Este artigo se divide em quatro partes:
1) Considerações iniciais.
2) Cuidados a serem tomados ao avaliar uma alegação
de recorde.
3) Lista de recordes.
4) Reprodutibilidade de uma performance. Em que medida um recorde é fruto da sorte e em que medida pode ser encarado como reflexo de uma estratégia realmente eficiente.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Há fontes que dizem que “alguns consideram Jesse
Livermore o maior trader de todos os tempos”. Trata-se de uma afirmação
totalmente despropositada. Não é que “alguns consideram”.
O fato concreto é que ele foi objetivamente, de longe, o maior trader
da história, e ninguém chegou perto de suas performances. Enquanto
Buffett ganhou apenas 1,5 milhões por cento em 45 anos, Livermore ganhou
2 bilhões por cento em 38 anos (já computadas todas as suas falências),
1.500 vezes mais do que Buffett. A alegação de que Livermore foi
muito agressivo obviamente só aumenta seus méritos, pois normalmente
traders agressivos quebram muito rápido e nunca se recuperam. No livro
“Market Wizards”, praticamente todos os maiores traders da história
que foram entrevistados, relataram que já quebraram. A diferença
é que a esmagadora maioria quebra e não se recupera, enquanto
os grandes traders recuperam-se completamente. Outra diferença é
que a maioria dos traders conservadores nunca consegue ganhar o suficiente para
mudar seu padrão de vida, apenas conseguem corrigir monetariamente seu
patrimônio e remunerá-lo um pouco acima da inflação,
enquanto os melhores traders agressivos conseguem galgar vários degraus
na escala sócio-econômica, e nesse aspecto Livermore foi excepcional,
saindo da base da pirâmide e ascendendo até o topo, deixando uma
situação de extrema pobreza para se tornar um dos homens mais
ricos do mundo. No caso de Livermore, a curva de crescimento é muito
oscilante e chegou a zero (e até negativo) algumas vezes, enquanto as
curvas de crescimento de Simons, Soros, Buffett e outros raramente ficaram mais
de 10% negativas. Se levar em conta este fato, podemos apenas reduzir as performances
de Livermore em 10:1, de modo que suas perdas máximas de 100% caiam para
10%, e ainda assim, se operasse com um risco 10 vezes menor, ele seria de longe
o maior trader da história.
Livermore é recordista em praticamente todos os níveis, desde
daytrade até períodos de décadas, de modo que quase se
pode considerá-lo our concours.
Nesta página registraremos as maiores performances em investimentos de
que se tem conhecimento. Solicitamos aos visitantes que enviem os recordes que
conhecem, juntamente com documentação que comprove a alegação.
Os recordes que apuramos até o momento são apresentados a seguir:
LISTA DE RECORDES (ATÉ 15/4/2008):
Recorde em 50 anos:
Jesse Lauriston Livermore (456 meses): 2.000.000.000% (56% ao ano, 3,76% ao
mês)
Warren Buffett (546 meses): 1.499.720% (23,53% ao ano, 1,78% ao mês)
Recorde em 40 anos:
Jesse Lauriston Livermore (456 meses): 2.000.000.000% (56% ao ano, 3,76% ao
mês)
Georges Soros & Stanley Druckenmiller (396 meses): 397.345% (28,55% ao ano,
2,11% ao mês)
Recorde em 20 anos:
Jesse Lauriston Livermore (192 meses): 60.000.000% (130% ao ano, 7,2% ao mês)
Ed. Seykota (204 meses): 299.900% (60,154% ao ano, 4,003% ao mês)
Michael Marcus (120 meses): 266.567% (120% ao ano, 6,79% ao mês)
Bruce Kovner (120 meses): 49.900% (86,2% ao ano, 5,32% ao mês)
Larry Hite (96 meses): 39.900% (111,5% ao ano, 6,44% ao mês)
Georges Soros (240 meses): 29.936% (32,987% ao ano, 2,404% ao mês)
James Simons (204 meses): 26.890% (39% ao ano, 2,78% ao mês)
Recorde em 15 anos:
Jesse Lauriston Livermore (120 meses): 3.000.000% (180% ao ano, 9,0% ao mês)
Michael Marcus (120 meses): 266.567% (120% ao ano, 6,79% ao mês)
Bruce Kovner (120 meses): 49.900% (86,2% ao ano, 5,32% ao mês)
