Entrevista com Hindemburg Melão Jr.
Conforme comentado anteriormente http://www.sigmasociety.com/portal_prof.htm , foi realizada uma entrevista comigo, conduzida por Luiz Eduardo Queiroz, representando o site "Conexão Professor", versando sobre Xadrez e Educação. A entrevista foi parcialmente veiculada como parte desta matéria: http://e-educador.com/index.php/projetos-de-ensino-mainmenu-124/77-projetos-de-ensino/4249-chess , http://xadrezescolarbrasileiro.blogspot.com/ entre outras fontes.
O texto integral da entrevista é conforme segue:
1 – Como nasceu o seu interesse pelo Xadrez?
Em primeiro lugar, quero dizer que é um prazer voltar a falar sobre Xadrez,
depois de vários anos afastado, e fico grato pela agradável oportunidade.
Eu aprendi a mover as peças aos 9 anos, com meu primo, mas eu não
tinha tabuleiro nem peças, além disso não tinha com quem
praticar, então joguei apenas meia dúzia de partidas com meu primo.
Só comecei a jogar com assiduidade aos 14 anos, porque a escola em que
eu estudava tinha um professor de educação física que gostava
muito de Xadrez, Prof. Cláudio, e em 1986 e 1987 foram promovidos torneios
internos na escola e na delegacia de ensino. No primeiro ano eu fui eliminado
na primeira partida, muito rapidamente, contra o amigo Denis, e fiquei entre
os últimos classificados. Alguns meses depois, nossa equipe sagrou-se
campeã na sétima Delegacia de Ensino e eu tive a felicidade de
ter contribuído para este sucesso, por ter obtido 100% de vitórias.
No ano seguinte fui campeão interno individual e fomos novamente campeões
na sétima Delegacia de Ensino, em ambos obtive 100% de vitórias.
A partir daí, meu interesse começou a crescer, e o Prof. Paulo,
que arbitrou o evento da sétima Delegacia, me forneceu o endereço
do Clube de Xadrez São Paulo, onde comecei a freqüentar (eu gostaria
de continuar usar trema normalmente, apesar da reforma). Eu sempre gostei de
videogames, porém nos jogos eletrônicos estava sujeito a falhas
no equipamento, além de haver muita ênfase na velocidade dos reflexos,
enquanto no Xadrez estes problemas quase desapareciam. Além disso, os
videogames são muito repetitivos, enquanto o Xadrez tem uma gama de possibilidades
incomparavelmente maior, o que o torna muito mais interessante e divertido.
2 – Você poderia contar um pouco da sua
história de vida, sua formação e suas áreas de interesse?
Tentarei não ser repetitivo com as informações que já
constam no site
e no final do meu livro.
Eu não tenho formação acadêmica. Comecei a cursar
Física em 1995, mas fiquei profundamente desiludido em praticamente todos
os aspectos. Eu já havia abandonado os estudos várias vezes, porque
sempre achei que poderia aprender melhor e mais rapidamente como autodidata,
mas por pressão de minha família, acabei prestando vestibular
e ingressando no Ensino Superior. Resisti durante cerca de 4 meses, mas acabei
abandonando o curso.
Alguns dos principais problemas que pude notar foram a falta de incentivo à
produção intelectual e à criatividade, as exigências
para se obter resultados medíocres relacionados à mera reprodução
de informação, a arrogância de alguns professores de competência
sofrível, entre outros motivos que comento em alguns de meus artigos
(no final de meu artigo
sobre o coeficiente de Hurst, por exemplo). Por outro lado, tive a oportunidade
de representar a USP no campeonato paulista de Xadrez e nossa equipe foi campeã,
e conheci algumas pessoas agradáveis, com as quais mantive contato durante
anos.
Quanto às minhas áreas de interesse, minhas preferências
mudam com o tempo. Atualmente tenho muito prazer em lidar com assuntos relacionados
ao desenvolvimento de sistemas computadorizados para gestão automática
de carteiras de investimento, por ser um desafio estimulante e recompensador.
Além dos temas correlacionados a isso, especialmente investimentos em
Forex, commodities e ações, também gosto muito de Estatística,
Psicometria, Cognição, Heurística, Epistemologia, Astronomia,
Física, Filosofia, Lógica, Matemática, Artes Marciais,
Dança, Literatura, História da Ciência, Natação,
Ciclismo, filmagem e edição de vídeo, fotografia astronômica
(embora ainda seja iniciante), entre outras. Na maioria dessas áreas,
é possível que o Xadrez tenha desempenhado um papel positivo para
otimizar meu desempenho, por ter educado meu raciocínio para operar de
maneira mais organizada do que se eu resolvesse tudo de improviso.
