Um evento típico em condições especiais

Por Hindemburg Melão Jr.

Em que dia nasceu Herbert William Guloveson? Justifique sua resposta! :-)

Brevemente publicaremos a resposta detalhada

Update 23/05/2008

Apenas algumas horas após a publicação, Alexandre Groh já enviou a resposta certa e uma justificativa detalhada e correta. Se houver mais acertadores, os nomes serão citados aqui, junto com a(s) melhor(es) jsutificativa(s).

Em apenas 3 dias, os acertadores foram (em ordem cronológica):

Alexandre Groh (melhor resposta e primeiro a responder corretamente)
V. G. Alves
Wagner Andrade Junior
Lyelsen Candido

Como as melhores respostas foram copiadas de uma fonte da qual necessitaríamos de autorização para reproduzir, além de haver alguns erros e imprecisões nesta fonte, nos pareceu mais apropriado colocar nossa própria resposta:

Herbert William Guloveson nasceu no dia 30 de fevereiro de 1931. Cerca de 4.000 outras pessoas nasceram nesta data. Não é possível saber com exatidão a quantidade de nascimentos, devido aos erros presentes nas fontes. Por exemplo: no Fact Book da CIA, US Bureau of Census e na Enciclopédia Britânica, consta que a taxa de mortalidade nos Emirados Árabes Unidos é cerca de 1,4 por 1000 por ano. Se esta informação estivesse correta, em algum momento anterior e recente de nossa história, a expectativa de vida neste país deveria ter sido cerca de 700 anos (=1000 / 1,4). Pesquisei sobre a definição de “mortality rate” e “death rate”, para conferir se algum detalhe na definição causaria esta disparidade, mas a definição é bem clara: “quantidade de mortes por 1000 habitantes por ano”. Logo não é possível confiar neste dado e provavelmente também não se pode confiar na taxa de natalidade. É meio absurdo que tantas fontes supostamente sérias apresentem, inadvertidamente, uma informação tão grosseiramente e evidentemente incorreta. Mas talvez a taxa de crescimento demográfico (natalidade menos a mortalidade) seja razoavelmente precisa, bem como a população total provavelmente é confiável. No Brasil houve casos de pequenas cidades em que o número de eleitores foi maior do que a população total, obviamente causado por fraudes eleitorais, mas não deve ter sido este o problema que causou esta distorção sobre a taxa de mortalidade 1,4 / 1000. Também houve casos em que o IBGE apresentou dados nos quais o número de homens casados era muito menor do que o de mulheres casadas. Os casamentos entre duas mulheres são demasiado raros para explicar a diferença constatada, a poliginia não é uma prática comum em países predominantemente cristãos, como o Brasil. A explicação que foi dada na época é que o Censo teve um cut-off em determinada faixa etária (acho que 15 anos) e, em média, as mulheres se casam mais jovens do que os homens, resultando na tal disparidade. Seja esta a explicação ou não, trata-se de um grave erro. Já publicamos um artigo sobre erros nas estatísticas feitas em pesquisas eleitorais feitas pelo IBGE, e muitos outros são cometidos em diversos setores, alguns muito graves, primários, evidentes e persistentes.

O que se pode dizer com certa segurança é que a população mundial em 1931 era cerca de 2,1 bilhões, e na URSS deveria ser cerca de 5,5% disso, pois em 1991 a população da URSS era 293 milhões e a mundial era 5,35 bilhões. A taxa de natalidade atual na Rússia é cerca de 1,1% ao ano ou 0,003% ao dia. Talvez fosse um pouco maior em 1931. Com isso podemos estimar que a cada dia do ano 1931 nasceram na URSS cerca de 4.000 pessoas. Numa pesquisa preliminar, encontrei Herbert William Guloveson, e depois o amigo Pep Bullish indicou João Baptista Ribeiro, nascido em 30 de fevereiro de 1757, para ilustrarem o caso.

Como esta data não se repetiu de lá para cá, estas pessoas ainda não completaram o primeiro aniversário (provavelmente comemoraram em 1 de março de cada ano, como acontece com quem nasce no dia 29 de fevereiro).

Mas como surgiu esta data?

O assunto teve início na Pré-História, quando nossos ancestrais começaram a perceber que a Lua mudava de fases em ciclos aproximadamente regulares, e usavam estes ciclos como referência para a caça, já que na lua cheia é mais fácil caçar à noite.