Larry Hite (96 meses): 39.900% (111,5% ao ano, 6,44% ao mês)
Recorde em 10 anos:
Jesse Lauriston Livermore (120 meses): 3.000.000% (180% ao ano, 9,0% ao mês)
Michael Marcus (120 meses): 266.567% (120% ao ano, 6,79% ao mês)
Bruce Kovner (120 meses): 49.900% (86,2% ao ano, 5,32% ao mês)
Larry Hite (96 meses): 39.900% (111,5% ao ano, 6,44% ao mês)
Recorde em 5 anos:
Jesse Lauriston Livermore (60 meses): 220.000% (366% ao ano, 13,7% ao mês)
Paul Tudor Jones (60 meses): 21.900% (194% ao ano, 9,4% ao mês)
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
(136.000% ao mês)
Monroe Trout (60 meses): 2.300% (89% ao ano, 5,4% ao mês)
Bill Lipschutz (48 meses): 1.983% (113,6% ao ano, 6,53% ao mês)
Recorde em 4 anos:
Jesse Lauriston Livermore (48 meses): 60.000% (371% ao ano, 14,3% ao mês)
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
(136.000% ao mês)
Bill Lipschutz (48 meses): 1.983% (113,6% ao ano, 6,53% ao mês)
Recorde em 3 anos:
Jesse Lauriston Livermore (36 meses): 17.000% (455% ao ano, 15,4% ao mês)
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
(136.000% ao mês)
David Ryan (36 meses): 1.379% (145,5% ao ano, 7,77% ao mês)
Better by Olexandr Topchylo (3 meses): 1204,75% (135,42% ao mês) Campeão
do Automated Trading Championship 2007 (603 participantes)
Recorde em 2 anos:
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
(136.000% ao mês)
Jesse Lauriston Livermore (24 meses): 5.000% (614% ao ano, 17,8% ao mês)
Better by Olexandr Topchylo (3 meses): 1204,75% (135,42% ao mês) Campeão
do Automated Trading Championship 2007 (603 participantes)
Marty Schwartz (12 meses): 781% (19,88% ao mês) Campeão da Universidade
de Stanford
Recorde em 1 ano:
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
(136.000% ao mês)
Jesse Lauriston Livermore (12 meses): 3.100% (33,5% ao mês)
Better by Olexandr Topchylo (3 meses): 1204,75% (135,42% ao mês) Campeão
do Automated Trading Championship 2007 (603 participantes)
Marty Schwartz (12 meses): 781% (19,88% ao mês) Campeão da Universidade
de Stanford
Recorde em 6 meses:
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
(136.000% ao mês)
Jesse Lauriston Livermore (6 meses): 1.300% (55% ao mês)
Better by Olexandr Topchylo (3 meses): 1204,75% (135,42% ao mês) Campeão
do Automated Trading Championship 2007 (603 participantes)
Recorde em 3 meses:
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
(136.000% ao mês)
Better by Olexandr Topchylo (3 meses): 1204,75% (135,42% ao mês) Campeão
do Automated Trading Championship 2007 (603 participantes)
Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 1.041%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
MACD by Rich Roman (3 meses): 251,76% (57,47% ao mês) Campeão do
Automated Trading Championship 2006 (255 participantes)
Recorde em 2 meses:
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
Saturno V 2.5c by Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 2.524%
Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 1.041%
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
Recorde em 4 semanas:
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
Saturno V 2.5c by Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 2.524%
Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 1.041%
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
Recorde em 3 semanas:
Saturno V 2.5f by Hindemburg Melão Jr. (0,57 mês = 17 dias): 5.873%
Saturno V 2.5c by Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 2.524%
Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 1.041%
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
Recorde em 2 semanas:
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,37 mês = 11 dias): 4.302%
Saturno V 2.5c by Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 2.524%
Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 1.041%
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
Recorde em 1 semana:
Saturno V 2.5c by Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 2.524%
Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 1.041%
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
Recorde em 4 dias:
Saturno V 2.5c by Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 2.524%
Hindemburg Melão Jr. (0,14 mês = 4 dias): 1.041%
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
Recorde em 3 dias:
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Saturno V 2.5c by Hindemburg Melão Jr. (0,10 mês = 3 dias): 541%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
Recorde em 2 dias:
Saturno V 2.6 by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 583%
Jesse Lauriston Livermore (0,07 mês = 2 dias): 560%
Guinho 2008b by Hindemburg Melão Jr. (0,07 mês = 2 dias): 407%
As performances de Livermore acima de 5 anos foram calculadas com base no conteúdo
do livro “Reminiscências de um especulador financeiro”. Sua
performance de 560% em 2 dias também foi extraída deste livro.
As performances de alguns meses até 5 anos foram interpoladas com base
em dados do mesmo livro. É importante chamar a atenção
para o fato de que com carteiras virtuais se pode assumir riscos maiores, sem
tanta responsabilidade com as perdas, o que faz dos recordes de Livermore (com
dinheiro real) proezas totalmente fora do comum.
Se você conhece recordes que não constam nesta lista, por gentileza, envie conta e senha ou alguma outra referência segura para confirmação.
CRITÉRIOS PARA ACEITAÇÃO DE UM RECORDE
São consideradas confirmações válidas:
Conta e senha (somente leitura) de contas (demonstrativas ou reais) para acompanhamento
on-line no próprio servidor da corretora.
Resultados de competições cujos resultados sejam anunciados publicamente
(Automated Trading Championship, Forex World Cup, Windsor Contest, InterbankFx
Tournament, FolhaInvest em Ação, simulador da BM&F etc.)
Cópia autenticada de documentos emitidos pela CBLC com demonstrativos
de operações.
Outros documentos emitidos por fontes oficiais ou que não sejam adulteráveis.
Não são consideradas confirmações
válidas:
Printscreen da conta e outras imagens.
Relatório HTML do Meta Trader ou similar.
Gráficos de performance desacompanhados de conta e senha para confirmação.
Outras pretensas evidências que sejam obviamente adulteráveis.
Outras alegações desacompanhadas de evidências indicadas
na lista de “confirmações válidas”.
Também aceitamos evidências publicadas em livros, especialmente
se houver mais de uma fonte independente. Nos casos de recordes antigos, fica
mais difícil obter a comprovação. Nestes casos estamos
adotando critérios mais flexíveis. Nos casos de James Simons,
George Soros e Warren Buffett, por serem gestores de fundos cujas rentabilidades
são anunciadas publicamente e citadas em livros, fica fácil confirmar
a legitimidade dos dados. Nos casos das performances de Livermore em bucketshops,
de Descartes, Pascal e Fermat em bolsas do século XVII, praticamente
não há como verificar as alegações. Quando surge
um caso assim, considerando que a fonte não tem interesse direto em disseminar
uma informação incorreta (ainda que possa haver tal interesse
por mero sensacionalismo), e tendo em conta a comprovada reputação
dos traders mencionados, preferimos aceitar a alegação como válida,
com a ressalva de que não há confirmação (ou não
conhecemos a tal confirmação). Um detalhe importante: a aceitação
de uma fonte menos segura para um recorde de Livermore se fundamenta na reputação
de Livermore, mas no caso de um trader menos conhecido com uma reivindicação
equivalente, seria mais difícil aceitar uma comprovação
que não cumpra rigorosamente os quesitos definidos mais acima.
