Novamente o IMC revelando suas fragilidades

 

Hoje nosso amigo Paulo Santoro enviou outra mensagem sobre os problemas que estão acontecendo devido ao uso do IMC:

Olá, Melão!

Mais um probleminha envolvendo o IMC:

http://jogos.uol.com.br/ultnot/finalboss/2008/05/19/ult3277u16326.jhtm

Abraço!

Paulo

No artigo, consta um trecho dizendo "(...) Fórum Nacional de Obesidade, que afirmou que e medição por IMC está longe de ser perfeita e que não deveria ser usada para crianças".

É interessante que o Fórum Nacional de Obesidade faça esta declaração, mas não tome providências no sentido de reparar o erro de forma adequada e decisiva. O que vem sendo feito nos últimos 200 anos, desde que Jacques Quetelet criou este índice para ser usado nos soldados de Napoleão. Os remendos são semelhantes aos que foram feitos nos modelos de Física de Partículas e nos modelos cosmológicos: quando algo não se encaixa nas previsões teóricas, remendam uma parte da teoria de modo a englobar aproximadamente o caso destoante, em vez buscar uma solução geral mediante a proposição de uma teoria mais representativa de todos os casos. No modelo geocêntrico (modelo cosmológico em que a Terra era o centro do Universo), cada vez que constatavam grandes diferenças entre os fatos observados e os previstos pelo modelo teórico, faziam um pequeno ajuste no modelo, adicionando epiciclos, gradientes, deferentes, tornando o modelo injustificadamente complexo, inerentemente incorreto e sempre adicionando alguns erros para encobrir outros. Foram necessários 2000 anos até que Kepler propusesse um modelo essencialmente correto, um modelo heliocêntrico (Sol no centro do sistema planetário) com órbitas elípticas (os modelos de Copérnico e Aristarco usavam órbitas circulares, sendo o de Copérnico mantinha as penduricalhas de epiciclos). O modelo de Kepler solucionou o problema de forma elegante, simples, muito mais acurada e eficiente, facilitando os cálculos e produzindo resultados muito mais exatos.

No caso do IMC, estamos vivenciando uma situação semelhante, em que não se está fazendo nada concreto para resolver o problema. Em vez disso, cria-se uma tabela para atletas, outra para pessoas "normais", outra para crianças, outra para adolescentes, todas elas com distorções nas extremidades, além de envolverem mais cálculos e informações do que seria necessário, e produzirem resultados menos exatos do que se adotassem um método único e fundamentalmente correto. Outros propõem deixar de usar IMC, em vez de o corrigir ou o substituir, o que equivale a alguém propor deixar de usar facas porque algumas pessoas praticam crimes com facas. O problema não está nas facas ou no IMC, mas no uso que se faz deles. A analogia entre faca e IMC não é perfeita, mas, grosso modo, exemplifica o tipo de atitude que se está observando por parte das entidades que deveriam regulamentar estes assuntos e buscar soluções limpas e justas, em vez de maquiar o problema das mais variadas formas.

Novamente lembrando o que já foi comentado em meu artigo anterior sobre este assunto:

"Convém chamar a atenção para o fato de que o erro no cálculo de IMC, por ser o método a partir do qual se constroem as tabelas baseadas em maiores amostras, por ser o método de mais rápida aplicação e mais extensamente utilizado, ele indiretamente distorce todos os demais métodos, como uso de adipômetro, impedância elétrica etc., que fazem medidas individuais e adotam tabelas próprias, porém direta ou indiretamente acabam recorrenco às tabelas de IMC e acabam produzindo resultados distorcidos."

Não existem, por exemplo, amostras com milhões de pessoas examinadas com adipômetro, porque isso requer a presença do endocrinologista, do aparelho e do paciente. Ou requer que o paciente tenha o aparelho e saiba usá-lo. No caso de IMC, basta saber peso e altura do paciente, que são informações triviais, facilitando, agilizando e popularizando o diagnóstico, o que possibilita calcular o IMC de milhões de pessoas ao tempo que só se conseguiria calcular com adipômetro de alguns milhares de pessoas. Esta facilidade de aplicação em larga escala possibilita a construção de tabelas muito mais completas, e isso acaba levando à conseqüência natural de que estas tabelas baseadas em IMC servem como referência a quem usa adipômetro e outros métodos, e daí em diante é inevitável que os erros presentes nestas tabelas se propaguem entre quem usa adipômetro ou qualquer outro instrumento de medida. Por isso, como o IMC é a base a partir da qual se constroem as referências usadas pelos demais métodos, qualquer erro presente no cálculo de IMC repercute negativamente em todos os níveis, afetando todos os resultados, quaisquer que sejam os meios usados na medida da quantidade de tecido adiposo. Portanto não se pode simplesmente dizer que não se deveria usar o IMC como medida confiável, como alguns pretensos especialistas estão bombasticamente proclamando, porque depois que praticamente todas as principais tabelas de referência já foram construídas a partir do IMC, e não há como substituí-las e mantê-las atualizadas com o uso de outros métodos, jogar o IMC no lixo equivaleria a renunciar a todas as principais tabelas de referência existentes, sem haver algo que possa substituí-las. A solução idônea é corrigir o IMC ou substituir o IMC por um método igualmente rápido, simples, prático, aplicável em larga escala, porém mais confiável que o IMC tradicional.

Por estes e outros motivos, não protelaremos mais. Nosso livro sobre o tema será publicado em breve. Daremos início à revisão agora e, logo em seguida, será enviado para publicação. Haverá uma versão em PDF, disponível gratuitamente, a fim de tornar o procedimento correto para cálculo acessível ao maior número possível de pessoas.