3 - Você acredita que o Xadrez possa ser usado
nas escolas como ferramenta pedagógica? Que habilidades a prática
do Xadrez desenvolve nos alunos?
Infelizmente não há, que eu saiba, estudos bem conduzidos com
a finalidade de avaliar os efeitos do Xadrez sobre o rendimento escolar ou sobre
a evolução das faculdades intelectuais. Há muitos estudos,
porém todos pecam em muitos aspectos. Um dos mais completos foi desenvolvido
por nosso amigo Albert Frank, durante o período de 20 anos que ele viveu
na África, ensinando Xadrez e Matemática a crianças e jovens,
e um resumo deste estudo foi publicado por ele por intermédio da USCF
(Federação de Xadrez dos Estados Unidos), com o nome “Chess
and aptitude”. Albert é professor de Lógica e Matemática
na Universidade de Bruxelas, referee internacional em várias revistas
especializadas, foi campeão de Bruxelas em 1968, é fundador de
uma sociedade internacional para especialistas em Lógica e Puzzles chamada
“Ludomind”, e recentemente foi campeão veterano da Bélgica,
portanto possui uma excelente bagagem tanto para o ensino de Xadrez quanto para
o uso de ferramentas estatísticas de bom nível para investigar
os resultados do estudo. No entanto, por limitações orçamentárias
e de pessoal (professores) para colaborar, os estudos não tiveram como
ser tão rigorosos quanto seria necessário, e as conclusões
ficaram comprometidas. Há muitos estudos na Romênia, na Rússia,
na Alemanha, na Inglaterra e outros países. Até mesmo no Brasil
há vários estudos que foram publicados nas extintas revistas “Preto
& Branco” e “Xadrez Coop”, de trabalhos realizados por
Antonio Villar Marques de Sá (doutor em Educação aplicada
ao ensino de Xadrez), Damaris Hadad, Joaquim de Deus Filho e outros. No entanto,
os resultados anunciados nestas revistas carecem de teor científico por
vários motivos metodológicos e técnicos. Um estudo de Joaquim
de Deus Filho, por exemplo, se não me engano, se baseava numa amostra
com 32 alunos. É um número muito pequeno, e não houve nenhum
estudo com Análise de Clusters, ou Wavelets ou outras ferramentas estatísticas
que permitissem isolar as variáveis que se desejava estudar daquelas
que causavam ruído. Apesar de todas estas ressalvas, intuitivamente me
parece muito coerente supor que o Xadrez tenha um papel muito importante no
desenvolvimento intelectual, por exercitar muitas habilidades diferentes e,
conforme comentei anteriormente, por tornar o raciocínio mais organizado,
e isso pode ter aplicação em praticamente todas as áreas
do conhecimento.
4 – Você pode falar um pouco da ligação
entre o Xadrez e a Matemática?
Não conheço estudos relacionando estas atividades, mas algumas
pesquisas de Bill McGaugh revelam uma correlação em torno de 0,7
entre desempenho no Xadrez e em testes de QI predominantemente constituídos
por questões de Matemática e Lógica. Isso é bastante
sugestivo.
A comparação poderia ser feita de diversas maneiras, e seria possível
chegar a conclusões divergentes, dependendo da abordagem. Na visão
de Steven Pinker, a mente é constituída por “órgãos
mentais”, e por analogia com os órgãos físicos, uma
pessoa com membros maiores tem maiores probabilidades de ser bom jogador de
Basquete, assim como de Vôlei, por serem duas modalidades que dependem
da altura, e além da altura cada uma delas requer algumas habilidades
específicas, por isso os bons jogadores de Basquete não são
necessariamente tão bons no Vôlei, e vice-versa, e por isso nem
todas as pessoas altas se sobressaem nessas modalidades. Porém se pode
constatar que os jogadores profissionais destas modalidades são muito
mais altos do que a média da população em geral, bem como
se pode constatar que os bons jogadores de Basquete são claramente melhores
em Vôlei do que uma pessoa que não seja tão habilidosa no
Basquete. Se invertêssemos, trocando “Vôlei” por “Basquete”,
ocorreria o mesmo. Disso podemos inferir que, se o modelo mental proposto por
Steven Pinker for uma boa representação da realidade, provavelmente
pessoas com altas habilidades para Matemática também devem se
destacar no Xadrez, assim como bons jogadores de Xadrez devem se destacar na
Matemática, não igualmente bem em ambas, mas pelo menos num nível
sensivelmente superior à média das pessoas que não praticam
a outra modalidade correlata.
