Um exemplo de mau uso de sistemas mecânicos

Por Hindemburg Melão Jr.

Embora eu não tenha o hábito de ver TV, algumas vezes sou obrigado a ouvir e ver algo que esteja sendo transmitido, quando passo em frente ao televisor e alguém está assistindo. Hoje, assim como nas últimas semanas, continuam a repetir a mesma ladainha sobre o assassinato da menina que se supõe que o pai e a madrasta a esganaram e a defenestraram. Além de viver num mundo com muitas pessoas que agem desta maneira, a TV repete esse lengalenga ad infinitum, e incita multidões a perderem tempo xingando os assassinos, enquanto milhões de crianças sofrem abusos de todo tipo e morrem de fome na África, no Nordeste brasileiro, na Serra Pelada etc., e ninguém se habilita a denunciar nem a fazer algo para mudar este quadro. Seria incomparavelmente mais proveitoso se os jornalistas promovessem campanhas que canalizassem a energia dessas pessoas que estão freqüentemente com sede de linchar alguém, para que elas contribuíssem para resolver concretamente o problema que aflige milhões de crianças que continuam vivas e sofrendo, para as quais ainda é possível prestar algum tipo de ajuda. Se esta massa de pessoas não fosse constituída por hipócritas e estúpidos, se realmente estivessem chocados com o que houve com a menina, seria esperado que se empenhassem para evitar que outros casos de agressão e abuso continuassem a ocorrer, e se organizassem num movimento sério para evitar que mortes como essa se repetissem. Como se tudo isso não bastasse, é totalmente antiética a exploração que a mídia faz da morte da menina, como subterfúgio para vender notícia e conquistar audiência. Se a menina morreu, como morrem tantas outras, é lamentável, mas é um evento estatístico, e deve-se ter em mente que o problema seria atenuado se houvesse foco nesta estatística, trabalhando para reduzir o número de crianças lesadas por familiares e tutores, em vez de fazer um extenso e bombástico “estudo de caso”, aliás com pouquíssima seriedade e abundância de sensacionalismo. A denúncia já foi feita, a Justiça está trabalhando no assunto, então o caso está encerrado para os curiosos, e que estes curiosos voltem às suas respectivas tarefas. Os policiais, os suspeitos, os promotores e advogados de defesa, que estão diretamente envolvidos, que continuem a cumprir a parte que lhes cabe. A mídia já noticiou o caso, ponto final. Prolongar o assunto na mídia é algo que me enoja, como fizeram com Ayrton Senna, como fazem sempre que surge uma “oportunidade” de explorar a desgraça alheia e conseguir publicidade às custas da morte de alguma celebridade, ou alguma morte particularmente ultrajante, ou querem fazer parecer particularmente ultrajante, quando na realidade é bastante típica. Esta cambada de justiceiros de plantão, ávidos pelo sangue dos supostos assassinos, é um exemplo de massas manipuláveis, de “marias vai c’as outras”, sem opinião própria, que apenas seguem o fluxo, e se todos estão falando nisso e vários estão querendo fazer justiça com as próprias mãos, eles seguem o fluxo. Se fosse um caso em que a Lei não cumprisse sua parte e deixasse os criminosos impunes, então até seria compreensível que algumas pessoas mais diretamente prejudicadas (a mãe da menina, neste caso) se incumbissem de fazer, “com as próprias mãos”, o que lhes parece justo, mas até o momento parecia que a Lei estava operando normalmente, e quem tenta se antecipar ao veredicto do juiz está agindo FORA DA LEI. Mas agora parece estar surgindo um quadro um pouco diferente, em que a polícia “científica” parece estar tentando mascarar alguns fatos, ou não sabem o que estão fazendo, ou possuem instrumentos com um nível de acurácia que desconheço (pelo menos não conheço disponível para comercialização).