Nos casos de recordes em simulações, não
são aceitos resultados de back tests, pois estes dependem da qualidade
da base de dados em que foram realizados. Em bases de baixa qualidade, se consegue
resultados incríveis (mais de 50.000.000.000% em 1 mês), mas que
não são reprodutíveis em situação real. Só
aceitamos resultados de simulação em tempo real. Além disso,
nos back tests as simulações nos próprios períodos
em que foi feita a otimização produzem resultados distorcidamente
altos.
As medidas de performance são feitas com base em posições
fechadas, ou seja: depois de uma compra e o fechamento desta compra, compara-se
a carteira inicial e a final (balanço). Além disso, o equity precisa
ser igual ao balanço no momento da comparação, caso contrário
se pode ter um equity baixíssimo e um balanço relativamente alto.
A forma correta de medir performance é com base no balanço=equity.
Obviamente as performances são medidas com base na carteira inteira.
Se uma pessoa consegue +8900% em um dia em uma operação com opção
da Petrobrás de R$ 0,01, e nesta operação investiu 0,1%
de sua carteira, então o lucro foi 8,9% sobre o total da carteira. Isso
não é nenhum recorde.
Outro detalhe relevante: um recorde sempre deve ser medido entre o start de
uma carteira e determinado momento posterior. Não faz muito sentido escolher
“a dedo” dois momentos após o start, porque desse modo a
“construção” de performances artificialmente altas
se torna muito mais fácil.
Por fim, um caso engraçado: um amigo insiste em reivindicar, para um
conhecido dele, um recorde de 90.000% em 1 dia, com base apenas num relatório
HTML do Meta Trader. Repetirei aqui o mesmo que eu já disse a ele: basta
me apresentar número de conta e senha para confirmação,
e o recorde será reconhecido. Neste caso, como ele diz que se trata de
um sistema automático (EA), a confirmação é mais
fácil ainda, pois basta colocá-lo novamente para rodar e certamente
ele conseguirá pelo menos 1000% em 1 dia, o que já será
suficiente para bater recordes. Também convém examinar matematicamente
a exeqüibilidade desta reivindicação: o EA deste suposto
recorde teria executado 1.800 operações em 1 dia, fazendo scalpings
de 1 pip, conforme consta no relatório HTML que ele me enviou. Se o Saturno
V 2.6 faz scalpings muito maiores que 1 pip e realiza 8.900 operações
em 1 dia, com alavancagem 500:1 (máxima que existe), e mesmo assim consegue
apenas 200% ao dia, parece-me que não há como conseguir o quanto
ele alega nas condições que constam no relatório supracitado.
O mais provável é que seja um relatório baseado em back
test, o conhecido dele adulterou o HTML de modo a parecer foi um teste em tempo
real (formatou as colunas como num relatório em tempo real), pois nos
back tests em bases de 1 minuto (inapropriadas) costumam ocorrer dezenas de
trades falsos dentro de um mesmo candle, conforme descrevo em um de meus artigos,
e isso explicaria o efeito observado com ganhos matematicamente impossíveis
de serem reproduzidos em tempo real.
