Erro
Sistemático no Rating
de Xadrez
IMPORTANTE:
Antes de tudo, é necessário conhecer as fórmulas usadas para cálculo
de rating. Para tanto, sugerimos uma visita a este site: http://www.ajedrezchileno.cl/calculoELO.htm,
que explica o processo detalhadamente e ilustra com vários exemplos.
Também sugerimos uma visita ao site de Jeff Sonas <http://www.chessmetrics.com>,
no qual o autor propõe mudar alguns detalhes no método criado
por Arpad Elo, adotado oficialmente pela FIDE. Depois de conhecer
esses métodos, então se pode compreender melhor o conteúdo desse
artigo.
O
sistema de rating usado atualmente pela FIDE é mais lógico e melhor
fundamentado que o usado em qualquer outra modalidade esportiva,
inclusive um estatístico chamado “Raoul da Silva Curiel”,
que gosta de futebol e Xadrez, criou um site com rating de futebol
calculado com base na fórmula usada no Xadrez: http://www.eloratings.net/.
Nesse site também se pode encontrar uma explicação resumida sobre
o método de cálculo: http://www.eloratings.net/system.html.
Embora
o método da FIDE seja o melhor entre todos os esportes, ainda
apresenta uma série de erros bastante graves (e até mesmo ridículos),
que permitem a um jogador melhorar seu escore perdendo intencionalmente
alguns jogos!! Por exemplo: dados dois jogadores, A e B, que inicialmente
possuem ratings iguais e participam exatamente dos mesmos certames
durante um ano, disputando 200 jogos contra oponentes com rating
médio 2000 no primeiro semestre e outros 200 jogos contra oponentes
com rating médio 2000 no segundo semestre. Se, nessas circunstâncias,
no primeiro semestre, o jogador A perder todos os jogos e no segundo
semestre ele vencer todos os jogos, enquanto o jogador B vencer
80% no primeiro semestre e 80% no segundo semestre, embora o jogador
B tenha apresentado uma atuação evidentemente muito melhor, com
80% de aproveitamento contra exatamente os mesmos adversários,
enquanto o A terá obtido apenas 50% de aproveitamento, quem ficará
com maior rating será o jogador A! Essa falha está presente tanto
na fórmula da FIDE como na fórmula de Sonas, na fórmula da USCF,
na CBX, FPX, ICCF, ICC, SSDF e todas as federações e confederações
de Xadrez do mundo. Para ilustrar mais detalhadamente o problema,
transcreveremos o artigo que será publicado na próxima edição
da Revista Brasileira
de Xadrez Postal:

Estratégia
para aumentar o Rating
(Por Hindemburg Melão Jr.)
Por
volta de 1995, lembro-me de ter lido uma crônica do GM Giovanni
Vescovi sobre a participação dele em dois torneios de níveis ligeiramente
diferentes. Um era menos forte, com rating médio em torno de 2500,
enquanto o outro tinha rating médio em torno de 2550. O Giovanni
estava com 2465, na época, e para fazer norma de GM precisava
de algo como 6 em 9 no torneio com rating médio 2500 ou 5,5 em
9 no torneio com rating médio 2550. Ele comentou que inicialmente
achava que seria mais fácil fazer a norma no torneio em que precisava
de menos pontos, mas depois de terminados os dois certames, sua
opinião se inverteu.
Um
relato semelhante foi feito pelo número do CXEB (Clube de Xadrez
Epistolar Brasileiro), Cléber Moreira de Holanda. Ele comentou
que sempre precisava participar de alguns torneios mais fracos
para manter o rating alto. O fato é que a grande maioria dos bons
jogadores e com alguns anos de experiência em torneios têm pelo
menos uma noção intuitiva de que para aumentar o rating convém
jogar torneios de nível mais baixo.
Hoje,
ao ver a lista da SSDF (rating de computadores), decidi conferir
a validade dessa hipótese, usando os resultados de 94.354 jogos
disputados por 253 jogadores eletrônicos, e constatei que realmente
existe uma evidência muito forte de que quanto maior é a diferença
positiva entre o rating de um jogador e o rating médio dos adversários,
tanto maior é a performance que ele terá acima da performance
esperada. A correlação encontrada foi 0,423 ±0,016, sendo que
se o efeito não existisse, o valor esperado seria 0. Uma correlação
de 0,1 já seria uma evidência muito forte, e no caso de 0,4 é
praticamente uma prova, portanto a hipótese é correta e quem quiser
aumentar o rating, basta manter o mesmo nível de jogo e participar
de eventos nos quais o rating médio dos participantes seja mais
baixo que o seu próprio. Quanto maior for essa diferença, tanto
maiores serão suas chances de aumentar o seu rating.