O problema a que me refiro é que agora uma emissora disse que a polícia utilizará um “medidor de ruídos” (decibelímetro) para verificar se é possível, do apartamento ao lado, ouvir os supostos gritos de onde teria ocorrido uma discussão antes do suposto crime. Isso é um completo absurdo e qualquer pessoa com algum conhecimento sobre o assunto é levada imediatamente à conjecturar que estão tentando revestir de cientificidade uma escandalosa fraude A FAVOR dos suspeitos, porque um instrumento destes, de boa qualidade, como o ICEL modelo MD-6290, como o que possuo, tem sensibilidade de 40 dB. Ele é menos sensível do que os mais sensíveis do mercado por ser um multímetro, ou seja, é menos especializado e mais versátil (decibelímetro, luxímetro, termômetro ambiente, termômetro local, higrômetro, voltímetro, amperímetro, freqüencímetro). Os decibelímetros mais sensíveis disponíveis no mercado têm sensibilidade de 30 dB, portando 10 vezes mais sensíveis que o meu, mas isso ainda é 1 bilhão de vezes menos sensível do que o ouvido humano, portanto a melhor maneira de verificar se é possível ouvir determinada intensidade de ruídos a determinada distância, com ou sem obstruções e isolamentos acústicos entre os dois pontos, é usando o ouvido humano ou o ouvido de um cão ou de um coelho. O uso de decibelímetros típicos é recomendável para determinar níveis de ruído muito intensos, em ambientes de trabalho com excessiva poluição acústica, com a finalidade de definir normas sobre o uso de protetores auriculares pelos trabalhadores expostos a estes ruídos. Um liquidificador doméstico, por exemplo, atinge cerca de 93 dB, e isso está acima do limite considerado “seguro” para a saúde humana, que é situado em 80 dB. Portanto seria recomendável que em lanchonetes e outros locais que fazem sucos, as pessoas que trabalham na cozinha, especialmente aquelas que lidam diretamente com liquidificador, utilizassem protetores auriculares, e seria desejável que houvesse fiscalização quanto a isso, visando preservar não apenas a saúde auditiva mas também a saúde neurológica, psicológica e cardiovascular destas pessoas, pois ruídos acima de 85 dB aceleram os batimentos cardíacos, aumentam a produção de adrenalina, aumentam a pressão arterial, entre outros efeitos malévolos, e ruídos acima de 100dB chegam a desencadear crises epiléticas e outros efeitos graves em pessoas mais sensíveis. Embora muitas destas pessoas freqüentem shows de Rock, com 130 dB no ambiente, e fazem isso voluntariamente, mesmo assim não se pode dizer que não teria utilidade protegê-las dos liquidificadores, sob a falaciosa alegação de que elas próprias apreciam expor seus tímpanos a agressões muito mais severas, próximas ao limite físico que o tímpano pode suportar sem se romper, que é cerca de 140 dB. De fato, elas podem se expor a condições impróprias, mas o fazem voluntariamente. É diferente de serem obrigadas a se submeterem a uma situação consensualmente nociva, pois tal falácia seria equivalente a expor compulsoriamente pessoas fumantes a ambientes impregnados de venenos, alegando que se estas pessoas voluntariamente ingerem e inalam venenos do cigarro, então não haveria mal em submetê-las a outras condições impróprias para a saúde. A diferença fundamental está na compulsoriedade: se a pessoa fuma voluntariamente, é problema dela. Se ela inala venenos contra a vontade dela, isso é criminoso e quem a obriga a isso deve ser impedido e/ou penalizado. Analogamente, se a pessoa fumante pratica seu péssimo hábito em ambientes nos quais há outras pessoas nas vizinhanças (num raio de 100 metros), a fumante também está incorrendo no mesmo crime moral, por submeter outras pessoas aos venenos de seu cigarro, e contra a vontade das demais pessoas. Se ela quer inalar veneno, e não havendo Lei que a proteja de sua ignorância, então que o faça longe de outras pessoas, sobretudo longe de crianças.

Pois bem. O fato é que o uso do tal instrumento para verificar se é possível ouvir o que supostamente teria ocorrido na ocasião do suposto crime, consiste num ridículo subterfúgio que favorece deslavadamente a defesa, por recorrer a um teste 1 bilhão de vezes menos sensível do que seria o método mais simples e funcional, que consistiria em usar o instrumento apropriado, que é o ouvido humano, e colocar duas pessoas conversando alto num ponto A, outra pessoa anotaria o que ela ouviu sobre a conversa no ponto B, e assim ficaria evidenciado que é possível ouvir conversas e gritos de A para alguém situado no ponto B, ou não. Para que haja mais rigor metodológico no experimento, pode-se tentar manter o mesmo nível de ruído de fundo com o qual os gritos deveriam contrastar, e para tanto seria conveniente repetir a medição no mesmo horário e mesmo dia da semana que houve o suposto crime. Além disso, as próprias pessoas que alegaram ter ouvido os gritos deveriam verificar se podiam de fato ouvir, em vez de usar outras pessoas com acuidades auditivas possivelmente diferentes. E outros detalhes, como janelas e portas abertas ou fechadas, deveriam ser reproduzidos tão fielmente quanto possível em relação à ocasião do suposto crime.