Não há como dar respostas que sejam ao mesmo tempo resumidas,
razoavelmente corretas e medianamente completas a questões como estas.
Convém lembrar que além do modelo de Pinker existem muitos outros
(de Guilford, Thurstone etc.). E em qualquer dos modelos mentais que conheço,
todos sugerem igualmente que deve haver uma estreita relação entre
desempenho em Xadrez e Matemática. É importante também
esclarecer que esta é apenas minha opinião, baseada numa avaliação
subjetiva, e que está consoante com a opinião da grande maioria
(ou talvez a totalidade) das pessoas que chegaram a investigar este tema. Embora
sejam “apenas” opiniões, sem valor científico, acho
improvável que tantas pessoas estejam erradas.
5 - Você entrou para o Guinness Book em 1998
com o “recorde mundial de xeque-mate anunciado mais longo em simultânea
de Xadrez às cegas”. Pode falar um pouco mais sobre essa ocasião?
Como é jogar Xadrez às cegas?
Foi uma experiência extremamente interessante em muitos aspectos, foi
muito gratificante e excitante, mas também muito estressante. Sofri boicotes
inimagináveis e compreendi que uma das dificuldades para o crescimento
do Xadrez no Brasil se deve aos conflitos entre clubes e federações,
alguns decorrentes de inveja ou atritos pessoais, outros decorrentes de motivos
que nunca cheguei a compreender bem. Felizmente recebi muito apoio de dezenas
de pessoas, especialmente dos amigos Rafael Zakowicz e Alex Takayama, que me
acompanharam em quase todas as simultâneas de treinamento, como declamadores,
e também os amigos Adalberto Joco, da revista Caissa Café, e Antonio
Claudio Tonegutti, que na época era responsável pelo site da Confederação
Brasileira de Xadrez e diretor do dep. de Química da UFPR, os amigos
Gilson Luis Chrestani, presidente da Federação de Santa Catarina
e ex-campeão brasileiro postal, que veio a São Paulo para prestigiar
nosso evento, o presidente do Clube de Xadrez Epistolar, Luis de Oliveira Costa
Neto, que também foi prestigiar nosso evento, e muitos outros que estão
listados na página de agradecimentos sobre aquele evento. Joco e Tonegutti
publicaram extensas matérias sobre meu recorde, assim como Chrestani
e Luis Neto publicaram nas revistas das respectivas entidades que presidiam,
o que possibilitou atender a uma das exigências do Guinness para que o
recorde fosse reconhecido. Por outro lado, quem acompanhou de perto todos os
detalhes, pôde presenciar fatos absurdos, inclusive remoção
de folders num local onde seriam realizados eventos. Na época fiquei
muito estressado com estas coisas. Mas no final, o resultado foi muito positivo
e bem-sucedido.
O Joco também fez uma entrevista comigo, na época, em que respondi
sobre vários temas que estão sendo abordados agora aqui. Uma das
perguntas era como eu visualizava as peças e o tabuleiro, e talvez seja
um detalhe interessante para comentar: eu não visualizo nada, eu apenas
sei onde estão as peças e calculo como elas interagem mutuamente.
Quero dizer, eu não opero com imagens mentais, mas sim com informações
algébricas. Se tenho uma Torre em e4, sei que ela domina todas as casas
do caminho que estiver desobstruído na coluna “e” e na fila
“4”. Basta que eu saiba onde estão as peças para saber
o que posso e o que não posso fazer, não preciso (e nem consigo)
visualizar mentalmente o tabuleiro inteiro. Na verdade, algumas poucas vezes,
quando necessário, consigo ter uma imagem total do tabuleiro e das peças,
ou tenho a sensação de conseguir, mas que pode ser uma sensação
enganosa, por mesclar informações de imagem mental com informações
algébricas previamente conhecidas. Quando empreendo algum ataque de ala,
em que o foco se limita a uma região pequena de 3x2 escaques, ou algo
assim, eu posso, como recurso para acelerar o cálculo, visualizar apenas
esta pequena região. Mas normalmente não penso em imagens, penso
apenas em posições de peças como coordenadas cartesianas.