REPRODUTIBILIDADE DE UMA PERFORMANCE
Os recordes são números parcialmente produzidos
pela "sorte" e parcialmente refletem a real eficiência de um
sistema ou habilidade de um trader. Um fator muito importante para avaliar se
uma performance é predominantemente resultante da sorte é a constância
dos resultados. Rich Roman, por exemplo, foi campeão do Automated Trading
Championship 2006, com +252% em 3 meses, mas ficou negativo no ATC 2007. O mesmo
sucedeu aos primeiros colocados do ATC 2006. Nas competições da
Folha Invest, também é comum que a pessoa que fica em primeiro
lugar durante um mês não fique em primeiro nos próximos
anos, nem sequer entre os primeiros colocados, e fica negativa na maioria dos
outros meses. Meu recorde de 1041% em 4 dias, por exemplo, também foi,
em certa dose, fruto da sorte, pois apesar dos bons critérios para tomadas
de decisão, o padrão que surgiu é relativamente raro, logo
trata-se de uma oportunidade também rara (tive a “sorte”
de a tal oportunidade surgir naquele momento), um padrão complexo (13
pontos relevantes) que se repetiu parcialmente, sugerindo que continuaria a
se repetir, como de fato o fez. Então daria para ganhar 10% naquele período,
ou até mais, talvez cerca de 15%, com risco muito baixo (mais de 50 vezes
menor do que o risco assumido na quebra do recorde), porém outra oportunidade
como esta não surgiria tão cedo, talvez 1 ou 2 por ano, então
o lucro de 10% a 15% em 4 dias acabaria resultando numa performance média
de 20% a 30% ao ano, e ainda assim seria muito atraente, pois teria risco menor
do que os fundos que geram 18% ao ano. O uso do topo do critério Kelly
para definir o risco máximo a ser assumido talvez possibilitasse chegar
a pouco mais de 120% ao ano, com risco semelhante ao dos fundos que geram 45%
ao ano. Os fundos que geram 70% a 90% ano geralmente extrapolam os limites do
critério Kelly e existem para atrair jogadores que gostam de cassinos,
não investidores, ou pessoas sem conhecimentos de Estatística
e sem nenhuma experiência no Mercado, que acabam se iludindo com performances
absurdas, causadas por “bolhas”, como tem ocorrido com Petrobrás
e Vale nos últimos anos, semelhantes (e menos graves) do que aconteceu
à Microsoft, que cresceu, em média, 54% ao ano entre 1987 e 1999,
mas entre dezembro de 1999 e dezembro de 2000, caiu 67% e até hoje não
se recuperou da queda, e os portadores destas ações estão
com cerca de 50% de prejuízo, e quem comprou ações da HP
ficou 77% negativo. Entrar no final da bolha quando ela estoura é perigosíssimo,
e nunca se sabe quando a bolha está prestes a estourar. Para quem usa
uma adaptação adequada do critério Kelly numa estratégia
eficiente, consegue resultados positivos a longo prazo, com ou sem bolha. Quem
faz qualquer outro tipo de gestão de capital, fatalmente levará
margin call, é apenas questão de tempo, pois o critério
Kelly não é uma invenção para enfeitar livros de
Matemática. É uma descoberta de uma propriedade fundamental inerente
ao Mercado (e a todos os jogos). Mesmo que a pessoa nunca tenha ouvido falar
em critério Kelly, se ela tentar otimizar a gestão de capital,
acabará encontrando a mesma fórmula proposta por Kelly, ou alguma
adaptação com mesma estrutura do critério Kelly. Por isso
conseguir 30% ao ano usando o critério Kelly é muito melhor do
que conseguir 40% ou mais estourando os limites do critério Kelly. No
caso das operações com ouro que resultaram no recorde de 1041%
em 4 dias, foram muito acima dos limites definidos pelo critério Kelly,
tanto é que no quinto dia, depois de ultrapassar 2000%, acabei levando
margin call. Se adotasse 1/3 do piso ou 1/3 do teto do critério Kelly,
resultaria em 10% a 15% em 4 dias, praticamente sem risco de quebrar, portanto
seria muito mais interessante para investimentos reais, no entanto estas oportunidades,
conforme foi dito, são raras, então resultaria em cerca de 20%
a 30% ao ano. É diferente de um sistema automático que não
se baseia em padrões raros, mas em padrões freqüentes (Guinho_2008
e Melao_Tendencia) ou em outras propriedades inerentes ao mercado (Saturno_V),
o que praticamente elimina o fator sorte, além de sempre definir um nível
de risco otimizado para maximizar o lucro sem chegar ao ponto de ter perigo
de quebrar. Isso possibilita realizar várias operações
por ano, como o Guinho 2008, ou até mesmo várias por minuto, como
o Saturno V. Nos testes a rentabilidade é altíssima por explorar
os limites extremos de risco que se pode chegar até quebrar, mas em condições
reais, basta adotar o critério Kelly com uma adaptação
apropriada. No caso do Saturno V, não basta usar o critério Kelly,
mas há mecanismos descritos em nosso artigo sobre Martingale em que explico
como se pode adotar uma gestão de capital de proteção para
este tipo de EA.