Quando começou a ser praticada a Agricultura, por volta de 11.000a.C., tornou-se cada vez mais importante conhecer as Estações do Ano, que são definidas pela inclinação do eixo axial terrestre, pois algumas épocas eram mais propícias a plantar determinados alimentos, e o uso de um calendário se tornou quase tão importante quanto o uso do fogo e de armas para caça. No filme “A Guerra do Fogo” (muito interessante), pode-se ver um quadro razoavelmente realista de como viviam nossos ancestrais caçadores coletores de alimento, antes da Agricultura e antes de conhecer a duração do ano tropical. Os primeiros povos a criarem calendários para organizar datas de plantio e colheita, rapidamente assumiram a liderança, pois produzindo mais alimento podiam se nutrir melhor, ficavam mais fortes e sobrepujavam os rivais, além de gerar mais descendentes, descendentes mais robustos e saudáveis etc.

Provavelmente não havia Matemática nos primórdios da Agricultura (talvez soubessem contar até 2 ou 3, como algumas tribos primitivas da Austrália), então as estações do ano eram calculadas com base nas posições do Sol em relação às estrelas de fundo, por isso construções como Stonehenge desempenharam um papel de capital importância na Pré-História. Quando floresceram as primeiras civilizações tecnológicas, por volta de 4.000a.C., com o surgimento da escrita cuneiforme, hieroflífica e ideogrâmica, e alguns povos começaram a dominar rudimentos de Matemática, isso fez com que a produção de utensílios e armas, a Arquitetura e a Engenharia ganhassem um impulso extraordinário, bem como a Astronomia, a Agricultura, a Medicina deram um grande salto em comparação ao que se fazia anteriormente sem o uso de métodos quantitativos.

O calendário de 365 dias baseado em 12 meses de 30 dias com 5 dias adicionais existe no Egito pelo menos desde 3.500a.C. Mas a duração do ano tropical não é exatamente 365 dias, e hoje sabemos que o ano nem sequer tem duração constante. Atualmente sabemos que o intervalo transcorrido entre dois equinócios consecutivos é de 365.242190419 dias, e este período está se tornando mais curto. Entre 1900 e 1980, a duração do ano tropical diminuiu à taxa aproximada e de 0,005369 segundo a cada ano. E atualmente está diminuindo a um ritmo mais acelerado, indicando que a taxa de variação também não é uniforme. Este foi um dos motivos pelos quais a duração do segundo, nossa unidade fundamental de tempo no SI, que na Conferência Geral de Pesos e Medidas de 1960 havia sido definido como 1 / 31.556.925,9747 do ano tropical de 1900, foi substituído, na Conferência realizada em 1967, por 9.192.631.770 períodos de radiação correspondentes à transição entre dois níveis hiperfinos do estado padrão de um átomo de césio-133 à temperatura de 0K. Como não é possível produzir uma temperatura de 0K, trata-se de um valor teórico, obtido por extrapolação. E como 0K é uma temperatura inatingível, na qual não se pode ter certeza sobre o que acontece, talvez fosse mais prudente e exato definir o segundo com base em condições de temperatura conhecidas, como 5*10^-10K.

Portanto a duração do ano tropical em 11.000a.C. deveria ser cerca de 1 ou 2 minutos mais longo do que é hoje ou 365,243 dias. Com isso, um calendário de 365 dias acumulava um erro de 0,243 dia a cada ano, implicando um atraso progressivamente maior na chegada das estações. Isso era pior do que o método Pré-Histórico, que se baseava na posição real do Sol em relação às estrelas, definido pelo ano sideral de 365,256363051 dias, com adiantamento de apenas 0,014 dia a cada ano (esta diferença entre o ano sideral e o tropical causa a precessão dos equinócios). A cada século, o atraso na chegada das estações com base no calendário vigente chegava a quase 1 mês; a cada 370 anos o atraso equivalia a uma estação inteira. Durante milênios isso foi remendado sucessivas vezes, até que, em 45a.C., Julio César, insatisfeito com o fato de algumas celebrações religiosas que deveriam ocorrer na Primavera estarem acontecendo no Inverno, consultou o astrônomo Sosígenes para saber como proceder para solucionar este problema e evitar que voltasse a se repetir no futuro, e a partir de então foi criado o calendário Juliano (talvez o nome justo fosse Sosigeneano), com duração média de 365,25 dias, em que a cada 4 anos havia 3 anos “normais” de 365 dias e 1 ano bissexto de 366 dias. Inicialmente os meses tinham 30 ou 31 dias, exceto fevereiro, que tinha 29 dias nos anos normais e 30 dias nos anos bissextos. Isso permaneceu até 8a.C., quando o imperador Otávio Augustus decidiu que o mês “Sextilis” (oitavo mês do calendário Juliano) deveria mudar de nome para “Agosto”, em sua própria homenagem, e também decidiu que o mês que leva seu nome não poderia ter menos dias do que o mês que leva o nome de quem implementou o calendário, Julio César, assim, se o mês de Julho tinha 31 dias, então Agosto também deveria ter. Felizmente ele teve o bom-senso de não mudar o calendário para 366 e 367 dias; em vez disso, decidiu tirar um dia de fevereiro, que ficou com 28 ou 29 dias. Felizmente ele também era “modesto” e não decidiu que Agosto deveria ter 60 ou 100 dias, mas ficou satisfeito com 31. Portanto, entre 44a.C. e 7a.C., o mês de fevereiro teve 30 dias em todos os anos bissextos.