Em 1996, eu achava que minha maneira de jogar às cegas era rara, mas
alguns anos depois, quando amigos me falaram sobre o livro “Ajedrez a
la ciega”, que demorei, mas acabei conseguindo um exemplar, e li sobre
a metodologia adotada por Pillsbury, Reti, Alekhine e outros, percebi que praticamente
todos faziam da mesma maneira que eu, exceto Tarrasch, que dizia visualizar
o tabuleiro todo, mas suspeito que ele pode ter apenas uma falsa impressão
sobre isso, conforme comentei algumas linhas acima. Acho este esclarecimento
importante, porque a maioria das pessoas pensa que eu visualizo um tabuleiro
de cada vez, ou todos de uma vez, mas não é isso. Eu apenas sei
onde estão todas as peças de todos os tabuleiros.
6 - Você também é recordista mundial de xeque-mate
anunciado mais longo em Xadrez Epistolar. Pode explicar melhor essa modalidade
do Xadrez?
Este recorde não chegou a ser oficialmente publicado no Guinness, em
parte porque após a edição de 1998, o Guinness deixou de
ser publicado no Brasil durante alguns anos, e este recorde foi estabelecido
em 1999. No site do Guinness no Reino Unido não havia (e acho que ainda
não há) formulário funcional nem qualquer meio de contato
para envio de requisição de homologação. Mas foi
publicado integralmente no jornal de Pi Society e citado em outras revistas
e sites. Foi também reconhecido pelo então presidente do Clube
de Xadrez Epistolar Brasileiro como o mais longo de que ele tinha conhecimento,
sendo o recorde anterior citado no livro “Manual de Xadrez”, de
Idel de Becker (não me recordo agora o nome da pessoa que era recordista).
O Xadrez Postal, em minha opinião, é mais interessante que o Xadrez
ao vivo em muitos aspectos, porém é menos divertido. O Xadrez
Postal é mais científico, envolve extensas e profundas pesquisas
antes de se executar cada lance, quase não há margem para táticas
psicológicas ou ciladas, enquanto o jogo ao vivo é mais esportivo,
é uma disputa entre pessoas, é como dizia Lasker: “O Xadrez
é uma luta gostosa de emoções”. Diria que o Xadrez
Postal é como compor uma obra de Arte com elevado requinte, ou desenvolver
um complexo e profundo trabalho científico, não sinto o Xadrez
Postal como um jogo ou esporte, mas sim uma arte e uma ciência de nível
muito elevado. Com os programas de computador, o teor científico do Xadrez
Postal aumentou muito, e, cada vez mais, o grupo dos melhores jogadores postais
está sendo constituído por acadêmicos de áreas de
Exatas, ao passo que antes era majoritariamente constituído por fortes
jogadores ao vivo. Minha sensação é de que algumas pessoas
conseguem analisar exaustivamente por 5 minutos, outras conseguem por 1 hora,
outras conseguem por 50 horas. Às vezes quem consegue se sobressair muito
numa análise de 5 minutos pode não continuar melhorando a qualidade
de sua análise se dispuser de muito mais tempo, enquanto outras que não
são tão rápidas para conseguir fazer uma análise
muito boa em 5 minutos, podem continuar se aprofundando quase indefinidamente,
até encontrar um lance com altíssima probabilidade de ser objetivamente
o melhor, e estas acabam se sobressaindo no postal. Com o uso de computadores,
além da capacidade para se aprofundar quase indefinidamente, soma-se
a capacidade para formular metodologias de análise em que o computador
execute os cálculos táticos e o humano oriente um plano estratégico.
Creio que a correlação entre Matemática e Xadrez Postal
seja mais forte do que entre Matemática e Xadrez ao vivo, se pensarmos
em Matemática em termos de “produção intelectual”,
mas se pensarmos em matemática como tirar notas ou vencer olimpíadas
da Matemática, então a correlação com Xadrez ao
vivo deve ser mais forte.
Atualmente o Xadrez Postal é, na verdade, Xadrez por e-mail. Desde 1999,
quando comecei a jogar postal, o uso do e-mail talvez já predominasse.