O simples fato de recorrerem ao uso de um instrumento de baixíssima sensibilidade em comparação ao equivalente órgão sensorial humano, denuncia uma falha gravíssima na apuração dos fatos, pois reduz imensamente as probabilidades de o instrumento detectar sons que o ouvido humano facilmente detectaria. E numa civilização tecnocrata, em que máquinas geralmente são consideradas mais confiáveis do que humanos em diversas situações, e normalmente de fato são mais eficientes, parece-me notório que estejam se valendo desta crença cega na exatidão das máquinas, amplamente amparada na experiência cotidiana com numerosas máquinas que facilitam nossa vida, para respaldar a hipótese falsa de que não seria possível ouvir os gritos a determinada distância. Axiomatizando o problema para que se possa dar a ele um tratamento mais formal, podemos dizer basicamente que o que fazem é propor a tese de que “talvez as testemunhas que alegam ter ouvido brigas do casal estejam equivocadas”, e constroem o seguinte corolário:

P1) Máquinas são mais confiáveis para medidas físicas do que impressões humanas.
P2) O decibelímetro é uma máquina.
P3) O decibelímetro mostra que não é possível detectar ruídos à distância em que as testemunhas se encontravam da cena do suposto crime.
P4) Gritos chegam a cerca de 90 dB e a sensibilidade do decibelímetro é de 30 dB (o que apareceu na TV parecia ter 50db), portanto detectáveis pelo aparelho.
P5) As testemunhas alegam ter ouvido gritos, o que contradiz a proposição P4, e com base em P1, devemos concluir que as testemunham devem estar equivocadas, pois foram refutadas pelo aparelho.
Conclusão: não ocorreu a discussão nem os gritos alegados pelas testemunhas (Quod Erat Demonstrandum).

As falhas nesta “demonstração” são:

1) Na premissa 1, o correto seria declarar que “geralmente máquinas são mais confiáveis”, ou seja, nem todas as máquinas são mais confiáveis, mais precisas, mais sensíveis do que a percepção humana. E neste caso se aplica exatamente esta exceção.

2) Em P4, é importante usar análise dimensional para determinar corretamente que a pressão sonora diminui aproximadamente com o quadrado da distância (em ambientes abertos), variando ligeiramente esta proporção em ambientes com obstruções. Se a uma distância de 1m os gritos podem atingir 90 dB por metro quadrado, quando se passa a uma distância muito maior, a percepção da intensidade dos mesmos gritos cai na proporção do quadrado da distância à fonte sonora, portanto uma pressão sonora com intensidade I a 1 metro passaria a ter intensidade 400 vezes menor a 20 metros de distância. No SI se adota dBSPL, dBIL e dBPWL, representando respectivamente pressão sonora, intensidade sonora e potência sonora, e podem ser respectivamente convertidos em unidades típicas de pressão (Pascal, bar, atm, N.m^2), intensidade (Watts/m^2) e potência (Watts). Graças a esta equivalência se pode calcular que a explosão de 1 tonelada de TNT a 20 m de distância teria 195dB, a bomba atômica de 12,5 kton lançada em Hiroshima, em 1945, causou um estrondo de 247dB à distância padrão de 1m, a bomba nuclear de 15 Mton lançada em Bikini, em 1954, teve 278dB (a 1m) e a erupção vulcânica do Tambora, na Indonésia, em 1815, foi de 320 dB (a 1m).

Talvez eu esteja equivocado e eles não estejam fazendo uso de um procedimento incorreto por má fé, mas sim por falta de conhecimento. Ou ainda pode ser que utilizem decibelímetros mais sensíveis do que os que são encontrados no mercado internacional, embora eu considere improvável que cheguem a um nível comparável ao do ouvido humano.