O cálculo dos valores a serem investidos com base no critério
Kelly num jogo como roleta ou black jack é bem simples, porque todas
as variáveis são conhecidas com alta precisão. No Mercado
há algumas complicações adicionais, a começar pela
determinação do valor de “p”, que não é
constante. Num jogo de dados, cada face tem aproximadamente 1/6 de probabilidade
de ocorrer e isso é aproximadamente constante (muda um pouco com o vento,
com efeitos de maré gravitacional, cansaço e treino do lançador,
diferenças de textura na superfície da mesa e das faces do dado
etc.). Num jogo como poker, o valor de p também é mais difícil
de calcular, porque os elementos psicológicos têm um peso bastante
considerável e as probabilidades de blefe oscilam de maneira difícil
de prever, mas depois que se determina uma vez o valor de p no Poker, ele permanece
oscilando dentro de limites razoavelmente bem determinados e com isso se tem
uma solução satisfatória ao problema. Mas no Mercado é
bem mais complexo, porque as probabilidades de qualquer estratégia funcionar
mudam o tempo todo, e não há intervalos bem definidos sobre os
limites dentro dos quais estas probabilidades oscilam, forçando a introduzir
algumas adaptações. O uso de 1/3 a 1/10 do critério, em
vez de usar o valor inteiro, é um dos recursos recomendáveis,
mas apenas isso não resolve, além disso, usar 1/3 do critério
Kelly costuma gerar rendimentos menores do que a renda fixa para todas as estratégias
de travas (em estratégias sem travas, as dificuldades são muito
maiores), o que praticamente obriga a adotar outras estratégias ou, como
faz a maioria, a usar riscos insanos, muito acima dos limites aceitáveis
do critério Kelly. Há pessoas que declaram ganhar 2% a 3% usando
travas. Isso não é possível, porque partem da hipótese
ingênua de que a heteroscedasticidade do Mercado é muito menor
do que a real, por isso pode funcionar, por mera sorte, durante alguns meses
ou anos, enquanto a volatilidade permanece dentro dos limites sonhados e desejados
pelo trader, mas quando ela sai destes limites, a dura realidade começa
a mostrar suas garras e dilacerar a tranqüilidade de quem pensava estar
seguro. Mesmo que a pessoa não entenda os motivos técnicos que
justificam porque não é possível ganhar muito mais do que
a renda fixa usando travas, por questões de feeling e bom senso qualquer
um pode deduzir que se fosse possível ganhar 2% ao mês com métodos
tão básicos e tão amplamente conhecidos, haveria multidões
de fundos fazendo isso há décadas. Mas no mundo real, apenas fundos
recentes fazem isso, pois os que fizeram isso durante alguns anos já
quebraram, ou mudaram de método por não conseguir superar a renda
fixa.