Isso
explica, entre outras coisas, por quê o rating dos computadores
sofre um efeito inflacionário muito mais rápido que a inflação
no rating de jogadores humanos (outro fator é que as listas são
mais freqüentes). Isso acontece porque os novos jogadores humanos
(sem rating) têm aproximadamente mesmo nível dos jogadores antigos,
enquanto os novos softwares sempre são, em média, mais fortes
que os antigos, portanto eles tendem a marcar mais pontos do que
seria esperado e assim ficar com um rating desproporcionalmente
mais alto e causar uma inflação mais acentuada.
Então
se você deseja aumentar seu rating e você não é um organizador
de eventos, basta você se inscrever em torneios cujo rating médio
seja 100 ou 200 pontos mais baixo que o seu próprio rating. Do
ponto de vista ético, é uma estratégia legítima e é amplamente
usada. É particularmente útil para jogadores que possuem todas
as normas necessárias para o título de MI ou GM, mas precisam
chegar a um certo rating para que o título seja homologado (2400
para MI e 2500 para GM). Esteja atento, porém, para os casos de
torneios com jogadores de rating novo (1000 no CXEB e 2200 ICCF),
que podem ter força de jogo muito acima e isso obviamente produziria
resultado diferente do esperado. Portanto é mais seguro jogar
torneios em que todos os participantes tenham rating antigo.
Particularmente,
só recomendo essa prática para quem está com normas e precisa
de mais alguns poucos pontos de rating para obter o título, ou
para quem lidera uma lista e precisa ou deseja conservar essa
liderança. Em todos os outros casos, acho muito melhor que a pessoa
se preocupe com a força de jogo do que com o rating, e nesse caso
é preferível que participe de torneios em que os jogadores tenham
rating mais alto que o seu próprio. Isso pode causar uma pequena
perda de rating, mas certamente será um melhor exercício para
se aprimorar no Xadrez. Outra estratégia que também permite aumentar
o rating, mas só é recomendada em casos ainda mais especiais,
consiste em deixar o rating cair, para depois jogar muitos torneios
de uma só vez. Por exemplo: se um jogador tem rating 2000 e joga
contra 10 adversários com rating médio 2000, marcando 55%, ele
sobe para 2005. Se fosse a mesma situação, porém com 100 adversários,
ele subiria para 2050. Se antes de jogar com os 100 adversários
ele jogasse outro torneio e deixasse o próprio rating cair para
1900, seus pontos esperados passariam a ser 36, e ao fazer 55
ele subiria 190, portanto passaria a 2090. Então seria mais vantajoso
ele deixar o rating cair para 1900 e depois marcar 55/100 contra
oponentes com rating 2000 do que se ele marcasse diretamente 55%
enquanto ele ainda estava com 2000. Em outras palavras, para ganhar
mais rating ele deveria primeiro perder pontos, deixar a lista
ser atualizada com essa perda, para em seguida ter uma ascensão
maior na lista seguinte, e nesse caso deveria jogar o máximo de
jogos que pudesse. Ele poderia ganhar mais rating marcando 55%
contra 200 adversários com rating 2000 do que se marcasse 95%
contra 10 adversários com rating 2000. Por minha parte, eu prefiro
jogar poucos torneios e com jogadores de nível alto, para manter
boa qualidade nos jogos e tentar aprender um pouco de Xadrez,
mesmo que isso implique um rating mais baixo, e é esse o conselho
que dou a todos que querem se aprimorar no Xadrez tanto postal
quanto ao vivo.
Essa
estratégia só é possível porque existem falhas no método de cálculo
de rating. Seria mais apropriado que o rating novo fosse igual
ao rating performance e calculado com base nas últimas 50 partidas
ou últimas 30 partidas, desconsiderando todas as anteriores. E
quando um jogador tivesse disputado mais que 50 seriam consideradas
todas do período. Isso eliminaria essa falha e tornaria os ratings
mais representativos da verdadeira força de jogo.
Uma
maneira de resolver esse “problema” é usando uma fórmula
baseada em performance (em lugar da fórmula de rating novo e rating
antigo), levando em conta todos os jogos, desde o início da carreira,
atribuindo peso maior aos jogos mais recentes, atribuindo pesos
diferenciados para vitórias sobre jogadores com forças diferentes
(peso maior para vitórias sobre jogadores mais fortes), atribuindo
pesos diferentes para vitórias com Brancas ou Pretas (a diferenciação
de Brancas e Pretas já foi sugerido e testado com sucesso por
Jeff Sonas). Com essas mudanças simples, além de a capacidade
de predição da fórmula melhorar muito, terá a virtude de eliminar
os perigos de um jogador conquistar rating alto fazendo truques,
como foi descrito no artigo da RBXP.
Um
modelo de fórmula muito superior à usada pela FIDE ou por Sonas
é o seguinte:
R = Somatório [Rpi x f(T-Ti)]
R
= rating
Rpi = rating performance obtido contra cada jogador (incluindo
todos os adversários que teve durante a vida), calculado individualmente
e levando em conta as cores (Brancas têm chances de vitória cerca
54%, contra 46% das Pretas, em vez de 50% para cada, como no método
da FIDE).
T = época em que o rating está sendo calculado.
Ti = época em que foi jogada cada partida.