ver com a passagem de algo em frente à estrela,
mas apenas propriedades inerentes a ela. Inclusive estas flutuações
criam um sério obstáculo, porque as grandezas que se pretende
medir são muito menores do que os ruídos que perturbam a medida,
e estas flutuações variam também de uma estrela para outra.
Portanto só em casos muito especiais, de estrelas muito estáveis,
cujas superfícies não estejam sendo freqüentemente povoadas
por manchas (em período de baixa atividade eletromagnética), é
que seria realmente possível detectar os tais planetas com razoável
segurança. Provavelmente surgirão numerosos “falsos positivos”
de planetas que não existem, porque manchas duradouras na superfície
de uma estrela causariam exatamente o mesmo efeito das quedas de brilho provocadas
por um planeta eclipsante. E não seria possível perceber isso
até que a macha desaparecesse, o que pode levar meses ou anos. No caso
do Sol dura poucos dias, mas não temos como saber a duração
de manchas em outras estrelas, além disso não precisaria ser a
mesma mancha, bastaria que houvesse uma persistente predominância de manchas
num dos hemisférios da estrela, para que esta assimetria fosse encarada
como a existência de um planeta, e um falso positivo como este pode levar
anos para ser corrigido. Isso exigirá que o Kepler volte a fotografar
as mesmas estrelas depois de um certo tempo. Para estrelas mais estáveis
e cujos planetas não estejam próximos a elas, pode ser possível
distinguir planetas de manchas com base na proporção entre o tempo
que o brilho fica reduzido e o tempo que fica com brilho total, pois nos casos
das manchas as durações seriam de 50% e 50%, mas as passagens
de planetas teriam maior duração com luminosidade total e menor
com luminosidade reduzida, produzindo curvas características diferentes.
Seria relativamente fácil perceber as diferenças entre estas curvas
de luminosidade se o brilho das estrelas fosse estável no nível
de precisão que se deseja operar. É interessante notar que se
trata de uma limitação na precisão que não depende
da potência, eficiência ou acurácia do instrumento, mas sim
de uma característica intrínseca do objeto de estudo, algo análogo
ao princípio da incerteza, mas em escala diferente. A analogia não
é perfeita, porque o princípio da incerteza diz respeito à
interferência causada pela interação entre o instrumento
usado na medição e a grandeza a ser aferida, enquanto nesse caso
a impossibilidade de se fazer medidas com precisão acima de determinado
nível decorre da proporção entre as diferenças causadas
pelos ruídos aleatórios e as diferenças que se deseja medir.
Seria como tentar saber se uma pessoa dentro de uma redoma está com a
boca aberta ou fechada com base no peso dela, já que o empuxo seria diferente
nos dois casos, conforme podemos ver no "Desafio
da Esfera". O simples fato de a pessoa estar respirando, se movendo,
a pressão externa estar oscilando etc. já causariam mudanças
suficientemente grandes em comparação à minúscula
variação que se pretende medir, que mesmo se a balança
utilizada fosse suficientemente acurada, seria muito difícil detecatar
a tal diferença, pois a detecção dependeria da regularidade
no comportamento estatístico dos ruídos e no tamanho dos ruídos
em comparação à grandeza a ser medida.
Estes são apenas alguns dos problemas com o projeto Kepler, que pude
deduzir numa análise relativamente breve, enquanto lia a notícia.
Creio que os pesquisadores da NASA estejam cientes de pelo menos grande parte
destas limitações (inclusive por isso as medidas serão
acima da atmosfera), e só não anunciam estes fatos porque talvez
isso dificultaria que obtivessem a verba necessária ao financiamento
dos tais projetos, já que seria um pouco mais difícil convencer
o governo a aplicar dinheiro num projeto em que cerca de 80% ou mais dos supostos
planetas descobertos simplesmente não existem.
Não há dúvidas de que se trata de um projeto muito interessante,
e também não há dúvidas de que os resultados serão
de baixa confiabilidade. Ponderando pontos positivos e negativos, é um
projeto fantástico e ainda que 99% dos planetas existentes não
sejam detectáveis por estarem num plano orbital inadequado para serem
notados pelo método adotado pelo Kepler, e 90% dos identificados não
existam, os poucos que forem descobertos e realmente existirem podem revolucionar
muitos conceitos da Exobiologia e refinar ou refutar as estimativas sobre a
quantidade de possíveis planetas habitados. Não importa que as
informações estejam impregnadas de erros, causados pelos ruídos
nos dados ou nas limitações metodológicas e tecnológicas.
O mais importante é que estas novas informações abrirão
caminhos até então inacessíveis para conhecimentos que
de outro modo não se poderia obter. É melhor uma informação
imprecisa do que a ausência de informação.