Para encontrar o valor correto de “p” num determinado período
é necessário fazer centenas ou milhares de testes. No caso de
minhas operações com ouro, por exemplo, é extremamente
difícil encontrar um valor razoável para p, já que a quantidade
necessária de testes não pode ser realizada. Então o valor
de p precisa ser estimado por outros meios. Obviamente no caso deste recorde
eu intencionalmente assumi riscos extremos, mas se quisesse encontrar os valores
ótimos a serem aplicados em cada operação, a maneira mais
correta de calcular o valor de p seria contar quantas vezes surgem padrões
com aquele nível de complexidade e que depois de certo tempo voltam a
se repetir parcialmente, e então verificar qual fração
do padrão e com que freqüência chega a se reproduzir em cada
caso. Isso forneceria os dados necessários para calcular o valor de p,
e conhecendo p seria possível determinar os valores ótimos a serem
aplicados em cada trade. A maneira que descrevi acima para calcular p é
quase impraticável. Há uma maneira mais simples e rápida,
porém menos acurada, que serve apenas como estimativa da ordem de grandeza.
Isso significa que é humanamente impossível definir os valores
corretos de p. Eu disse HUMANAMENTE IMPOSSÍVEL, mas com sistemas automáticos,
que fazem centenas de milhares de testes em bases de 10, 20, 30 anos ou até
mais, o cálculo de p se torna trivial, bem como as variações
de p, os valores ótimos para stop loss, take profit, trailing stop e
os valores ótimos para todos os indicadores.
Pessoas que usam manualmente Análise Técnica, mesmo que o façam
com estratégias requintadas e bem fundamentadas, o que é raríssimo,
quando ganham no Mercado é por pura sorte, porque além de a estratégia
ser boa, todos os parâmetros precisariam ser calibrados com precisão
para que ela funcionasse de fato, e isso requer milhares de testes. Os analistas
fundamentalistas realmente bons ou os analistas técnicos adeptos de estratégias
de hedge baseadas em volatilidade podem ficar com rentabilidade semelhante à
da renda fixa a longo prazo (cerca de 1% ao mês), o que é excelente,
já que quase todos ficam negativos a longo prazo, então qualquer
coisa positiva é excelente. Podem ficar com 3% ao mês por algum
tempo, mas depois de vários anos computando também os períodos
negativos, inevitavelmente estabilizam com média de 1% ao mês (basta
testar e comprovar), isso se fizerem uma excelente gestão de capital,
caso contrário ficam negativos a longo prazo, como acontece a mais de
99% dos investidores depois de 10 anos ou mais. Aliás, aqui cabe fazer
um comentário importante: algumas fontes dizem que 90% das pessoas perdem
no Mercado. Outras fontes falam em 95% e outras falam em 98%. Qual delas está
correta? Na verdade todas estão. Depende do período considerado.
Em períodos muito curtos, como 1 dia, poucas pessoas ficam negativas,
talvez mais de 80% fiquem positivas no primeiro dia. Depois de 1 semana, talvez
50% fiquem positivas. Depois de 1 mês, talvez 30% fiquem positivas. Depois
de 1 ano, talvez 10% fiquem positivas. Depois de 2 anos, talvez 5% fiquem positivas.
Depois de 4 anos, menos de 2% devem ficar positivas. Depois de 5 anos, menos
de 1% ficam positivas e assim sucessivamente, aproximadamente caindo pela metade
a cada ano, de modo que em 15 anos menos de 0,001% das pessoas conseguem ficar
positivas. Esta função está simplificada, na verdade as
proporções reais variam num ritmo diferente, dependendo também
se o Mercado está subindo ou caindo.
Ao analisar um pretenso recorde, outro fator importante a considerar é
a probabilidade de uma altíssima performance ser apenas uma ocorrência
fortuita num grupo gigantesco de competidores. No simulador da BM&F, por
exemplo, entre 7000 participantes com alta alavancagem, é esperado que
o campeão tenha cerca de 700.000% de lucro, e de fato é esta a
performance do campeão. Na FolhaInvest as performances são menores
porque além de não ter alavancagem, há diversas restrições
sobre o que pode ser feito. Também há um truque básico
que consiste em comprar e vender o mesmo ativo ao mesmo tempo, com objetivo
de lucro em 100%. Se começar com 1024 carteiras, depois de algum tempo
512 delas estarão quebradas e 512 estarão com quase 100% de lucro
cada (descontando corretagem e outras taxas). Depois haverá 768 quebradas
e 256 com 300% de lucro. Depois haverá 896 quebradas e 128 com 700% de
lucro. Depois haverá 960 quebradas e 64 com 1300% de lucro e assim sucessivamente,
até que no final haverá 1023 quebradas e 1 com 100.000% de lucro.