Os ritmos de jogo costumam ser 40 dias para 10 lances, ou 30 dias para 10 lances,
sendo que se um lance for respondido na mesma data ou no dia seguinte, conta
como tempo zero por descontar o trâmite dos correios. Embora o advento
do e-mail tenha tornando essa regra injustificada, ela permanece vigente (pelo
menos era assim até 2000). Além disso, a derrota por esgotar o
tempo só acontece após exceder o controle de tempo pela segunda
vez. Isso confere aos jogadores uma folga muito grande para analisar cuidadosamente.
Os jogos postais se desenvolvem mediante a troca de correspondências (e-mails
ou cartas), em que as pessoas têm um determinado prazo para executar determinada
quantidade de lances. Há várias regras específicas para
tentar supervisionar os jogos, e acho interessante que as tentativas de trapaças
são muito raras, apesar de não haver meios eficientes para se
fazer um controle muito rigoroso.
7 - O Xadrez pode ser considerado um esporte ou é apenas um jogo
que desenvolve o lado intelectual do indivíduo?
Eu escrevi um texto intitulado “Tributo à deusa Caissa”,
que está publicado em alguns sites de Xadrez, inclusive neste:
http://www.sigmasociety.com/xadrez/sigma_tributo-caissa.asp
O texto é uma apologia ao nosso jogo-esporte-arte-ciência, com
teor meio poético. Uma resposta mais objetiva a esta pergunta poderia
ser dada com uma rede neural que recebesse milhões de inputs sobre características
comuns a jogos e a esportes, contrastasse umas com as outras, e, em seguida,
ela classificaria o Xadrez como mais bem enquadrado em um ou no outro grupo.
Este seria um procedimento complexo, demorado, e ainda estaria sujeito à
subjetividade inerente à escolha das características usadas nos
inputs.
Tentando fazer organicamente o trabalho de uma rede neural artificial, podemos
dizer que o Xadrez possui vários elementos comuns aos jogos, aos esportes,
às artes e às ciências, portanto pode ser caracterizado
como todas. Mas se a pergunta envolver um “ou exclusivo” do tipo
“XOR”, seria muito difícil de responder em qual grupo ele
se enquadraria melhor, inclusive talvez variasse de pessoa para pessoa, de partida
para partida, sendo algumas mais científicas, outras mais artísticas,
outras mais esportivas. Karpov, por exemplo, é um bom arquétipo
de jogador científico, enquanto Tal foi um notável artista e Lasker
foi um grande jogador. Os três foram cientistas, artistas e jogadores,
porém cada um se destacou numa característica. Talvez haja algumas
armadilhas semânticas ao se tentar dar respostas simplistas a perguntas
como esta. Creio que o mais correto seja considerar o Xadrez como uma modalidade
esportiva, reconhecia pelo COI, com elementos de Arte e Ciência, e com
propriedades que o caracterizam também como um jogo. Numa análise
superficial podemos ter a impressão de que difere da pintura, que é
facilmente caracterizada como Arte, embora tenha também elementos de
Ciência, e difere da Física, que é facilmente caracterizada
como Ciência, embora tenha também elementos de Arte, mas difere
em menor proporção de jogos diversos. Mas uma análise mais
meticulosa revela que, na essência, se compararmos a atividade intelectual
e a emocional subjacentes, fica claro que ele difere mais dos jogos trivialmente
praticados, e se assemelha muito mais às artes e ciências. Geralmente
o envolvimento do praticante com a atividade artística e científica
é muito intenso, assim como o sentimento de realização
ou de perda quando se consegue ou não atingir o objetivo. Nos jogos típicos,
geralmente o envolvimento é muito menor, o comprometimento é menor.
Não estou seguro de ter feito uma análise imparcial. Talvez eu
esteja partindo de uma idéia pré-concebida e tentando formular
argumentos para fundamentar minha idéia, em vez de analisar friamente
o caso em busca de uma compreensão mais correta. Mas se estou incorrendo
neste vício, não é intencional e me inclino a acreditar
que estou sendo pelo menos razoavelmente imparcial.
8 – Você acha que o ensino do Xadrez deveria
ser obrigatório nas escolas de todo o país?