Mas o calendário de 365,25 dias também não representava precisamente a duração do ano tropical, e já na época de Roger Bacon, no século XIII, foi constatado que havia um substancial adiantamento de cerca de 7 dias na posição do ponto vernal. Mas foi somente em 1582, por sugestão do astrônomo Luigi Lilio (latinizado para "Aloysius Lilius", como era moda na época), que o papa Gregório XIII decidiu reformar o calendário. Desde então, passou a ser adotado o Calendário Gregoriano, vigente até hoje. Porém nem todos os países adotaram imediatamente o novo calendário. Por isso o nascimento de Isaac Newton aparece como 25/12/1642 em algumas fontes e 4/1/1643 em outras fontes, pois a Grã Bretanha só começou a adotar o Calendário Gregoriano em 1752. Para conhecer mais detalhes sobre o Calendário Gregoriano, sugerimos este artigo ("por que o século XXI começou em 2001, não em 2000"): http://www.sigmasociety.com/old/Sec-XXI.htm

Desde 1582, a transição do Calendário Juliano para o Gregoriano em diferentes países foi um processo gradual bem lento e meio caótico, que durou até 1949, com adesão da China. Neste ínterim, em alguns países foram temporariamente adotados calendários exóticos, inclusive na Suécia e URSS, e em alguns destes calendários ocorria a data de 30 de fevereiro. No caso de Herbert William Guloveson, o calendário com 30 de fevereiro só durou dois anos, 1930 e 1931.

Olá, Melão!

Lendo a resposta detalhada sobre a data de nascimento de H. W. Guloveson, não compreendi o cálculo da expectativa de vida ao nascer (EVN = mortalidade^-1). Intuitivamente, é razoável supor que EVN mortalidade^-1, mas a taxa de mortalidade é afetada pela distribuição etária da população (quanto maior a proporção de idosos, maior a taxa de mortalidade, tornando EVN mortalidade).
Mudando do morrer para o nascer, um outro fator a ser considerado na estimação do número de nascimentos em 30.02.1931 é a variação sazonal da taxa de natalidade (vou ver se encontro dados específicos para a URSS daquela época).

Abraços,

Wagner.

PS: adorei a sua iniciativa de escrever um livro sobre o IMC.

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Olá, Wagner.

Obrigado pelo incentivo quanto ao livro.

Sobre a taxa de mortalidade: qualquer que seja a distribuição etária, para que em algum momento a taxa de mortalidade seja 1,4 / 1000, em algum momento anterior a expectativa teria que ser cerca de 700 anos. Só não seria assim se houvesse um surto de nascimentos e/ou emigrantes jovens que gerasse uma pirâmide etária com pouquíssimos idosos e muitos jovens, numa proporção articialmente elevada. Em condições normais, se o crescimento vegetativo estivesse aumentando com o tempo, mas a expectativa de vida se mantivesse aproximadamente estável, então a proporção de idosos deveria diminuir e a de jovens aumentar. Em tais circunstâncias, EVN seria um pouco menor que 1/mortalidade. UM POUCO MENOR, mas não 10 vezes menores. Além disso, nas últimas décadas tem ocorrido o contrário na maioria dos países, e o crescimento demográfico está DIMINUINDO com o tempo, então a proporção de idosos deveria aumentar e a de jovens diminuir, fazendo com que EVN fosse um pouco maior que 1/mortalidade. Como a expectativa de vida também está aumentando, isso reforçaria a tese, pois também conspira para que a proporção de idosos aumente e a de jovens diminua, fazendo com que EVN seja ainda maior que 1/mortalidade.

Abraços.
Melão