Com quantidade suficientemente grande de competidores e com regras flexíveis
que não limitem o tamanho dos lucros, se pode atingir performances tão
altas quanto se queira, sem que isso sirva para nada. Um resultado realmente
impressionante seria se o campeão do ATC 2006 conseguisse pelo menos
20% em 3 meses no ano seguinte. No caso de Saturno V, desde a versão
2.1 ele tem obtido várias performances acima de 1000% em menos de 1 mês,
e mais de 70% das vezes ele atinge mais de 100% antes de quebrar, o que lhe
confere esperança matemática positiva a longo prazo.
Há vários outros critérios importantes para se avaliar
a relevância de um recorde, mas estes são suficientes para descartar
a maioria dos “sortudos”. É importante lembrar que um recorde
não precisa ser comprovado com habilidade para ter seu mérito
como recorde. Basta que haja documentação comprobatória
apropriada. A utilidade da avaliação se um recorde é fruto
exclusivamente da sorte ou se é parcialmente resultante de uma boa estratégia
obviamente está relacionado à aplicação da tal estratégia
em conta real. O recorde em si, não tem nenhum valor prático.
Mas o recorde com amplo respaldo teórico e estatístico, reprodutível
com estabilidade, vai além dos aspectos competitivos e atinge a finalidade
científica de modelar o Mercado e conseguir uma ou mais estratégias
com esperança matemática positiva. Um recorde de 5000% em menos
de 1 mês, com 130.000 operações, 62% das quais lucrativas,
não tem valor por si, mas é extremamente importante quando se
leva em conta que esta mesma estratégia consegue gerar 100% com em mais
de 70% das vezes, consegue gerar 1000% mais de 12% das vezes e consegue 5000%
mais de 3% das vezes. Nos três casos a freqüência das ocorrências
multiplicada pelo tamanho do lucro fica muito maior do que 1
(2 x 0,7 = 1,4, 11 x 0,12 = 1,32
e 51 x 0,03 = 1,53). O significado
disso é muito importante é bem simples:
Abra 1000 contas com $100.000 e encerre cada conta que chegar em 100% ou cada
conta que perder tudo. Depois de certo tempo, 700 contas terão chegado
a 100% e 300 contas terão perdido tudo. Resultado líquido depois
de computar todos os lucros e todas as contas quebradas: 40% de lucro.
Abra 1000 contas com $100.000 e encerre cada conta que chegar em 1000% ou cada
conta que perder tudo. Depois de certo tempo, 120 contas terão chegado
a 1000% e 880 terão perdido tudo. Resultado líquido: 32% de lucro.
Abra 1000 contas com $100.000 e encerre cada conta que chegar em 5000% ou cada
conta que perder tudo. Depois de certo tempo, 30 contas terão chegado
a 5000% e 970 terão perdido tudo. Resultado líquido: 53% de lucro.
Na verdade o procedimento ideal é bem mais sofisticado do que isso, e
não requer que a pessoa abra 1000 contas. Este resumo grosseiro serve
apenas para proporcionar uma idéia básica de como se usa este
sistema. Há mais comentários sobre isso em nosso artigo sobre
Martingale.
Os dados acima possibilitam inclusive fazer alguns prognósticos que depois
de uma quantidade suficientemente grande de testes, teremos alguns recordes
de 10.000%, 50.000% e até mais, sendo menos freqüentes quanto maiores
forem as performances. Isso, por si, não diz nada. Mas o fato de a freqüência
multiplicada pela performance ser maior do que 1, isso sim, diz tudo.