Eu acho que deveria ser obrigatório oferecer merenda e condições
dignas de moradia e educação a todas as pessoas, especialmente
às crianças, e acredito que as escolas deveriam oferecer aulas
facultativas de todas as disciplinas, bem como orientação para
que as crianças pudessem compor as grades curriculares mais compatíveis
com suas aptidões naturais e com suas preferências pessoais. Acho
que ninguém deveria estudar compulsoriamente Xadrez, nem Matemática,
nem qualquer outra disciplina, mas deveriam ser esclarecidos sobre a importância
do conhecimento e dos benefícios que se pode ter para o resto da vida
se se dedicarem ao estudo do Xadrez, da Matemática e da maioria das outras
disciplinas, sobretudo se estas disciplinas forem abordadas de modo a ter aplicação
no cotidiano. Ainda que o Xadrez provavelmente cause bem às pessoas,
não acho que se possa obrigar as pessoas a nada que elas não queiram,
ainda que seja supostamente bom para elas, exceto em casos nos quais o bem da
comunidade depende da imposição de algo a alguns, a fim de assegurar
o melhor para todos. Privar uma pessoa da liberdade, por exemplo, se a pessoa
for uma criminosa hedionda, e a liberdade dela colocar em risco o bem-estar
de outros, eu sou a favor de que esta pessoa perigosa precisa ser impedida de
atuar contra o bem comum. Mas no caso de um fumante, enquanto ele fume longe
de outras pessoas, e o único prejudicado é ele próprio,
acho que o máximo que se pode fazer é orientá-lo a não
fumar, mas sou contra obrigá-lo a não fumar.
9 - Para finalizar, você pode falar um pouco mais sobre a Sigma
Society?
Sigma Society foi criada em 1999 e chegou a ser bastante ativa durante algum
tempo, com cerca de 500 mensagens mensais em nossos fóruns, chegamos
a oferecer cursos de Xadrez, Astronomia, Latim, Esperanto e Sânscrito,
a seção Oráculo foi muito prolífica durante alguns
anos, porém atualmente nossa atividade está muito reduzida, em
grande parte porque meu foco está muito mais voltado para a área
financeira, especialmente o desenvolvimento de sistemas automáticos de
investimentos. A maioria dos artigos publicados no site a partir de 2005 é
sobre investimentos, e chegou a um ponto que começou inclusive a descaracterizar
nossa sociedade, por isso agora vamos criar um site exclusivo para tratar de
investimentos, e tentaremos redirecionar a Sigma para seguir em seu caminho
original.
Na Sigma eu tive a oportunidade de conhecer algumas das pessoas mais agradáveis
que atualmente fazem parte de meu círculo de amizades, pessoas com as
quais compartilho vários interesses e possuem valores éticos semelhantes
aos meus. Não apenas os membros de Sigma, mas também muitos visitantes,
que são praticamente como membros, com os quais mantive e/ou mantenho
correspondência assídua, também acabaram se tornando amigos
muito queridos. O Petri Widsten, por exemplo, teve época em que trocávamos
10 e-mails por dia durante vários meses seguidos. Alexandre Maluf (não
tem parentesco com Paulo Maluf, pelo menos não que ele saiba) é
provavelmente a pessoa com quem mais tenho trocado mensagens nos últimos
anos, devido ao meu interesse por Astronomia e por ele ser provavelmente uma
das pessoas que mais conhece sobre telescópios no Brasil, e tenho aprendido
muito com ele. A Juçana Corrêa foi uma das mulheres mais marcantes
em minha vida, com quem mantenho amizade até hoje. Praticamente todos
os cotistas do Saturno V (que é o nome de meu sistema automático
para investimentos) me conheceram por intermédio do site da Sigma Society,
bem como as matérias para as quais fui convidado a participar, como esta
entrevista que estamos fazendo agora, e outras, as pessoas que me convidaram
para estas matérias tomaram conhecimento de que eu existo por intermédio
do site, direta ou indiretamente. Por isso considero que o tempo que dediquei
a Sigma nos últimos 9 anos está sendo muito recompensador, assim
como o tempo que dediquei ao Xadrez e a algumas outras atividades. Sigma foi
uma sementinha que plantei sem saber claramente o que esperar dela, e rapidamente
começou a gerar bons frutos. Hoje ela representa uma filha para mim,
com a vantagem de que não chorava nem fazia sujeira quando era pequena,
não preciso ir buscá-la à noite em danceterias, e, apesar
dessa gravidez precoce e inesperada, que vai gerar agora outro site, ela sempre
me trouxe muitas alegrias.